Chapter Five

Joseph Narrando
Eu me sentia perdido, como se de repente tudo em que eu acreditava desaparecesse e se mostrasse uma grande mentira. Eu estava confuso e assustado e não gostava nem um pouco de me sentir assim, parecia que tinha algo faltando, como se algo tivesse se quebrado dentro de mim e se perdido, e eu não fazia ideia de como concertar isso. Rebeca andava de um lado para o outro do apartamento tentando pensar em alguma coisa útil pra ajudar Demi, mas eu não conseguia parar de ver o rosto de Marcus na minha frente, com aqueles olhos sinistros e o sorriso debochado... Eu o matei séculos atrás e ele agora estava de volta pra me atormentar, aquilo era tão louco e bizarro. Como eu cheguei aquele ponto?
__Eu não sei se isso vai funcionar, mas eu preciso tentar__ Rebeca disse finalmente__ vou fazer um feitiço de localização, talvez eu consiga descobrir pra onde levaram Demi.
__Como vai fazer isso?__ perguntei mesmo sem querer saber.
__Preciso de um objeto pessoal da Demi, algo importante, com que ela tenha uma ligação forte.
Me levantei em silêncio e caminhei até o quarto, Rebeca me seguiu confusa querendo saber o que eu ia fazer. Achei o que queria na cabaceira da cama, era uma tornozelheira de ouro com as letras formando a palavra Dream. Eu a peguei entre meus dedos e a ofereci a Rebeca.
__Acho que isso é dela__ disse mesmo sem entender como eu sabia daquilo.
__Você está lembrando de algo?__ ela sorriu esperançosa pra mim.
__Eu não sei ok?__ respondi nervoso, não queria que esperassem nada de mim__ eu só sei que isso é dela.
__Tudo bem, fiquei calmo__ ela pediu__ eu vou fazer o feitiço.
Ela voltou à sala e eu observei do canto enquanto ela pegava algumas coisas estranhas e se preparava pra fazer o tal feitiço, eu conhecia Rebeca há um tempo, mas nunca me acostumei a vê-la fazendo esses feitiços, toda essa coisa de bruxaria ainda era esquisita pra mim. Na verdade me lembro de sentir raiva dela, eu achava que ela tinha que ter me ajudado, que tinha que ter impedido a tragédia que aconteceu comigo, afinal ela era poderosa. Agora já não fazia mais diferença , eu não podia mudar o que tinha acontecido, só aceitar. O engraçado é que agora parecia doer bem menos que antes... Lembro-me de quando pus a corda no pescoço pra me matar, como a dor e a agonia eram insuportáveis, eu via o rosto de Marie em tudo, eu estava manchado de vermelho, havia sangue em todo lugar. Agora parecia só uma memória distante e outra coisa começava a me incomodar... Os gritos de Demi me pedindo por ajuda.
__Consegui__ Rebeca murmurou, seus olhos estavam fixos num ponto à frente, ela parecia perdida em algum outro mundo__ eu posso ver.
__Pra onde ele a levou?
__Um galpão, é afastado da cidade, perto da floresta__ ela disse__ está trancada em um quarto, amarrada.
__Sabe onde fica esse galpão?
__Rua Cambridge, perto do porto, eu posso sentir o cheiro da água__ ela fechou os olhos.
Ela soltou a tornozelheira e abriu os olhos como se despertasse de um transe.
__Acho que podemos chegar até lá__ ela se levantou__ eles devem ter seguranças por toda parte, mas se analisarmos com cuidado podemos bolar um plano e um jeito de entrar.
__Espere, espere__ eu pedi__ você disse... Nós?
__É__ ela me encarou confusa__ você vai me ajudar certo?
__Eu não acho que seja uma boa ideia__ dei um passo pra trás__ vai estar cheio de... Demônios lá.
__Eu sei disso... Mas é a Demi__ ela continuou me encarando__ precisamos ajudá-la, não lembra como ela estava assustada? Não podemos largá-la sozinha pra morrer.
__Não espero que faça isso, eu só... Não posso ajudar__ tentei explicar__ eu sou só um humano Rebeca, eu sou fraco, e não tenho minhas memórias, eu não sei como eu seria útil.
__Eu posso trazer sua memória de volta, eu encontrei o feitiço__ ela respondeu__ não contei a Demi porque não achei o momento propicio, mas isso se resolve facilmente, eu só precisaria de algumas...
__Não, não... Eu já disse que não quero aquelas lembranças de volta__ a interrompi percebendo onde aquela conversa ia chegar__ não vai jogar feitiço nenhum em mim, eu quero continuar do jeito que estou.
__Como? No escuro?__ ela provocou__ Seja pelas mãos de demônios ou não Joseph, se continuar do jeito que está você vai morrer, parece uma criança perdida, escolheu uma péssima hora pra bancar o idiota.
__Você não faz ideia do que eu estou passando__ rebati zangado.
 
__Não rapaz, você é que não faz ideia do que está acontecendo, olha... Demi tem razão, eu não posso te obrigar a lembrar e não vou fazer isso, é uma escolha sua. Eu vou ajudá-la porque meu amigo Joseph me pediu isso, ele me pediu pra que eu cuidasse dela caso ele não pudesse mais e eu vou cumprir minha promessa. Agora se você precisar de ajuda, seja pro que for, não venha me procurar... Eu não vou ajudar. Eu tirei o feitiço que impedia você de morrer, então se quiser se livrar dessa confusão e colocar a corda no pescoço de novo, como o bom covarde que é, vai em frente.
Antes que eu tivesse a oportunidade de responder ela desapareceu, sumiu no ar. Eu fiquei lá parado sem saber o que fazer, o que pensar. Estavam todos esperando uma atitude mim, esperando que os salvasse, mas eu não sabia o que deveria fazer, eu não era o cara que eles esperavam que eu fosse, eu não era o tal Joseph de quem eles falavam, eu era só eu. Eu queria poder ajudar, mas não fazia ideia de como.
Sentei-me no sofá encarando as paredes, passou-me um breve minuto antes de eu começar a ser tomado por uma raiva que eu não sabia de onde vinha. Eu não era covarde, podiam me chamar de qualquer coisa menos disso. Lembrei-me do dia em que matei Marcus, de como ele brigara comigo e as coisas que me dissera e meu ódio por ele também aumentou, até se tornar incontrolável no ponto em que vi o rosto de Demi assustada me pedindo socorro, na forma como ele a estava machucando. Meu sangue ferveu e as coisas a minha frente começaram a ficar vermelhas, eu me senti como se estivesse possuído, como se não fosse eu mesmo. Meus olhos se focaram na faca jogada no chão, ela estava manchada de sangue e imagens de eu mesmo enterrando ela no peito de várias pessoas me invadiram a mente.
De repente eu só via morte e sangue, e fiquei surpreso em como aquilo me agradava, eu quase podia sentir o gosto do sangue na minha língua. Levantei-me num pulo, pegando a faca do chão e sai do apartamento. Eu não deixaria aquela bruxa estúpida me chamar de covarde. Quando finalmente cheguei à rua eu me sentia como se estivesse em outro planeta, havia pessoas andando apressadas de um lado para o outro, prédios enormes e veículos barulhentos que tornavam quase impossível pensar... Nada daquilo me parecia familiar, e eu não fazia ideia de como chegaria ao endereço que Rebeca descobriu, eu não sabia por onde começar, e então comecei a me sentir frustrado.
__Droga Rebeca, onde você foi__ resmunguei nervoso, percebi que as pessoas passavam na rua e me olhavam de um jeito estranho, talvez fosse pela faca ensangüentada que eu carregava, mas não me importei com isso__ apareça sua bruxa idiota.
__O que você quer?__ ela se materializou na minha frente__ já se desesperou por não saber se virar sozinho?__ resmungou amargurada__ o novo mundo é uma droga hã?
__Eu não sou covarde__ quase gritei__ não tem o direito de falar assim nem me julgar.
__Oh, eu irritei você?__ ela revirou os olhos__ eu tenho mais o que fazer.
__Leve-me com você__ eu ordenei.
 
__Lá vai estar cheio de demônios__ ela me lembrou cruzando os braços__ e você é só um humano.
__Bem, eu tenho isso__ mostrei a faca pra ela.
__Você sabe usar isso?__ ela parecia cética.
__É uma faca__ eu murmurei com impaciência__ é só enterrá-la no peito de alguém, eu já fiz isso antes com alguns dos idiotas que machucaram a Marie.
__Eles eram humanos, você nunca fez isso com um demônio, pelo menos não que se lembre.
__Pra tudo tem a primeira vez não é mesmo?__ disse impaciente__ vamos, eu quero matar alguém.
Ela me encarou surpresa, como se visse um fantasma.
__O que foi que deu em você?__ ela perguntou me analisando de forma estranha__ estava quase se borrando de medo alguns minutos atrás, o que te fez mudar de ideia?
__Eu não sei__ confessei sinceramente__ só sei que de repente me surgiu uma vontade louca e assassina de descontar minha raiva em alguém, não quer aproveitar? Você queria minha ajuda, aqui estou... Vai ficar parada me olhando como uma idiota?
Ela sorriu alegremente, eu não esperava isso__ eu sabia que o meu amigo não tinha sumido completamente, ele está ai em algum lugar, você só precisa libertá-lo, talvez nem precise de magia.
Eu não entendia o que ela queria dizer, só sabia que não agüentava mais ficar parado, eu não estava me reconhecendo mais, não sabia de onde vinha àquela sensação louca, aquele sentimento enfurecido, mas eu gostava.
 
__Vamos lá então__ ela sorriu e pôs a mão no meu ombro.
A sensação do teletransporte não era agradável, era como ser espremido em um espaço apertado, espancado e talvez girar sem parar até vomitar, como crianças idiotas costumam fazer, então quando chegamos ao lugar que ela queria eu me abaixei no chão e vomitei... E lá se foi minha fúria assassina.
__Vamos, nem foi tão ruim assim__ ela me provocou.
__Não podíamos ter vindo andando?__ eu resmunguei me pondo de pé.
__E arriscar ver você perder essa sua coragem repentina no meio do caminho? Não mesmo.
__Olha minha coragem ali no chão?__ zombei com um sorriso falso__ me sinto doente.
__Você não tinha esse problema quando era um demônio.
__Cala a boca__ eu não gostava que ficassem me repetindo isso o tempo todo, eu um demônio... Isso era tão patético, eu nunca fui um cara exatamente bom, mas daí a ser um demônio era loucura.
__Joseph__ ela me chamou e quando olhei ela apontava pra algo bem atrás de nós__ nós chegamos, dá só uma olhada naquilo.
Eu não sei o que ela estava olhando, mas acho que não ia me agradar.
Fim do Quinto Capítulo
15 comentários para o proximo ...
Respondendo ...
Lala: aquela foto do banner é uma cena do motoqueiro fantasma , coloquei aquela imagem pra representar o inferno e tals'
E gente eu ainda nao posso contar nada do que vai acontecer com Demi ou com Joe porque nao sei ainda da historia toda ..

Chapter Four

Não dormi aquela noite, fiquei alerta todo o tempo com medo de que me fizessem algo enquanto dormia e embora estivesse cansada e dolorida me mantive acordada. Ouvi passos e sussurros no outro cômodo a noite toda, Marcus e Melissa pareciam discutir sobre alguma coisa, aparentemente eles não se davam muito bem, nem tudo no mundo dos demônios era perfeito como eles faziam parecer.
Fechei os olhos por um momento, quase sendo vencida pelo sono, pensei em como estariam Rebeca e Joseph agora, será que estavam tentando achar um jeito de me ajudar? Eu tinha minhas dúvidas, mas precisava alimentar um pouco de esperança pra não enlouquecer. Estava quase sendo vencida pelo cansaço quando sinto algo pressionando meus lábios, arregalei os olhos assustada e me sacudi fazendo Marcus se afastar de mim rindo... Desgraçado.
__Adoro mulheres difíceis assim como você__ ele provocou.
__Porque não para com o papo furado e faz o que tem de ser feito?__Melissa resmungou zangada__ o que diabos vocês vêem nessa garota estúpida?
__Você fica patética com ciúmes__ ele revirou os olhos e desamarrou meus pés__ agora comporte-se Demi, temos um lugar pra ir e se você colaborar não precisa se machucar entendeu?
__Eu não me importaria de arrancar umas partes dela.
__Eu mandei você calar a boca__ Marcus resmungou irritado com ela__ ande, levante.
 
Ele desamarrou minhas mãos e me puxou sem nenhum cuidado me obrigando a ficar de pé. Meus pulsos doíam e minhas pernas estavam bambas mas me obriguei a ficar de pé e manter o controle.
__Isso pode ser um pouquinho desagradável__ ele me informou__ eu fecharia os olhos se fosse você.
Primeiro não entendi do que ele estava falando, mas então ele me segurou com força e então o mundo diante de nós pareceu girar e virar um grande borrão preto, eu me senti como se flutuasse no ar, como se não houvesse mais gravidade, o ar fugiu dos pulmões e um segundo depois estávamos em pé em um quarto branco desconhecido. Eu já havia feito teletransporte uma vez, com Lucian quando ele tentara me matar, mas parecia que dessa vez tinha sido mais desagradável, eu me inclinei em direção ao chão e vomitei.
__Garota fresca__ Melissa resmungou.
__Que lugar é esse?__ arrumei forças pra perguntar, ainda abaixada no chão.
__Sua nova casa por tempo indeterminado__ Marcus respondeu me segurando pelos braços e me obrigando a levantar__ anda, tem uma pessoa que quer conhecer você.
Ele me obrigou a deitar em uma espécie de maca, e então amarrou meus braços e minhas pernas de novo pra que eu não pudesse me mexer, eu resmunguei palavras incoerentes, sem muito sentido, por dentro eu implorava pra que isso acabasse logo, eu queria voltar pra casa, queria me sentir segura de novo. Por um momento desejei desesperadamente que nada disso nunca tivesse acontecido, que eu ainda fosse aquela garota normal e patética, sem vida social... Mas não se podia voltar no tempo, não dava pra concertar esse estrago, eu estava perdida.
 
Soltei um palavrão alto quando Marcus e Melissa saíram daquela sala e me deixaram lá sozinha e amarrada, fiz força contra as amarras pra tentar me soltar mas era em vão, eu não era forte o suficiente. Passaram-se pelo menos dez minutos antes de ouvir passos e alguém entrar na sala novamente.
__Oi Demi__ uma mulher sorriu pra mim, ela tinha os cabelos ruivos, era bonita e se parecia com... Rebeca.
__Você é a irmã da Rebeca__ eu disse surpresa.
__Infelizmente__ ela deu de ombros.
__Não se sente mal por trair sua irmã?__ eu questionei.
__Nem um pouco, eu só estou garantindo minha sobrevivência, nada mais... É assim que funciona.
Era incrível o que as pessoas eram capazes de fazer pra salvar a própria pele. Trair a família, isso era triste.
__O que vocês querem comigo afinal?
__Ainda não te contaram?__ ela fez careta__ você é uma bruxa Demi, e uma bruxa importante.
__O que?__ essa história de novo__ estão me confundindo com outra garota.
__Não, não estamos__ ela me garantiu__ quando você ainda era um bebê, eu mesma fui ao seu quarto e lhe dei uma parte dos meus poderes, você passou a ser uma bruxa aquele dia, passou a ser especial.
__Porque faria algo assim comigo?__ senti novamente que iria vomitar... Eu? Uma bruxa? Isso não estava certo, eu era a Demi, só a Demi.
__Foi um acordo que fizemos com seu pai.
__Meu pai? Ele... Ele permitiu que fizesse isso comigo?
__Pois é querida, a vida é dura__ ela deu de ombros__ não se pode confiar em mais ninguém hoje em dia.
Parei pra considerar isso um momento. Então era isso, o motivo do desespero do meu pai, porque ele me pedia desculpas insistentemente, porque mandou que eu fugisse, ele sabia disso, ele me entregara a uma bruxa. Eu sempre soube que não era muito querida pelos meus pais, mas não imaginava que ele me odiasse a esse ponto.
__Sei o que está pensando, não foi de graça... Ele lhe vendeu pela imortalidade.
Eu não soube oque dizer sobre isso, era tão... Ridículo.
__Pensei que... __ respirei fundo um momento__ achei que tinham me pego por causa do Joseph.
__Oh não__ ela fez careta e revirou os olhos__ Joseph não é mais tão importante quanto parece, ele está em segundo plano agora. Não é mais um problema desde que se tornou humano, entenda uma coisa Demi. Precisamos de você pra tornar Crowley à criatura mais poderosa da terra.
__Ele está no inferno__ disso eu tinha certeza, Rebeca o trancafiara lá.
__E vamos tirá-lo de lá, é ai que o Joseph entra__ ela explicou__ é um feitiço complicado, não tenho tempo pra lhe dar detalhes agora, mas ele é a peça chave pra trazermos Crowley do inferno mais cedo, questões práticas facilmente resolvidas, eu mandaria Marcus atrás dele... Mas sei que ele virá a nós de bom grado, ele sempre faz isso pra proteger você.
 
__Ele me esqueceu__ resmunguei amargurada.
__Isso não muda nada querida, você é ingênua demais pra entender.
Fez-se um minuto de silencio, eu gostaria de acreditar que ele viria me salvar, mas ele não podia mais me proteger, mesmo que quisesse, ele era tão humano e frágil quanto eu. Senti um aperto no coração ao pensar que talvez eu nunca mais o visse, eu gostaria de ter dito a ele uma ultima vez que o amava, de ter sentido seus lábios nos meus mais uma vez, seu corpo enroscado no meu... Uma ultima vez, parecia um bom jeito de me despedir dessa vida patética que eu levava.
__Vocês vão me matar?__ eu perguntei baixinho, olhando pras paredes.
__Ainda não, só quando chegar à hora certa, temos coisas a acertar antes de à hora chegar.
__Vai doer?__ não consegui evitar ter essa dúvida.
__Provavelmente__ ela confessou sincera__, mas eu posso mudar isso.
__Como? Vai me deixar sair?__ foi uma pergunta idiota, mas não custava sonhar.
__Não, mas você não precisa estar necessariamente aqui quando chegar à hora.
__Não entendo o que quer dizer__ confessei a olhando desconfiada.
__Imagine Demi__ ela pediu__ se você as coisas fossem diferentes, como você gostaria que elas fossem? O que você mudaria? Faria o Joseph se lembrar de você? Gostaria que ele ainda fosse um demônio e que estivesse juntos, congelados em seu mundinho perfeito e de paz? Gostaria que ele tivesse sido sempre um humano sedutor?
__Você pode mudar o que aconteceu?__ perguntei fascinada__ pode fazer as coisas serem diferentes?
__Não exatamente__ ela explicou__ não posso mudar a realidade, mas posso criar pra você sua própria realidade querida, como um sonho bom e perfeito que não acabaria nunca. Você ficaria adormecida__ ela murmurou com sua voz calma e tranquilizante__ sonhando, onde tudo acontece como você gostaria, não precisaria haver demônios, bruxas, seria o mundo ideal... E você não sentiria nada quando morresse, seria como dormir pra sempre, sem sofrimento ou dor.
Parecia uma ideia tentadora, um sonho sem fim, onde não havia dor ou medo, só o meu mundinho perfeito.
__Vamos Demi, eu posso realizar o seu sonho, só precisa dizer o que você deseja.
Fechei os olhos com força, aceitar essa ideia seria desistir, seria aceitar que minha vida acabou. Mas eu não tinha mais esperanças, a quem queria enganar? Eu não perderia nada, e não precisaria mais chorar.
__Se você pudesse realizar um sonho... Se tivesse um desejo... Qual seria?__ ela perguntou novamente, com aquela sua voz calmante que parecia música aos ouvidos, entorpecente, como uma deliciosa droga.
__Eu desejaria que nada disso tivesse acontecido__ sussurrei incapaz de me conter__ desejaria que meu irmão David estivesse vivo, que aquele carro que o atropelou tivesse conseguido parar a tempo. Assim eu nunca teria ido a Sacrifice, nunca teria conhecido Joseph, e não estria aqui agora... Assim eu seria feliz.
__Feche seus olhos crianças__ ela passou a mão delicadamente sobre meu rosto, me obrigando a fechar os olhos e relaxar__ deixe-me realizar o seu sonho.
Fechei os olhos e fiquei quieta como ela mandou, que se dane, eu não tinha nada a perder.
__Mutare re, animadverto somnium__ ela sussurrou em meu ouvido.
Senti-me sendo tomada pelo cansaço, tentei abrir os olhos mas tudo a minha frente parecia preto, minha consciênica foi levada pra outro lugar, bem distante e tudo desapareceu.
Fim do Quarto Capítulo

15 Comentários para o proxima .!

Chapter Three

Paramos em frente à porta do apartamento de Joseph, Marcus puxou um pouco mais o meu cabelo, me fazendo gemer de dor e sorriu maliciosamente pra mim, me recusei a continuar chorando, eu precisava manter a calma embora ainda me sentisse confusa.
__Quer fazer as honras?__ ele apontou pra porta__ eu acho que não, eu cuido disso.
Ele deu um chute com toda sua força na porta que se abriu facilmente quase se partindo ao meio. Então me empurrou pra dentro sem cuidado algum, girando a faca ensangüentada entre os dedos... Joseph e Rebeca estavam juntos na sala e arregalaram os olhos de pavor ao olhar pra nós.
__Eu espero não estar interrompendo nada importante__ Marcus disse sorrindo.
__Ma-Marcus__ Joseph gaguejou, ele parecia mais apavorado com a situação que eu.
__Oi irmãozinho, saudades de mim? É bom te ver também Rebeca__ ele zombou__ eu estava com saudades e resolvi fazer uma rápida visita, encontrei sua namoradinha lá fora, ela é um amor.
__O que você quer?__ Rebeca perguntou em tom desafiador já que Joseph parecia perdido demais pra dizer qualquer coisa que fosse, era como se ele estivesse encarando um fantasma.
__Então é verdade__ Marcus comentou fazendo careta__ você completou mesmo o ritual, por isso não consegui te encontrar, você fede a um humano agora.
 
Joseph recuou um passo, ainda de olhos arregalados, eu tentei fazer Marcus me soltar, mas ele não mexeu um músculo, só ficou encarando o irmão com um sorriso zombeteiro no rosto, ele estava se divertindo.
__Olhe só isso, você está com medo de mim__ ele comentou rindo__ parece que também é verdade a parte que você perdeu a memória não é mesmo?Aposto que não se lembra te ter visto um demônio, isso é engraçado e decepcionante ao mesmo tempo. Esperei um bom tempo pra esse encontro e esperava ver o demônio a quem todos no inferno temiam e não um garotinho assustado.
__Por favor, me solte__ eu implorei não agüentando a dor na cabeça.
__Cale a boca antes que eu a cale pra você docinho__ me ameaçou.
__Solte ela Marcus__ Joseph ordenou__ ela não tem nada com isso.
__Ela tem tudo haver com isso irmãozinho, eu vim aqui por ela, irritar você era só um bônus__ ele revirou os olhos__ saberia disso se tivesse sua memória, você tirou toda a graça desse encontro. Na verdade você está sempre cortando meu barato... Você rouba minha noiva, causa a morte dela, depois me mata, e séculos depois quando penso que vou ter uma vingança divertida eu vejo que você não mudou merda nenhuma.
__Parece que alguns séculos no inferno não arrancaram de você o rancor__ Joseph comentou.
__Não, só ajudaram a aumentar o meu ódio por você__ ele me puxou mais pra perto e pos a faca no meu pescoço__ já que você estragou os meus planos tenho uma nova ideia pra nos divertimos juntos. Eu vou levar a bonequinha aqui comigo, quando você recuperar a memória venha me procurar e tentar salvá-la, como eu tenho certeza que vai fazer, ai conversaremos melhor.
__Não vou recuperar a memória__ Joseph o desafiou.
__Ah você vai ,eu tenho certeza que vai... Não esperei séculos por esse encontro atoa, sei que não vai me decepcionar maninho. E eu tomaria muito cuidado bruxa__ ele voltou sua atenção a Rebeca__ continue murmurando esse maldito feitiço e corto a garganta dela bem na sua frente, não me custaria nada.
__Socorro__ eu implorei deixando lágrimas escaparem sem querer__ por favor Joseph, me ajuda.
__Isso tocante__ Marcus provocou__ está vendo Joseph? Ela está querendo sua ajuda... Não me decepcione, vou esperar por você.
__SOLTE-A__ ele ordenou vindo em nossa direção.
Foi a ultima coisa que ouvi, tudo pareceu perder o foco de repente e eu apaguei.
Abri os olhos devagar, minha visão estava turva e minha cabeça doía, eu estava confusa e não fazia ideia de onde estava, por um momento me senti perdida enquanto notava que aquele não era meu quarto, algo estava errado. Foi só quando ouvi passos se aproximando e a figura entrando no quarto que lembrei tudo que tinha acontecido anteriormente.
__Você finalmente acordou__ Marcus sorriu amigavelmente pra mim, mas ele não me enganava.
Fiquei totalmente alerta de repente, minha mente me alertou de que eu precisava sair dali, tentar fugir, tentei me levantar mas não consegui sair do lugar e só então percebi que meus braços estavam amarrados na cabeceira da cama, assim como minhas pernas.
__Desculpe por isso querida, mas você não vai a lugar algum__ ele se sentou na cama ao meu lado.
__O que você quer de mim?__ perguntei fazendo força pra me soltar embora soubesse que seria em vão.
__Você é muito importante pro Crowley princesa, e decidimos que não era boa ideia deixar você vagando por ai, ainda mais com meu irmãozinho vivo, ele tem o dom de se intrometer e atrapalhar assuntos que não são da sua conta.
__Importante pro Crowley?__ eu quase ri, mas aquela situação não tinha a menor graça__ o que ele poderia querer com alguém como eu? Se é por causa do Joseph, está perdendo o seu tempo, ele esqueceu de mim, ele não se importa mais comigo.
 
__Você está redondamente enganada__ ele disse rindo__ ele vai se lembrar acredite, ele queimou durante séculos no inferno e nunca conseguiu esquecer o que houve com Marie, porque ele esqueceria de você?
__Está subestimando minha importância__ resmunguei.
__Você é que está, mas não se trata do Joseph, na verdade fazê-lo sofrer é só um pequeno bônus incluído no pacote, o grande lance é você ser uma bruxa.
__Bruxa?__ eu o encarei confusa__ do que está falando?
__Ah__ ele fez careta como se sentisse culpado__ não tinham te contado ainda? Parece que cometi um engano. Você é uma bruxa Demi, o seu pai vendeu você pra uma bruxa há muitos anos atrás em troca de imortalidade, é uma longa e entediante história__ ele revirou os olhos__ mas tudo faz parte do plano.
__Eu não entendo, está me confundindo com alguém__ eu me recusava a acreditar naquilo, demônios eram mentirosos, ele só queria me confundir.
__Poderíamos discutir isso o dia todo, mas sinceramente não estou afim__ ele resmungou e percebi que tinha uma faca com a qual ele limpava as unhas, meu estômago embrulhou novamente.

__Você vai me matar?__ perguntei embora tivesse medo da resposta.
__Não, precisamos de você viva por enquanto, mas isso não me impede de te fazer sofrer um pouquinho__ ele abriu um sorriso diabólico__ diga-me, que tipo de torturas meu irmão fez com você? Te bateu, te cortou, queimou? Ouvi falar que ele era um dos demônios mas perversos do inferno, mas... Acho que você gosta de dor não é mesmo?
 
Ele aproximou a faca de mim, a deslizando devagar pelo meu pescoço e descendo pela blusinha fina que eu usava, minha respiração se acelerou e meu coração começou a bater descompensado enquanto a lâmina fria descia e parava na barra da minha calça jeans.
__Sabe__ ele passou a língua pelos lábios__ você não é de se jogar fora, na verdade é bem mais bonita do que me falaram, aposto que meu irmão se divertiu àbeça com você.
A lâmina adentrou devagar a minha calça e eu me encolhi, tomando cuidado com os movimentos pra não acabar me machucando, eu queria gritar, chorar e me espernear, cuspir na cara dele e descontar toda minha raiva, mas pensei que ficar quietinha garantiria minha sobrevivência.
__Imagino como você deve ser por debaixo dessa roupa__ ele sorriu maliciosamente__ sabe, podemos nos divertir juntos se você for boazinha, nosso tempo juntos pode ser agradável, eu sou um amante bem melhor que meu irmão, eu garanto.
__Verdade?__ provoquei incapaz de me segurar__ por isso que Marie o trocou por Joseph?
Seus olhos se fixaram nos meus e eles pareceram ficar mais escuros, ele me lançou um sorriso duro e claramente irritado, ele afastou a lâmina de mim e apoiou os braços na cama, se inclinando sobre mim e me fuzilando com seus olhos negros, me causando arrepios nada agradáveis.
__Devia tomar cuidado com o que fala garota, não posso matar você, mas ainda posso arrancar fora a sua língua, sem nem piscar__ ele me ameaçou com uma voz sombria__ Marie era uma vadia estúpida e o que aconteceu com ela foi muito bem feito se quer saber minha opinião, ela mereceu por ser uma traidora.
__Você é doente.
__Pois é__ ele sorriu__ e se não quiser perder nenhuma parte do corpo, nunca mais toque no nome dela perto de mim está ouvindo? Esse é um assunto que não lhe diz respeito e que pretendo resolver com meu irmãozinho muito em breve. Ele vai pagar por ser um traidor assim com ela.
Isso não era bom, não teria sido um problema se Marcus tivesse aparecido alguns dias antes, eu sabia que Joseph poderia lhe dar com ele, mas agora ele era um simples humano e sem nenhuma memória útil, o que o impedia de me proteger e proteger a si mesmo, ele estava vulnerável, talvez até mais que eu se é que isso era possível. Eu não podia mais contar com ele, isso me encheu de pavor.
__Eu devia deixar uma marca em você, algo profundo pra que toda vez que meu irmão olhe pra você ele se lembre de mim, ele se lembre do que me fez, pra que toda vez que olhe pra você sinta repulsa e nunca mais queira te tocar.
Respirei fundo pra tentar manter a calma, fechei os olhos pra não ter que encará-lo.
__Eu podia deformar o seu lindo rostinho__ ele segurou meu rosto com força__ mas seria um desperdício. Ou então eu poderia simplesmente fuder você todinha, seria a melhor tortura de todas.
Seus lábios tocaram meu pescoço enquanto sua mão descia pelo meio de minhas pernas, eu me sacudi completamente enojada com seu toque.
__Me larga__ eu ordenei__ tire as mãos de mim.
Eu já começava a me desesperar, sabendo que se ele quisesse fazer aquilo eu não teria como impedir, mas pra meu alivio o celular que ele carregava no bolso começou a tocar. Marcus bufou irritado, saiu de cima mim, ficando em pé e levou o telefone ao ouvido.
 
__Qual o problema?__ ele perguntou sem tirar os olhos de mim, houve uma pequena pausa__ sim, ela já está aqui no apartamento comigo, ta tudo resolvido e...
Antes que ele completasse sua frase, uma figura se materializou no canto do quarto, uma mulher loira de corpo escultural com muito pouca roupa por sinal. Não sei explicar porque, mas fui tomada por uma súbita raiva e uma vontade de arrancar os olhos dela.
__Até que enfim você serviu pra alguma coisa__ a mulher disse desligando o celular.
Marcus desligou o telefone e revirou os olhos__ não sabe mais bater?
__Como você a pegou?__ ela perguntou me analisando.
__Meus truques são muito mais eficientes que os seus__ ele deu de ombros__ possuir pessoas pra tocar o terror está fora de moda querida, isso não funciona mais.
__Isso é despeito porque você não pode mais possuir ninguém__ ela resmungou.
__Você bem que queria ter um corpo próprio__ ele zombou__ mas isso não vem ao caso agora Melissa, eu cuido dela, você desaparece, não preciso de você aqui.
__Não seja rude__ ela piscou pra ele__ só vim dar uma olhadinha.
Melissa, agora a sensação assassina que me invadira tinha uma boa explicação. Era a ex namorada vadia do Joseph que possuiu meu corpo por alguns dias. Como eu queria que minhas mãos estivessem livres naquele momento pra eu poder estapeá-la até não aguentar mais, eu sabia que sairia perdendo, mas mesmo assim seria gratificante.
 
__Oi Demi__ ela sorriu alegremente pra mim__ se lembra de mim?
__Melissa, como eu ia me esquecer de você? __ forcei um sorriso pra ela.
__Fiquei sabendo que Joseph esqueceu de você__ ela tocou no meu ponto fraco__ que chato não é? Mas eu sabia que esse romancezinho idiota de vocês não ia durar.
__Sabe o que é isso?__ eu entrei na provocação__ despeito, porque ele preferiu uma simples humana a uma criatura desprezível e sem alma como você.
__Auch__ Marcus pos a mão na boca segurando o riso__ essa doeu.
__Você é muito petulante pra quem está amarrada a uma cama prestes a morrer__ ela me desafiou, mas eu tinha conseguido afetá-la, ela já não parecia mais tão confiante.
__Eu vou morrer mesmo, não tenho muita coisa a perder__ e era verdade, eu já estava completamente ferrada, provocar um demônio não faria grande diferença na minha situação, de um modo ou de outro eu me daria muito mal. Pelo menos eu iria contente.
__Eu gosto dela__ Marcus comentou divertido__ meu irmão tem bom gosto, pelo menos em certas situações__ ele olhou torto pra Melissa.
__Como você é engraçadinho__ Melissa revirou os olhos e depois se aproximou da cama__ quando isso tudo acabar, eu vou acabar com você, triturar seu corpo em vários pedacinhos e queimar todos eles, vai ser um prazer enorme.
__Você pode tentar__ continuei sorrindo, mas era só pra esconder toda minha tristeza.
Eu estava conformada em morrer, mas isso não fazia ser menos assustador.
Fim do Terceiro Capítulo

Chapter Two

Acordei tarde aquele dia, cansada de um jeito que nem imaginava, mas na primeira oportunidade inventei uma desculpa pra minha mãe e saí de casa. Mesmo com medo do que ia encontrar eu precisava ver Joseph, talvez às coisas estivessem diferentes e melhores hoje, a esperança sempre me acompanhava embora eu fizesse de tudo pra mandá-la embora. Usei a chave que Joseph me dera pra entrar no apartamento e encontrei Rebeca na sala lendo um livro velho e empoeirado.
__Oi Rebeca.
__Oi Demi, que bom que chegou__ ela sorriu pra mim e parecia mais calma que ontem.
__Esta tudo bem?__ perguntei com receio__ onde ele está?
__Ele esta no quarto descansando, depois que você foi embora ontem eu conversei com ele, expliquei com calma tudo que estava havendo e ele me entendeu e acreditou em mim, tenho alguns votos de confiança dele.
__Ok, mas ele não lembrou de nada não é?
__Não, ainda não... Acho que isso não vai acontecer naturalmente querida, só com intervenção de magia. Precisa ter um pouco mais de paciência, mas pode ir conversar com ele se quiser, ele está calmo hoje e bem simpático, já até me deu um sorriso.
__Bom saber__ forcei um sorriso__ me deseje sorte.

Deixei Rebeca na sala e fui caminhando até o quarto, fiquei parada um bom tempo na porta criando coragem pra entrar, precisava ter certeza que não cairia no choro quando olhasse pra ele e visse a indiferença em seus olhos, eu precisava muito ser forte agora. Paciência, era tudo uma questão de ter paciência e tudo ficaria bem, tudo voltaria a ser como antes, esse pensamento me ajudou a seguir em frente e abri a porta.
Joseph estava sentado na cama, com sua calça preta apertada__ que por acaso era minha favorita pois evidenciava umas partes dele que eu adorava__ uma regata branca deixando a mostra seus músculos e estava arrumando o cabelo. Olhando pra ele daquele jeito ainda parecia o meu Joseph e por um momento esqueci do que tinha acontecido e quase corri pra abraçá-lo e enchê-lo de beijos. Mas ai ele olhou pra mim, foi quando lembrei então que ele não sabia quem eu era e meu coração partiu de novo, mas me mantive firme no lugar, com a cabeça erguida.
__Oi__ ele deu um sorriso tímido__ você é Demi certo?
__É, sou eu sim__ forcei um sorriso.
__Rebeca me falou de você, hum... Desculpe pelo que houve ontem, eu estava um pouco confuso. É estranho você se matar, ir pro inferno, virar um demônio, matar um monte de gente e depois esquecer tudo que passou.
__Eu imagino que deve ser assustador__ concordei.
__Entre__ ele pediu__ eu não vou surtar, prometo.


Timidamente eu entrei no quarto, encostando a porta atrás de mim e caminhei até ele, sentando na beirada da cama, tentando manter distância, ficar perto demais não me ajudaria em nada. Dava pra ver em seus olhos que ele ainda não fazia ideia de quem eu era, mas diferente de ontem a hostilidade havia desaparecido, ele estava calmo, somente confuso.
__Rebeca disse que você é... Minha namorada__ ele disse meio sem jeito, era tão estranho vê-lo assim, tímido e vulnerável, Joseph nunca teve vergonha de falar o que pensava ou fazer o que desse vontade, eu sentia falta disso agora embora um dia tivesse desejado que ele fosse diferente.
__É verdade__ concordei olhando pras minhas mãos__ nossa relação era um tanto complicada mais...
Não consegui terminar a frase, ia dizer que apesar de tudo agente se amava, mais doeria demais verbalizar esse pensamento então me calei, era melhor assim.
__Você é linda__ ele comentou e fui obrigada a erguer os olhos pra fitar seu rosto nesse momento__ não deve ter sido atoa que me apaixonei por você, ainda mais sendo um demônio. Isso tudo deve ser difícil pra você também, eu... Sinto muito.
__Tudo bem__ dei um meio sorriso__ vamos sobreviver a isso também. Rebeca está trabalhando num jeito de trazer sua memória de volta, quando isso acontecer tudo vai voltar ao normal, só precisamos ter paciência.
__Érr... Eu acho que quando conversei com Rebeca não me expressei direito__ ele disse desconfortável.
__Como assim?__ o encarei confusa.
__Eu não quero me lembrar__ ele sussurrou.

__Não quer lembrar?__ o meu sorriso se desfez__ você não quer lembrar da sua vida?
__Se tudo que Rebeca me contou sobre o que eu esqueci for verdade, porque eu ia querer lembrar? Essas memórias do inferno, memórias de eu sendo torturado por séculos, sofrendo dores que nenhum humano deveria conhecer. Memórias de eu me tornando uma criatura suja e deplorável, memórias de eu machucando pessoas inocentes sem nenhum motivo, só por diversão... Porque eu iria querer lembrar disso? Que tipo de pessoa pode conviver com algo assim tão terrível?
__Mas... É a sua vida__ as palavras ficaram entaladas na minha garganta e uma expressão de horror estampada em minha face que me esforcei pra disfarçar, mas foi em vão.
__Escuta Demi, eu... Segundo Rebeca eu fiz de tudo pra me tornar um humano de novo, eu matei tanta gente pra conseguir isso que tenho agora, já pensou que o objetivo bem lá no fundo fosse esquecer toda essa dor? Já pensou que talvez eu não quisesse mais viver com isso?
__Você nunca me disse nada sobre isso, só disse que queria ser livre.
__Talvez eu não quisesse que você soubesse__ ele sugeriu.
__Por quê? Porque mentiria pra mim?__ não consegui segurar as lágrimas.
__Por isso__ ele disse apontando pra mim e parecia sentir pena da minha tristeza__ se eu gostava de você como me disseram, talvez eu não quisesse que você sofresse como esta sofrendo agora.
__Ah fez um ótimo trabalho__ me levantei da cama zangada.

__Eu sinto muito Demi__ ele disse__ deve ser difícil pra você, mas é a verdade, precisa entender o meu lado, eu sou um humano, não quero ter essas lembranças comigo pro resto da minha vida, mal consigo suportar as tragédias que já carrego comigo, pra que querer ainda mais, eu não sei se suportaria.
Fiquei olhando pra ele um longo tempo enquanto as lágrimas desciam, o pior é que fazia sentido... Ele devia saber a muito tempo o que ia acontecer quando o ritual se completasse, talvez ele quisesse esquecer, talvez essa tenha sido sempre a intenção, eu me sentia idiota por não perceber.
Então a minha fixa caiu, eu devia ter aceitado ontem, quando ele olhou pra mim e perguntou quem eu era, eu devia ter esquecido naquele momento, porque naquele momento o meu Joseph se foi, o homem que eu amava morreu e não ia mais voltar. Apesar de ter a mesma aparência que ele, o homem pra quem eu olhava agora não era ele, não era o meu Joseph, o meu ar, minha vida... Era um desconhecido que não se importava comigo, um homem marcado por uma grande tragédia.
__Você não é ele__ sussurrei sufocando minhas lágrimas.
__Eu sinto muito, de verdade__ ele disse e pareceu agoniado__ eu gostaria que houvesse um jeito de me lembrar de você, você parece ser uma ótima pessoa, alguém com quem eu gostaria de estar, mas eu não quero me lembrar do resto, eu não consigo... Eu amo outra pessoa, e embora ela não esteja mais aqui não vejo como poderia esquecê-la.

__Você nunca a esqueceu de verdade, eu sempre soube disso, quando se ama alguém de verdade agente nunca esquece, não importa o que aconteça... Acho que você não me amava o bastante pra lembrar de mim__ murmurei amargamente__ eu é que sinto muito... Não posso pedir que lembre, não tenho esse direito. Você conseguiu o que queria, não posso tirar isso de você. Eu o amo demais pra isso.
__Eu não entendo__ ele disse me encarando__ segundo Rebeca eu fiz coisas terríveis com você, como pode gostar tanto assim de mim?
__O amor é complicado, eu também não entendo como é possível, mas isso não importa mais__ dei de ombros__ vou deixá-lo em paz.
Eu não podia obrigá-lo a se lembrar de mim eu não tinha esse direito, ele conseguira o que tanto buscou esses anos todos de sofrimento, não podia obrigá-lo a lembrar de tudo aquilo só porque era conveniente pra mim, o amor tem dessas coisas. Eu estava por minha conta agora.
__Demi__ ele me chamou quando estava pra sair do quarto.
Parei de andar, mas não me virei pra encará-lo, eu não queria olhar mais pra seu rosto.
__Eu... Eu sinto muito... Eu... __ ele não conseguia terminar sua frase, e eu não queria ouvir.
Saí do quarto antes que desabasse ali mesmo.
Rebeca estava na sala esperando e tinha um sorriso no rosto, provavelmente achando que tudo estava bem, ver a tranquilidade dela me encheu de raiva, meu mundo estava desabando, em breve não me restaria nada e ela estava ali sorrindo pra mim. Eu sabia que não era sua culpa, mas eu precisava descontar em alguém.

__O que aconteceu?__ ela perguntou preocupada com minha expressão.
__Pode ficar despreocupada e parar de procurar um jeito de fazê-lo lembrar.
__O que? Por quê?__ ela não entendia.
__Porque ele não quer lembrar e eu não posso obrigá-lo__ praticamente gritei__ você está livre, não precisa mais perder seu tempo pra me ajudar... Acabou.
Não deixei que ela dissesse mais nada, só sai batendo a porta.
Eu atravessei a rua apressada querendo chegar logo na minha casa, na verdade eu queria sumir, ir pra um lugar onde ninguém me conhecesse, onde eu pudesse esquecer que minha vida era uma grande piada. As lágrimas tornavam difícil enxergar o que havia a minha frente, mas pude ver alguém surgindo da escuridão, correndo desesperado em minha direção. Meu coração se acelerou, pensei em sair correndo na direção contrária, mas então reconheci a figura, era meu pai.
__Pai?__ ele parou de correr ao esbarrar em mim, usei toda minha força pra ampará-lo e impedi-lo de ir ao chão__ pai o que houve?
__Você precisa ir embora daqui filha, você precisar correr o mais rápido e mais longe que puder__ ele disse desesperado, estava suado, a roupa suja de terra e sangue, e tinha um corte profundo na testa e outro no braço que parecia ter sido feito com uma faca.

__O que houve com você? Você precisa de ajuda__ eu disse preocupada__ eu vou chamar ajuda.
__Não, ninguém pode me ajudar... Você precisa escutar Demi, com muita atenção__ ele ergueu o rosto pra me olhar nos olhos__ você precisa ficar longe dele, não pode mais vê-lo.
__Está falando do Joseph?__ deduzi, não conseguia pensar em mais ninguém__ nós terminamos.
__Ótimo__ ela tentou sorrir mais estava nervoso demais pra isso__ agora arrume suas malas e vá embora, só assim vai estar segura... Eu sinto muito pelo que fiz, sabe que não foi de propósito não sabe?
__O que você fez?__ mesmo sem saber o que era senti meu estômago revirar.
__Ele não te contou__ ele pareceu contente com isso.
__Contou o que? Pai você está me assustando.
__Eu sinto muito Demi__ ele se soltou de mim__ eu sinto muito... Corra, corra o mais rápido que puder.
__PAI...
Ele não me deixou falar, se afastou de mim e saiu correndo como um louco, desaparecendo na outra esquina, na escuridão, pensei em correr atrás dele, mas eu estava confusa demais pra me mexer. Foi quando me lembrei de uma coisa. Joseph disse que conhecia meu pai de algum lugar, talvez ele tivesse lembrado, talvez tivesse acontecido alguma coisa nesse tempo que meu queria desesperadamente esconder de mim, mas o que poderia ser? O que o deixaria assim tão assustado?
Eu podia voltar ao apartamento de Joseph e perguntar a ele, mas ele não saberia me responder, ele não lembraria, podia ser provável que Rebeca soubesse, mas quem garantia que ela ia querer me ajudar? E eu não estava com vontade de olhar pra nenhum dos dois agora, eu ia ter que encarar isso sozinha, ia ter que dar meu jeito de descobrir. Fiquei tão entorpecida com meus pensamentos que esqueci de me perguntar o que tinha acontecido com meu pai, porque ele estava machucado. Senti minhas pernas ficarem bambas e me abaixei no chão, sentando na calçada e escorando a cabeça entre as mãos. Tentei respirar fundo várias vezes, não queria parecer acabada quando entrasse em casa, minha mãe não precisava ser envolvida nos meus problemas, nessa minha vida maluca.
Não me importei de ficar sentada na rua àquela hora da noite, mas me arrependi de não ter entrado em casa imediatamente quando senti uma presença desagradável muito perto de mim. Tirei as mãos do rosto e a primeira coisa que avistei foi um par de sapatos bem diante de mim, prendi a respiração e devagar fui erguendo o rosto, subindo pela calça escura, chegando à camiseta preta e finalmente alcançando um rosto.
Era um homem, não muito mais velho que eu, tinha a pele clara, cabelos escuros, não sei se era coisa da minha cabeça, mas ele se parecia muito com Joseph, os olhos escuros sombrios me analisaram, e ele tinha um sorriso ameaçador estampado no rosto. Mas o que me desesperou foi a faca que ele girava entre os dedos, que tinha a ponta coberta de sangue.

__Oi__ ele murmurou e o som da sua vez fez percorrer algo estranho por todo meu corpo.
__Você precisa de ajuda?__ eu perguntei com a voz trêmula, fingindo que tudo estava bem, me levantei devagar, dando um passo pra trás pra manter distância dele.
__Na verdade você pode me ajudar sim Demi__ o ar fugiu dos meus pulmões quando ele pronunciou meu nome, era o que eu temia, não era um carinha comum__ preciso encontrar uma pessoa, Joseph... Acho que você o conhece muito bem.
__Não sei do que está falando__ tentei mentir, mas eu não era boa nisso__ não conheço ninguém com esse nome, eu... Eu não posso ajudar.
__Demi, Demi__ ele balançou a faca na frente do meu rosto__ mentir não é uma boa ideia... Diga-me agora onde ele está, e me poupara o trabalho de arrancar isso de você. Ninguém precisa se machucar ainda.
__Quem diabos é você?__ perguntei antes que pudesse me conter.
Ele piscou, e quando olhei novamente pra seus olhos eles estavam totalmente negros... Ele era um demônio. Depois ele sorriu, um sorriso incrivelmente doce e encantador que fez meu estômago revirar novamente e minhas pernas ficaram bambas, eu não sabia qual era o lance com os demônios, apesar de a maioria dos seus poderes não funcionar em mim, eles conseguiam facilmente me deixar fora de órbita com seu sorriso e seu jeito sedutor.

__Meu nome é Marcus, acho que já deve ter ouvido falar de mim__ procurei em minha memória algum conhecimento com esse nome, mas não conseguia pensar em nada__ eu vou te dar uma dica, ele roubou minha namorada... Você já deve ter ouvido essa história.
Meus olhos quase saltaram das órbitas__ você é o irmão dele.
__Tocante não__ ele revirou os olhos__ esse papo está me enchendo, onde ele está?
__Eu não sei__ menti novamente.
Olhei pro outro lado da rua, calculando quais eram as minhas chances de conseguir fugir dele, não eram muitas, mas eu não ia ficar ali parada esperando pra morrer. Acertei um soco no rosto dele e sai correndo da direção contrária o mais rápido que pude, não tinha ido muito longe quando dei de cara em alguma coisa no meio da rua, parecia uma parede, fiquei sem ar e cai sentada no chão com uma dor insuportável no peito. Olhei pra frente e vi Marcus parado a minha frente rindo.
__Você é patética__ ele disse rindo__ fugir também não é uma boa ideia garota estúpida.
__Por favor, me deixa em paz__ eu implorei ficando desesperada.
__Vem aqui__ ele estendeu a mão e me agarrou pelos cabelos me obrigando a ficar de pé, eu grite com a dor que isso que causou. Ele puxou meu rosto pra bem perto do seu, perto demais e fixou seus olhos nos meus__ me diga agora onde está o Joseph. Eu poderia encontrá-lo sozinho mas por algum motivo não posso sentir mas sua presença e isso não me deixa feliz. Onde ele está?

__Eu não sei__ menti novamente, ele não se importava mas comigo, mais eu ainda morreria pra protegê-lo.
Ele me encarou de um jeito estranho__ então é verdade o que disseram, a hipnose não funciona com você, isso é irritante sabia? Eu vou ter que apelar?
__Está me machucando__ choraminguei tentando fazê-lo soltar meu cabelo.
__Você é muito bonita Demi__ ele murmurou baixinho agora com uma voz sedutora e mais uma vez tive arrepios, ele aproximou sua boca do meu ouvido e me encolhi com o contato__ diga-me onde ele está e poderemos ser amigos. Vamos... Eu sei que você quer.
Conforme ele sussurrava minha mente parecia viajar e ficava difícil de me concentrar, eu não conseguia lembrar o que me deixava com medo, eu não sabia o que estava errado.
__Diga onde ele está__ ele sussurrou de novo.
__No apartamento__ eu respondi incapaz de me segurar, naquele momento eu daria qualquer coisa que ele me pedisse__ do outro lado da rua.
__Boa garota__ ele aprovou e deu um beijinho na ponta da minha orelha__ que tal um reencontro de família agora? Vai ser emocionante, e você vai comigo. Aposto que meu irmãozinho vai adorar saber que conheci a namoradinha dele.
Quando ele começou a me arrastar em direção ao prédio eu não resisti, ainda não conseguia me impor, ainda estava entorpecida, mas também me sentia apavorada sabendo que aquilo não acabaria nada bem.
Fim do Segundo Capítulo

Chapter One

É engraçado como todo o seu mundo pode parar de fazer sentido de uma hora pra outra. Como uma frase pode despedaçar seu coração em mil pedacinhos diferentes e impossíveis de concertar, e como um simples olhar é capaz de encher o seu mundo com uma escuridão assustadora e aparentemente sem fim. Era como eu me sentia agora, como se alguém tivesse roubado todo meu ar e também as luzes, me deixando sozinha no escuro incapaz de ver o caminho que eu deveria seguir, era assustador e doloroso, era desesperador.
Parada no meio do quarto eu observava Joseph sentado na cama com ar assustado, em seus olhos castanhos não havia vestígios do Joseph pelo qual eu me apaixonara, eu não conseguia ver a confiança e o ar superior, enxergava apenas um rapaz terrivelmente assustado e confuso, um rapaz que não me reconhecia. Ele me olhava como se eu fosse alguma espécie de monstro e estivesse prestes a atacá-lo, aquilo não estava certo, não era pra ser assim.
__Joseph__ eu sussurrei tentando conter a tristeza em meu coração, tentando não desabar em lágrimas ali na frente como eu realmente queria, implorar pra ele lembrar de mim__ sou eu Demi, você não se lembra?
__Eu não sei quem é você__ ele respondeu apressado, nervoso__ o que esta acontecendo?
__Calma por favor__ Rebeca pediu, e só ai Joseph pareceu notar a presença dela, o que me surpreendeu é que ele não se assustou ao fitá-la, eu vi reconhecimento em seus olhos e meu sangue ferveu, como ele podia lembrar dela e não de mim?


__Rebeca__ ele disse confirmando minhas suposições__ o que diabos esta havendo? O que você fez comigo?
__Acalme-se por favor__ ela insistiu__ eu prometo que vou lhe explicar tudo.
Rebeca olhou pra mim e quando nossos olhos se encontraram ela pareceu entender tudo que eu estava pensando e sentindo, pois se aproximou segurando minha mão e tentando me confortar, mesmo no silêncio eu pude entender o que ela quis dizer com aquele gesto... "Vai ficar tudo bem". Era uma pena, eu não conseguia acreditar nela, pelo menos ainda não.
__Fique aqui por favor__ Rebeca pediu a Joseph__ descanse um minuto, eu prometo que já lhe conterei o que esta acontecendo, tenha um pouco de paciência.
Eu percebi que ele pretendia protestar, mas antes que realmente pudesse dizer qualquer coisa Rebeca me arrastou pra fora do quarto e fechou a porta atrás de si, só paramos quando estávamos na sala... A mesa de centro ainda estava quebrada e os cacos espalhados no chão, eu ainda podia sentir a dor nas minhas costelas de quando Joseph me jogara sobre ela, na intenção de machucar Melissa que me possuíra, mas a dor quem sentira fui eu. Eu preferia sentir aquela dor de novo ao ter que passar pelo que estava passando agora.
A faca de Joseph também estava no chão, grudada no tapete por conta do sangue dos demônios que ele teve de matar pra sair vivo do covil de Crowley... O que foi que deu errado? Quando finalmente achei que teria paz mais um desastre acontecia pra nos enlouquecer e roubar minhas esperanças.

__Demi__ Rebeca finalmente falou me arrancando de meus devaneios.
__Porque ele se lembra de você Rebeca?__ eu perguntei erguendo os olhos marejados pra fitá-la__ porque ele lembra de você e não de mim? Como isso é possível? Como ele pode me esquecer?
__Não é culpa dele Demi, você precisa entender__ ela murmurou segurando delicadamente uma de minhas mãos__ o ritual apagou a memória dele, mas só a parte que ele viveu como um demônio. Ele te conheceu quando era um demônio por isso não se lembra, mas a mim ele conheceu antes de tudo, por isso não se esqueceu.
__Isso não é justo Rebeca__ eu disse e mesmo sem querer lágrimas escaparam, molhando minha face__ não era pra ser assim, não agora, estava tudo indo tão bem.
__Eu sei que é difícil de aceitar, mas precisa ter paciência Demi__ ela disse__ vamos concertar isso, vamos dar um jeito esta bem? Mas você precisa se acalmar.
__Porque ele tinha que perder a memória? De que adianta tudo que ele fez se não se lembra de nada?
__Diga criança, que tipo de ser humano conseguiria viver com as memórias dele?__ ela perguntou e seu tom de voz soou um tanto sombrio, eu tive calafrios__ que tipo de pessoa teria paz com memórias do inferno, de torturas inimagináveis? Nenhuma pessoa comum suportaria tal coisa, por isso ao completar o ritual essas memórias são apagadas, pra preservar a sanidade.
__Quer dizer que ele pode nunca se lembrar?__ eu perguntei quase sufocando com a ideia.
__Quer dizer que ele não deveria lembrar Demi, não que não pode__ ela explicou.

Eu não sabia exatamente como era o inferno, só pequenas coisas que Joseph me contara vagamente e apenas por esses pequenos detalhes eu sabia que eram memórias dolorosas e perturbadoras, realmente parecia algo com que seria difícil viver, mas sempre pensei em Joseph como um homem extramente forte e corajoso, esqueci que ele já foi humano e teve sentimentos um dia, que ele também tinha fraquezas... Agora ele era como eu, era normal e vulnerável, mas aquilo não soava certo pra mim.
__Vamos conversar com ele__ Rebeca disse__ talvez ele lembre, só precise de um empurrãozinho, não perca as esperanças ainda tudo bem? Há muito pelo que ainda teremos de lutar, precisa ser forte.
__Tudo bem__ concordei respirando fundo, eu precisava ser forte.
Rebeca sorriu satisfeita pra mim e juntas voltamos ao quarto pra conversar com Joseph, talvez ele realmente só precisasse de uma pequena forcinha pra se lembrar. Mesmo contra minha vontade a esperança começou a brotar novamente em meu peito, talvez nem tudo estivesse perdido, eu precisava ter fé.
Quando entramos no quarto vimos Joseph parado na janela olhando pra tudo lá fora, ele parecia perdido em pensamentos, por um segundo achei que ele tinha se lembrado, mas então ouviu o barulho da porta e quando se virou novamente estava repleto de pavor, confusão e... Raiva.
__O que você fez?__ ele quase gritou enquanto encarava Rebeca repleto de raiva__ eu devia estar morto, eu lembro, eu me matei, pus uma corda no pescoço e me enforquei.

Aquelas palavras me trouxeram antigas lembranças, quando ele me contara sua triste história, quando me considerava apenas uma pedra em seu sapato e me mantinha presa buscando sua liberdade, olha aonde chegamos, tudo estava de cabeça pra baixo agora.
__Joseph, você precisa se acalmar__ Rebeca pediu tentando manter o controle da situação.
__Me acalmar?__ ele riu nervosamente__ eu não quero me acalmar, quero saber oque diabos esta havendo? Que lugar é esse? Que coisas são essas?__ ele resmungou pegando o celular como se fosse algo de outro mundo e depois largando na cama__ onde eu estou? O que são aquelas casas enormes lá fora?
Casas enormes? Ele estava falando dos prédios? Percebi uma coisa, ele havia se esquecido de tudo a partir do momento em que se matou, e muito tempo se passou desde então, ele era de uma época diferente, séculos atrás, não havia prédios enormes, celulares, ele devia achar que estava em outro planeta... Aquilo era tão estranho e tão absurdamente surreal.
__Você morreu__ Rebeca afirmou e aquela conversa parecia cada vez mais estranha__ você realmente se enforcou, mas agora esta de volta.
__Você me trouxe de volta? Porque fez isso?__ ele questionou__ eu não queria viver Beca, eu me matei por um motivo, você não tinha esse direito.
__Eu não trouxe você de volta__ Rebeca garantiu__ é uma longa história, eu não sei como começar a te explicar algo assim, você precisa ter a mente aberta esta bem?
__Fala de uma vez__ ele ordenou, e ai estava um vestígio do meu Joseph.


__Depois que você morreu, sua alma foi pro inferno__ Rebeca começou a explicar, eu não reconheci o sentimento estampado no rosto de Joseph__ afinal você matou várias pessoas e depois se matou. Você passou séculos no inferno sendo torturado Joseph, até que sua alma se corrompeu e você virou um demônio.
Ele deu uma pequena risada__ o que? Isso não tem graça Rebeca, não estou brincando.
__Não é piada, você se transformou, mas não gostava do que era e procurou um jeito de voltar a ser humano, você encontrou uma forma, só que isso apagou parte de sua memória__ ela continuou tranquilamente__ você realmente não lembra? É a Demi__ apontou pra mim__ ela é sua namorada... Você a ama.
Ele desviou os olhos de Rebeca pra mim, me analisou por um longo momento, algo indescritível tomando conta de seu semblante, então ele pareceu ficar ainda mais irritado.
__Isso é ridículo__ ele cuspiu as palavras__ não conheço essa garota, ela não é nada minha... A única mulher que amo é Marie e ela está morta, a assassinaram bem na minha frente.
As palavras dele destroçaram meu coração, de novo e de novo até que fosse impossível respirar... Não consegui mais conter as lágrimas, elas desceram livremente. Demorei tanto tempo pra ouvi-lo dizer que me amava e agora ele me olhava com repulsa, só se lembrava de seu antigo amor, eu não significava nada. Eu sabia que não era culpa dele, ele não pedira pra esquecer, mas isso não fazia a situação ser menos dolorosa.
__É verdade Joseph__ Rebeca tentou argumentar__ precisa se acalmar.
__NÃO__ ele gritou descontrolado.
Eu estremeci com o seu grito, cheguei a ficar apavorada... Observei atônita enquanto ele dava um soco no espelho no canto do quarto, fazendo o mesmo se despedaçar e então pegava um pedaço grande, o segurando com força e mirando no próprio peito, eu me desesperei.

__Joseph abaixa isso__ Rebeca ordenou também assustada.
__Desfaça o que você fez__ ele ordenou__ eu me matei e quero continuar morto, eu quero morrer junto com ela Beca, não quero mas essa droga de vida, sem ela eu não sou nada.
__Você não sabe o que esta dizendo__ Rebeca chegou um pouco mais perto, mas ele aproximou mais o vidro, apertava aquilo com tanta força que fazia um corte na própria mão e o sangue começava a escorrer.
__Desfaça o que você fez__ ele repetiu determinado__ ou eu mesmo faço... Já me matei uma vez não me custa nada fazer de novo, eu não estou de brincadeira Beca.
__Tudo bem__ Rebeca concordou pra meu desespero__ eu desfaço o feitiço, mas largue esse vidro.
__O que?__ eu a encarei confusa.
__Por favor, Joseph__ ela pediu__ não precisa fazer isso, eu vou resolver.
Ele não pareceu acreditar nela a principio, mas devia ter visto algo em seus olhos que o fez concordar, afinal Beca nunca lhe faria nenhum mal, eu não sabia o que ela estava planejando fazer, mais observei em silencio, absorta em minha tristeza e minhas lágrimas enquanto ele largava o vidro no chão, sangue escorrendo por dentre seus dedos. Rebeca se aproximou devagar dele e encostou os dedos em sua testa.
__Nullam vitae, ne morte, sanandum vulnus... Change elit__ ela sussurrou.
Esperei que algo acontecesse, ele esperou também, mas tudo continuou igual.
__Porque não deu certo?__ ele perguntou confuso.
__Você esta nervoso agora e não esta pensando com clareza__ ela disse convicta__ esse feitiço vai ter impedir de fazer algum tipo de besteira enquanto não conversarmos tranquilamente.
__Rebeca...
Ela não deixou que ele reclamasse, encostou novamente em sua face e ele caiu na cama desacordado.
__O que você fez com ele?__ perguntei assustada.
__O enfeiticei, agora ele não pode morrer, se tentar uma besteira vai ser em vão__ ela explicou__ é só enquanto ele não se acalma pra que possamos conversar.
__O que fazemos agora Rebeca?__ eu queria tanto que ela tivesse uma resposta.
__Você devia ir pra casa descansar um pouco, ficar aqui agora não vai ajudar em nada e nem te fazer bem.
__Como se eu fosse conseguir descansar__ suspirei__ Rebeca...
__Eu vou dar um jeito Demi, só preciso de tempo__ ela me garantiu__ você ficar aqui não vai ajudar.
Ela estava certa, ficar ali não ajudaria em nada, não havia nada que eu pudesse fazer pra mudar o que estava acontecendo a não ser esperar que resolvessem tudo por mim, era sempre assim, eu era uma inutil. Resolvi que ir pra casa talvez fosse realmente o melhor pra mim, eu precisava descansar, precisava parar de olhar pra ele e lembrar que ele agora não sabia quem eu era, precisava esquecer um pouco que minha vida estava indo por água abaixo e que tudo que eu amava acabava indo embora um dia.

Fui pra casa então, atravessei a rua que estava completamente vazia aquela hora da noite, por um momento louco desejei que houvesse um carro passando pra que eu pudesse me jogar na frente dele, mas ai pensei melhor vi que não era uma solução sábia, eu não queria parar no inferno, não era uma boa escolha. Cheguei em casa e minha mãe estava me esperando sentada no sofá.
__Oi filha__ sorriu pra mim__ onde você estava em?
__Eu... Estava com... __ não consegui dizer o nome dele a principio, parecia que eu ia sufocar.
__Com o Joseph?__ ela completou a frase por mim e eu apenas concordei, ignorando a pontada em meu coração, eu estava morrendo aos poucos, mas eu sabia que precisava ter calma, ainda havia uma solução, Rebeca ia concertar isso__ quando ele vem aqui de novo?
__Não sei__ respondi com um nó se formando em minha garganta__ ele anda... Ocupado.
__Mande um beijo meu pra ele então, embora seu pai não tenha gostado dele, eu o adorei, não devia deixá-lo escapar querida, acho que ele é o cara certo.
Engoli as lágrimas que suas palavras instigaram até chegar no meu quarto, fechei a porta, me joguei na cama e só então me permiti chorar. Chorei como uma criança de cinco anos, chorei de soluçar e pensei que fosse sufocar com tantas lágrimas, botei toda a tristeza pra fora, mas ainda assim não me senti nenhum pouco melhor, eu só seria feliz de novo quando ele olhasse nos meus olhos, disesse que lembrava de mim e que me amava... Mas eu sabia que isso poderia demorar. E eu esperaria.
Fim do primeiro capítulo

Prólogo

Depois de todos os obstáculos Joseph finalmente completou o ritual e agora é humano. Mas há um pequeno problema , junto com a transformação veio a perda de memória e agora Joseph esqueceu tudo o que passou enquanto era um demônio, inclusive de Demi. Agora Demi tem novos desafios a enfrentar e sem a ajuda de seu grande amor. Ela precisa achar uma forma de fazer ele se lembrar de tudo, além de lhe dar com as novas descobertas sobre quem ela realmente é e as mentiras que a envolbem. E sem perceber que um grande mal a espreita, escondido na escuridão ela pode acabar perdendo tudo aquilo pelo que tanto lutou.


Prólogo
Eu sempre fui uma garota independente, nunca precisei de ninguém pra seguir meus objetivos, mas as coisas mudaram quando Joseph apareceu na minha vida, o mundo que eu conhecia se mostrou perverso e sombrio, e sozinha eu não sabia como lidar com meus medos. Joseph se esquecera de mim, agora quando me olhava só havia um grande vazio como se eu fosse uma qualquer e não a mulher que ele amava, e aquilo doía, mais que qualquer tortura que já sofri em minha vida.
Agora eu precisava correr... Correr contra o tempo pra achar uma solução pros nossos problemas. Eu achava que tinha acabado, mas estava redondamente enganada. Havia coisas sobre mim que nem eu mesma sabia, mentiras que me colavam em risco e que vinham de uma pessoa que supostamente deveria me proteger e me manter segura. Havia uma escuridão me circundando, tentando me cegar e levar embora tudo de bom pelo que lutei, mas eu não ia desistir tão fácil, não sem lutar, eu precisava continuar firme e fazer toda aquela dor valer a pena.

Chapter Twenty Eight

Joseph Narrando

O programa de uma semana em Stanford foi melhor do que eu esperava. Fui recebido muito bem na Universidade, me interei sobre o programa de estudos, conheci outros bolsistas, fiz alguns amigos e Ashley estava lá comigo me apoiando. Depois que o programa terminou fomos curtir nossas férias de verão, quando as aulas realmente começassem as coisas seriam diferentes e eu queria aproveitar ao máximo. Nick também entrara pra Stanford, Kevin já escolhera uma outra faculdade e como nos separaríamos ficamos grudados o verão inteiro curtindo.
Demi realmente viajou pra Paris pelo que eu soube, a mãe foi com ela, mas depois uma semana voltou e a deixou por lá. Eu sentia uma falta absurda dela, que em alguns momentos me causava uma dor física, mas então eu pensava em coisas boas, pensava que tinha sido pro melhor e conseguia me conformar. Não seria fácil ficar três anos sem vê-la, mas acho que o tempo diminuiria aquela sensação desagradável que me abatia principalmente durante a noite, quando queria que ela estivesse na cama comigo, me abraçando e dizendo que amava. Meus amigos me mantinham ocupado e eu conseguia não pensar nela boa parte do tempo, mas eu nunca ia esquecer.

Quando o verão finalmente acabou, eu, Ashley e Nick nos mudamos pro alojamento em Stanford, era uma longa viagem até a universidade pra ser feita todos os dias, então ficaríamos por lá e só voltaríamos pra casa no fim de semana. Eu e Nick ficamos juntos no mesmo quarto, que era bem legal por sinal. Estávamos nos acomodando, as aulas começariam no dia seguinte e eu queria ter tudo sob controle.
__Quarto legal__ a porta estava aberta, e ouvi uma voz familiar comentar, a princípio achei que fosse Ashley, mas quando me virei com uma resposta engraçadinha na ponta da língua perdi a fala.
__Demi__ não consegui dizer nada mais inteligente.
__Sabe, eu acho que esqueci uma coisa... No... Eu tenho que ir__ Nick murmurou e saiu do quarto.
__Bom te ver Nick__ ela piscou pra ele que sorriu e sumiu de vista.
Meus olhos a analisaram da cabeça aos pés só pra ter certeza de que não estava sonhando. O vestido cor de rosa rendado, os sapatos de salto super alto, o chapéu rosa na cabeça, a maquiagem e as unhas perfeitamente feitas, e pulseira em seu braço, não me deixaram ter dúvida, era mesmo ela.
__Não me olhe desse jeito, parece que está vendo uma assombração__ ela resmungou.
__O que faz aqui? Não devia estar em Paris?

__Eu estava__ ela sorriu__ voltei à cidade ontem e devo dizer, Paris é incrível, a Torre Eiffel de perto é bem mais incrível do que eu imaginei, foi o melhor verão da minha vida.
__Não entendo__ confessei confuso__ os olhos fixos nos dela.
__Meu pai assistiu a peça aquele dia__ ela comentou__ ele demorou a admitir, mas viu como eu era boa atriz, minha mãe voltou pra cidade e me deixou por lá, mas parece que ela não deixou de encher o caso do meu pai nenhum segundo. Ela contou a ele como eu estava triste, fez um escândalo durante várias semanas e ele deu o braço a torcer.
__O que quer dizer com isso?__ não queria criar falsas esperanças.
__Quero dizer que finalmente chegamos a um meio termo__ ela deu de ombros__ papai foi a Paris me ver ontem, tivemos uma longa e franca conversa. Pela primeira vez na vida ele realmente ouviu o que eu tinha a dizer, e também me contou coisas que me fizeram entender melhor as atitudes dele. No fim das contas ele não era exatamente o monstro que eu pensava.
__E?__ era difícil de acreditar depois do que ele fizera, mas não ia me concentrar nisso agora.
__Fizemos um novo acordo__ ela agora sorriu de orelha a orelha__ ele me deixou largar a faculdade em Paris e estudar aqui na cidade, a faculdade que eu quiser e seguir o meu sonho de ser atriz, mas também vou ter que dedicar um tempo a ajudá-lo na empresa, ele ainda quer que eu aprenda os negócios da família__ ela revirou os olhos__ mas sabemos que não vai dar em nada.
__Então vai ficar aqui na cidade?__ eu sorri também.


__Eu tenho uma nova colega de quarto__ Ashley apareceu do nado e passou um braço sobre o ombro de Demi.
__Como é?
__Bem, eu agora sou aluna de Stanford também, vou estudar artes cênicas__ ela explicou__ e achei que seria legal me dar bem com a melhor amiga da meu namorado... Não é uma boa noticia? Somos Best friends forever agora__ ela piscou pra Ash.
__Espera, espera... Eu não...
Ela pos um dedo sobre meus lábios me impedindo de continuar a falar feito um idiota.
__Eu não vou mais a lugar nenhum__ ela sussurrou__ e quero continuar a ser sua namorada se você ainda me quiser.
Nenhuma palavra seria boa o bastante pra descrever o que eu estava sentindo naquele momento, então apenas sorri, a abracei apertado e a beijei com todo o meu carinho e amor. Ouvi Ashley bater palminhas e depois sair de fininho nos deixando a sós. Pensei primeiro que eu devia estar sonhando, mas quando senti os lábios dela nos meus soube que estava tudo bem, ela estava ali comigo e não ia mais me deixar... Nunca mais.
__Eu te amo__ ela sussurrou com os lábios ainda colados nos meus, as mãos afundadas no meu cabelo.
__Eu te amo__ sorri sem conseguir conter a felicidade, nossas respirações se misturaram, meu coração disparou no peito e então estava tudo bem, tudo perfeito__ barbie.
Ela riu alto, uma gargalhada gostosa que me contagiou e selei nossos lábios de novo, ela estava ai comigo e eu não a deixaria ir embora nunca mais. A minha barbie.

Fim
É mais uma historia chegando ao final ): espero que voces tenham gostado dessa historia .. gostei tanto de repostar ela pra vocês . (: Espero que tenham gostado do final e tenha ficado como voces queriam ..


EM BREVE

Darkness ;D