Capitulo 13. MARATONA


Estrada de Sangue.

Reino de Murdor
Joseph só soltou o braço de Demetria e relaxou, quando entraram em uma pequena casa numa área isolada da cidade. Ele a empurrou para dentro com aquele seu descuido habitual e depois trancou a porta, caminhando lentamente pelo cômodo para ascender algumas vê-las e iluminar o lugar.
__O que estava havendo lá fora em?__ ele questionou enquanto ascendia as velas.
__Aquele idiota achou que podia quebrar a regra do Rei e se aproveitar de mim já que Klaus e nem você estavam na cidade__ ela murmurou zangada, parada em um canto de braços cruzados, batendo o pé no chão nervosamente__ qual o problema desses soldados? Eu por acaso tenho cara de prostituta?
__Bem, você mora em um Bordel__ ele a lembrou.
__Não por escolha própria__ rebateu ofendida.
__O que não muda o fato de que é a mulher mais bonita que já viram nesta cidade__ ele murmurou enquanto largava o punhal sobre uma mesa e tirava o cinto__ esses homens não estão acostumados com princesas tão bonitas, e muito menos a serem gentis.
__Acha que sou a mulher mais bonita da cidade?__ ela o olhou desconfiada.

Ele parou o que fazia para fitá-la e sorriu debochadamente.
__Só estou repetindo o que ouvi dizerem por ai princesa, não disse que concordava.
__Porque me ajudou?
__Porque é meu trabalho, o Rei não quer que nada lhe aconteça, a não ser que seja por ordens dele__ deu de ombros__ não fique achando que me importo.
__Eu nunca pensaria isso__ ela garantiu com um sorriso amargo__ que lugar é esse?
__É minha casa__ ele respondeu. 
Ela o olhou de lado, depois focou sua atenção no lugar. A primeira coisa que reparou era que era uma casa bem simples, porém ainda assim aconchegante. Viu no canto de uma das paredes, diversas facas e lâminas diferentes penduradas, como uma coleção de armas e dentre elas estava a que Charlie havia lhe dado e Joseph roubara quando impedira sua fuga. Ela ergueu a mão para tocá-la.
__Não toque nisso__ a voz dele a despertou do transe.

Ela o olhou de cara feia e voltou a analisar o lugar, fitando a lareira no canto, que agora estava apagada e depois a cama no outro canto. Era bem mais simples que a do quarto do Rei, mas também tinha um lindo dossel, com cortinas meio transparentes descendo sobre a cama como uma cascata. Sentiu-se um pouco desconfortável de repente e sem saber ao certo porque, lembrou-se do beijo que ele lhe dera dias atrás. 
__Devia evitar sair sozinha pelas ruas enquanto o Rei estiver fora da cidade__ Joseph avisou a despertando novamente de seus devaneios, ela se perdia facilmente em pensamentos__ os homens sempre querem aquilo que não podem ter, é mais excitante. 
__Mas você não é assim__ não foi uma pergunta.
__Você sabe bem que não sou como os outros homens, princesa. 
__É muito mais complicado__ ela concordou. 
__Droga__ ele resmungou. 
__O que foi?__ ela o fitou curiosa.
__Aquele filho da mãe me machucou__ reclamou passando a mão atrás da cabeça e depois afastando para ver o próprio sangue. 
__Pensei que ninguém conseguisse machucar o cavaleiro das sombras.

__Ele quebrou uma garrafa de vidro na minha cabeça, isso não conta... E não estou num bom dia. 
__O que aconteceu? Realmente não parece muito bem. 
Ele se aproximou e sentou-se na beirada da cama.
__Armaram uma armadilha para nós__ ele disse, ia contar a ela que era um plano de seu pai, mas alguma coisa nos olhos dela o impediu de prosseguir__ é uma longa história, não vai se interessar.
__Alguém conseguiu machucá-lo, é claro que me interessa__ ela provocou, mas se sentou ao lado dele__ deixe-me ver se é grave.
__Não preciso da sua ajuda__ ele se afastou do toque.
__Não seja chato, deixe eu ver__ ela insistiu__ a menos que consiga fazer um curativo sozinho, o que duvido muito.
__Porque se importa?
__Não que eu me importe__ ela tratou de dizer e o obrigou a se virar de costas__ mas me você salvou hoje e não foi à primeira vez.
__Já disse que só estava fazendo o meu trabalho. 
__Não faz diferença, a questão é que lhe devo minha vida. 
Ele nada respondeu, ficou quieto enquanto sentia os dedos finos e gentis por entre seus cabelos, tocando-lhe com todo o cuidado. 
__Não foi fundo__ ela sussurrou__ só tem um pedacinho de vidro preso e precisa limpar para não infeccionar.
__Devia ter matado aquele bastardo.

__Eu posso cuidar disso__ ela se levantou e sem pedir permissão mexeu nas coisas dele a procura de algo para lhe ajudar a fazer o curativo. Ele apenas a observou em silencio, sem nada dizer. Sua cabeça e seu corpo doíam e ele não estava com paciência para discutir, e realmente precisava de ajuda, não conseguiria cuidar do ferimento sozinho. 
Depois de um minuto, ela se sentou novamente atrás dele e pediu que abaixasse a cabeça.
__Você e Paola vieram do mesmo lugar não é mesmo?__ ela comentou__ por isso são tão amigos.
__Porque pergunta?
__Eu sou muito curiosa__ ela deu de ombros__ todo mundo por aqui sabe quem eu sou, qual a minha história, mas não sei nada sobre vocês. Você por exemplo é um homem complicado, uma hora grosseiro e rude, outra tranquilo e até mesmo amável.
__Eu não sou amável. Ai__ ele resmungou ao sentir uma pontada de dor na cabeça. 
__Calma, foi só o pedaço de vidro, não seja um bebê chorão__ ela provocou__ e você pode ser amável sim, eu o vi brincando com o menino no outro dia, rindo. E você me ajudou com o Rei, quer dizer... Não me entregou pra ele.

__Isso não faz de mim uma pessoa amável__ ele avisou__ mas também não sou o monstro que as pessoas gostam de dizer por ai. Elas ouvem e inventam coisas o tempo todo, elas não sabem de nada.
__Como você se tornou o cavaleiro das sombras?__ ela perguntou__ as histórias não contam tudo e... Você mesmo disse que muitas coisas que dizem por ai é mentira. Gostaria de saber de onde surgiu essa fama. 
Ele ficou em silencio, Demetria pensou que estivesse pensando em uma resposta, mas depois de um tempo entendeu que ele não diria nada. Ele não queria lhe contar sua história, ela não era sua amiga e ele não lhe devia nada. Mas o silencio a incomodava.
__Em Severac__ ela começou a falar, molhando um pedaço de pano e começando a limpar a ferida__ tinha uma menina, mais ou menos da idade de Peter, eles eram muito parecidos. Ela me perseguia, como Peter faz com você, querendo que eu lhe ensinasse as coisas que sabia. A menina era uma plebéia de família pobre, mas muito bonita e adorável e sonhava ser uma princesa__ ele gemeu com outra pontada de dor__ eu a tomei como minha protegida, a mãe dela não se importou, e transformei-a numa menina nobre, tratei-a como se fosse minha irmã. No dia da invasão, quando me seqüestraram... __ Demetria sentiu um nó na garganta__ eu vi o corpo dela, morta no chão como um animal qualquer, era só uma criança.

__Porque está me contando isso?__ ele perguntou__ está tentando me fazer sentir culpado?
__Não__ ela negou__ acho que só estou tentando dizer que... Todo mundo tem sua trágica história. Você já conhece a minha. 
Por um longo momento nenhum dos dois disse nada. Demetria continuou a limpar cuidadosamente a ferida na cabeça dele, tirando todo o sangue dos cabelos o mais gentilmente que podia para que ele não reclamasse. Até que ele pos a mão sobre a sua, segurando gentilmente e a obrigando a parar o que fazia. Ela podia sentir a tensão que emanava dele e isso não a ajudou a relaxar.
Lentamente, sem soltar a sua mão, Joseph se virou até que estivessem sentados frente a frente na cama. Ele estava sério, os olhos azuis brilhavam mais que o normal, com uma intensidade que a deixou desconcertada. O lugar estava mal iluminado, apenas com a luz de algumas poucas vê-las e naquele momento, o nome de cavaleiro das sombras nunca pareceu lhe cair tão bem. 
__Quer mesmo saber a minha história?__ ele perguntou baixinho, a olhando nos olhos, coisa que nunca fizera antes.
__Só quero entender você__ ela disse. 
Joseph soltou a mão dela e respirou fundo uma vez, seus olhos ficaram vazios.

__Eu nasci em uma cidade chamada Correntio__ ele sussurrou, e Demetria não acreditou naquilo, ele realmente ia lhe contar__ minha mãe era Marisa, gostava de costurar vestidos para as moças da cidade. Meu pai era um cavaleiro, o melhor soldado que existia, ninguém conseguia pará-lo quando empunhava sua espada. E tinha minha irmã gêmea, seu nome era Macayla.
Demetria se lembrou da conversa que ouvira dele com Paola... Marisa e Macayla, eram a mãe e irmã de Joseph.
__Você tem uma irmã gêmea?__ ela disse surpresa.
__Sim__ ele concordou__ éramos muitos parecidos na aparência, quando éramos crianças teve um tempo em que éramos idênticos, você não poderia dizer quem era menino e quem era menina. Tínhamos os mesmos cabelos negros, mas quando ela cresceu os seus ficaram grandes e lisos, e também tínhamos os mesmos olhos azuis. O mesmo tom de pele, só que eu passava a maior parte do tempo sujo, enquanto ela brincava de princesa com as outras meninas. 
Demetria conseguia visualizar a cena, uma linda princesinha com belos traços e um menino rebelde, sujo de lama, matando animais inocentes por ai para se divertir, era bem a cara dele.
__Desde pequeno meu pai me ensinou a lutar, queria que quando eu crescesse fosse um ótimo cavaleiro assim como ele, e passava horas e horas me ensinando como usar a espada. Ele era um homem muito ocupado, mas nunca me deixava sem nada para fazer, no tempo que passava ocupado, ele me mandava fazer atividades para melhorar minha velocidade, minha agilidade, meu equilíbrio e a noite, quando estava livre me testava e nós lutávamos até cansar. Eu fazia de tudo para ser o melhor e não decepcioná-lo.
__Aposto que se visse o cavaleiro que se tornou teria orgulho__ Demetria disse.
__Eu não tenho tanta certeza__ ele murmurou fazendo careta__ de qualquer forma... Nossa cidade foi invadida quando eu tinha dez anos por Klaus e seus homens, eles mataram todos que viram pelo caminho na esperança de tomar a cidade. Meu pai morreu lutando, eu vi quando o encurralaram e um dos homens o matou pelas costas, sem chance de defesa. E eu achava que ele era invencível. 
__Klaus matou sua família?__ Demetria não acreditava no que estava ouvindo.

__Ele matou meu pai, e tentou me matar também, mas com dez anos eu já era muito ágil e os homens dele não conseguiram me pegar. Eu derrubei um monte deles, não matando, apenas machucando enquanto escalava e pulava de casa em casa, deixando todos eles loucos. Mas ele capturou minha mãe e minha irmã e disse que se eu não parasse de lutar ia matá-las. Eu não tive escolha. 
Demetria escutou em silencio, sabendo que a história não tinha um final feliz.
__Não sei exatamente porque ele não me matou, acho que percebeu que eu valia mais vivo, ele percebeu o meu potencial. E Klaus me desafiou aquela noite. Um dos homens dele estava caído no chão, eu tinha cortado a perna dele com a espada e ele mal podia se mexer de tanta dor que sentir. Klaus olhou pra mim e depois para ele e mandou que eu o matasse. Eu disse que não queria, ele nem estava mais armado, não era um perigo, mas Klaus disse “se você não matá-lo eu corto a garganta da sua irmã”. Macayla estava tão assustada, até hoje eu me lembro do pavor nos olhos dela quando enterrei a espada no peito do soldado e o matei. Foi a primeira vez que tirei uma vida e tive pesadelos por muito tempo depois disso.
Demetria não sabia até onde ia à crueldade de Klaus, obrigar um menino de dez anos a tirar uma vida assim.

__Quando ele partiu da cidade me levou junto, mas ficou com minha mãe e minha irmã como reféns em outro lugar para garantir que eu o obedeceria. Ele me treinou por mais uns cinco anos antes de me mandar para a guerra como um soldado seu e o ódio dentro de mim me fazia um soldado melhor, ainda faz. Ganhei o apelido de cavaleiro das sombras quando ainda era um adolescente. Eu gostava de ficar sozinho, escondido, sempre com o rosto coberto e pegava meus inimigos de surpresa, de forma que não havia como eles escaparem, e ai surgiu isso. As pessoas começaram a ouvir sobre meus feitos e se espalhou como uma doença, virei uma historinha de terror para assustar crianças. 
__O que aconteceu com sua mãe e sua irmã?
__Faz dezoito anos que tento descobrir onde Klaus as esconde__ sussurrou com o olhar distante__ ele nunca as deixa no mesmo lugar por muito tempo, sabe como ser discreto. 
__Como sabe que elas ainda estão vivas?

__Paola__ ele respondeu__ ela era da minha cidade, amiga de minha mãe e quando invadiram a cidade a levaram, era uma mulher muito bonita, a venderam como uma prostituta. Klaus não me deixa vê-las, mas permitiu que eu mandasse alguém de confiança em meu lugar e uma vez por ano ela vai até elas e manda noticias minhas e trás delas pra mim. Ela vai vendada durante todo o caminho, por isso não sabe onde é. 
__Isso é horrível.
__Uma vez eu me revoltei contra Klaus__ Joseph disse__ como punição ele me entregou em uma caixinha um dos dedos de minha irmã e disse que se eu aprontasse de novo cortaria outra parte e assim por diante até que eu a tivesse por inteiro. É por isso que não o desafio, não porque gosto dele ou porque sou cruel, mas simplesmente porque não posso. 
E naquele momento tudo passou a fazer a sentido, as atitudes dele para com Klaus, toda aquela devoção, e a certeza de Paola de que ele era uma boa pessoa, independente das coisas que fazia. Ele só estava tentando proteger a família.

__Não sou covarde princesa, eu odeio covardes e não gosto que pense que as coisas que Klaus lhe faz me agradam de algum jeito, eu não sou esse tipo de homem, que maltrata mulheres e crianças só por diversão. Eu não sou um homem bom, eu mato aqueles que merecem sem nenhuma pena, é assim que eu sou. Mas ainda não sou um covarde. Meu pai me criou para ser um soldado honrado e leal, não um assassino qualquer__ ele suspirou__ não consigo deixar de pensar que se ele me visse agora ficaria decepcionado.
__Por você defender a sua família?
__Por causar sofrimento aos outros para não ter que sofrer eu mesmo__ sussurrou__ eu entreguei Charlie, ele não merecia morrer, eu podia tê-lo deixado ir, mas escolhi entregá-lo, deixei um inocente morrer para o meu beneficio, ele não aprovaria algo assim.
__Você estava fazendo oque era preciso para salvar sua família.
__Nem você acredita no que está dizendo, sei que tem raiva de mim por isso e com razão__ ele deu de ombros__ não importam os meus motivos, não deixa de ser errado e eu não me esqueço disso nem por um minuto. Sei que ainda vou pagar por todas as coisas ruins que já fiz. A dor não me incomoda mais, não tenho medo da morte, mas minha estrada está coberta de sangue e minha alma tão negra quanto meu nome. 
E ela podia ver nos olhos dele... Ele não gostava das coisas que fazia, simplesmente não tinha escolha.

__Só não desisti de tudo até hoje porque prometi a Macayla e eu sempre cumpro uma promessa. Só vou descansar no dia em que as duas estiverem salvas e Klaus morto. 
Demetria apenas assentiu, erguendo a mão com o pano olhado para limpar o ferimento na bochecha dele, mas Joseph agarrou seu pulso e a fitou com aqueles grandes olhos azuis cheios de algum sentimento que ela não conseguia decifrar. Não devia ser fácil para ele se abrir assim com alguém, ainda mais com ela, que não significava nada.
__É tarde demais para eu me arrepender das coisas que fiz e mudar o meu caminho__ ele disse seriamente__ eu vou salvá-las custe o que custar princesa. Vou passar por cima de quem tiver que passar para cumprir minha promessa. 
Sem precisar de explicações, ela entendeu o que ele queria dizer. Ele passaria por cima de qualquer um, inclusive dela para poder manter a família a salvo, por isso eles não podiam ser amigos. Se Klaus mandasse Joseph matá-la, ou seu pai, ou Alex, ele o faria, e não pensaria duas vezes, era assim que as coisas eram. 
__Eu já entendi__ ela disse puxando a mão da dele gentilmente e largando o pano molhado.

De repente, sentiu que lágrimas lhe brotavam dos olhos sem sua permissão e já nem sabia mais porque chorava. Chorar não ia mudar sua situação, chorar não ia salvá-la e o cavaleiro das sombras também não. Ele a ajudara porque era seu trabalho e não porque se importava... Ele não podia se dar ao luxo de se importar. 
__Tenho que voltar ao Bordel, Vitória estava passando mal e quero saber como ela está__ se levantou da cama__ desculpa te perturbar com minhas perguntas, mas agradeço por ter me contado tudo isso e prometo que não contarei a mais ninguém. 
Ele nada disse, só ficou ali sentado na cama observando enquanto ela ia embora. Não sabia por que lhe contara tudo aquilo, ele não dividia sua história com ninguém. Mas havia alguma coisa naquela princesa, na sua coragem e orgulho para continuar de cabeça erguida mesmo com tudo que estava passando. Algo naqueles olhos castanhos entristecidos que o fez sentir-se mal pela primeira vez de verdade por fazer tudo que era preciso para salvar a família. 
O perfume dela ficou espalhado pela casa, e naquela noite quando fechou os olhos para dormir teve pesadelos. Mas aquele foi diferente do que o atormentava nos últimos dezoito anos. Dessa vez viu o rosto da princesa, coberto de lágrimas, lhe implorando desesperadamente pela vida e ele tinha que escolher, tinha que escolher com o que se importava mais. Nenhuma das escolhas o faria se sentir melhor. 

Fim do Capítulo

Baby

Hoje sera 5 capítulos no total , porque ontem eu so postei 3...

BOA MARATONA , ESPERO QUE GOSTEM (:

Capitulo 12. MARATONA



Lealdade e Honra.

Cidade de Vurdock
A pequena caravana do Rei chegou à cidade de Vurdock depois de um dia e meio de viagem. Tinham prendido o soldado de Severac na cidade e decidiram deixá-lo preso lá mesmo, para evitar o risco de fuga, assim expulsaram uma família de uma casa e fizeram dela seu cativeiro. Quando Joseph chegou, o homem estava amarrado a uma cadeira e não parecia nenhum pouco preocupado com o que lhe aconteceria, na verdade ele estava até mesmo sorrindo. 
Joseph ascendeu à lareira no canto do cômodo e começou a depositar alguns objetos em cima da mesa, enquanto o fazia o soldado o observava divertido. Ele sabia o que estavam prestes a fazer e sorria como se visse uma prostituta dançar nua para ele.
__Como é seu nome?__ Joseph perguntou.
__Me chamo Carlos__ ele respondeu tranquilamente__ mas meus amigos me chamam de ligeirinho, sabe, porque sou rápido. Infelizmente parece que não fui rápido o bastante dessa vez, seus homens correm bastante. 
__É um prazer Carlos__ Joseph disse sorrindo__ eu me chamo Joseph, mas gostam de me chamar de Cavaleiro das sombras.

__Ah, Klaus lhe mandou para me assustar não é mesmo? Homem esperto. Mas na verdade é um prazer conhecê-lo, já ouvi tantas histórias sobre você, é verdade que cortou fora o membro de um homem e o fez engolir as próprias bolas? Deve ter sido uma cena muito engraçada__ ele disse rindo.
__É uma boa história, mas eu não toco no membro de outros homens__ Joseph ergueu uma faca e a fitou atentamente__ muitas coisa que falam sobre mim são mentiras, as pessoas gostam de inventar. É verdade que todos que me enfrentaram morreram, mas eu não sou um demônio e também não comi as tripas de um dos homens que matei.
__Decepcionante__ Carlos fez careta.
Joseph o fitou com atenção, não esperava que ele continuasse assim tão calmo e debochado. 
__Você é um homem corajoso Carlos, a maioria dos homens se borra ao saber quem eu sou.
__É uma reação inteligente__ ele concordou__ mas nunca fui um homem muito esperto e não tenho medo da morte. Na verdade seria uma honra morrer lutando com uma lenda como você, o que não é o caso, já que vai torturar covardemente até a morte não é mesmo?
__Ótimo, posso pular a parte que explico o que farei com você se não me disser o que quero saber__ Joseph se aproximou__ onde fica o esconderijo do Rei Robert? Sabemos que fica na direção Leste.
__Como sabem disso? Porque me viram seguindo para lá?__ Carlos perguntou__ eu podia estar apenas indo defecar no mato. 
__Onde fica o esconderijo? É em alguma cidade?__ Joseph perguntou de novo.
__Eu não sei, tenho sérios problemas de memória__ fez uma careta como quem se desculpa. 
Joseph tinha que admitir que respeitava aquele homem mas do que qualquer outro soldado que conhecera, ele era realmente atrevido e corajoso, mas tinha que fazer aquilo. Ainda sorrindo, fez um gesto aos seus para que o desamarrassem. Dois soldados o levantaram da cadeira, torceram as mãos dele atrás das costas e o empurraram contra a mesa. 
__Qual dedo você quer perder primeiro?__ Joseph perguntou.
__Seria legal se deixasse só o do meio, assim eu não teria que fazer nenhum esforço. 
Sem perder tempo, Joseph segurou a mão de Carlos e arrancou-lhe logo dois dedos de uma só vez. Carlos gritou com a dor, mas o grito se perdeu em meio a uma tosse e transformou-se em uma risada.

__Oh merda__ ele resmungou rindo__ agora terei de me masturbar com a outra mão. 
__Onde fica o esconderijo do Rei Robert?__ Joseph perguntou novamente.
__Porque não procura no meu bolso? Talvez ele esteja lá dentro__ sugeriu. 
Joseph arrancou mais dois dedos, vendo o sangue escorrer da mão do homem, que depois do grito voltou a sorrir. 
__Vai falar agora?
__Está perdendo seu tempo cavaleiro das sombras__ Carlos disse__ não vou entregar meu Rei. Tenho Lealdade e Honra, coisa que você não sabe o que significa. É o melhor soldado que existe, mas trabalha do lado errado. 
Joseph se virou para um de seus homens, limpando o sangue das mãos.
__Traga aquele ferro quente por favor__ pediu__ talvez ele se sinta mais inclinado a colaborar se eu enfiá-lo no rabo dele.
__Hum, nunca fui fudido por trás, será uma experiência interessante__ Carlos debochou.
Os homens se entreolharam, nunca viram um homem como aquele. Porque ele continuava rindo? Joseph pegou o ferro.
__Abaixem as calças dele__ ordenou.
__Ah, eu quase me esqueci__ Carlos murmurou enquanto lhe tiravam as calças__ O Rei Robert mandou um recado. Disse que vão se arrepender profundamente por terem capturado a princesa Demetria, disse que tudo que fizeram com ela, farão em dobro com todos vocês.
__Será uma tarefa interessante, sendo o que o Rei Klaus a fode quase todas as noites.

__Cometeram um grave erro__ Carlos disse agora sério, parando de rir um momento__ pensa que somos idiotas, que somos fracos? Vocês tomaram nossa cidade, mataram boa parte dos nossos homens e também muitas pessoas inocentes, até mesmo crianças, mas pensam que vão sair impunes? Que são invencíveis? O Rei Robert está montando um exercito e vai foder com todos vocês um por um, vão se arrepender seus bárbaros__ e voltou a rir__ SEU BANDO DE MERDAS. 
Joseph parou um minuto, então entregou o ferro a um de seus homens.
__Perguntem a ele de novo onde é o esconderijo, se ele não disser arranquem fora seu membro e se mesmo assim continuar rindo, sejam criativos__ ele sorriu__ tenho que tratar de um assunto. 
__ESPERE COMANDANTE, NÃO VÁ EMBORA AINDA__ ele pediu__ AINDA TENHO CINCO DEDOS SOBRANDO.
Mas ele não ouviu o que homem dizia, saiu da casa indo em direção a cabana onde o Rei estava. Porém antes que chegasse lá, ouviu um som alto e ensurdecedor e se abaixou para se proteger quando a casa de onde ele acabara de sair explodiu, espalhando destroços para todos os lados. Uma chuva de fogo vermelho vivo.

Armadilha

__Era uma armadilha__ Joseph murmurou, estava agora parado na frente do Rei tentando lhe explicar o que tinha acontecido mais cedo. Estava sujo de poeira, terra e cinzas, e tinha um corte no rosto onde um dos destroços da explosão o acertara. Na verdade ele também devia estar morto àquela hora, fora por muito pouco__ o homem foi pego de propósito, sabiam que íamos querer interrogá-lo.
__Como ele causou aquela explosão__ Klaus quis saber__ nunca vi nada igual aquilo.
__Não sei dizer senhor__ Joseph confessou__ sinto muito, eu devia ter notado que era uma armadilha.
__Não foi sua culpa, você não estava aqui quando pegaram o homem, mas os outros incompetentes sim. 
__O soldado Carlos, estava tranquilo demais, não parecia preocupado__ Joseph contou__ ele disse... Ele disse que o Rei Robert estava montando um exercito e que iria acabar conosco, mas não sei de onde ele poderia arranjar homens o suficiente para nos abater, a maioria de seus aliados estão agora do nosso lado e os outros Reinos tem medo de nós, eles nã fazem nenhum movimento, estamos de olho.
__Aquele desgraçado__ Klaus resmungou__ o velho é mais esperto do que eu pensava. Perdeu apenas um homem e levou quase vinte dos meus de uma única vez. E ele continua me vencendo, não importa o que eu faça.

__Acho que o esconderijo dele não fica no Leste__ Joseph comentou__ acho que Carlos estava querendo nos despistar.
__E mais uma vez voltamos à estaca zero__ Klaus riu, mas não havia humor algum no gesto. 
__O que devemos fazer Alteza?
Klaus pensou no assunto por um instante, batendo o pé no chão com impaciência.
__Quero volte a Murdor__ ele disse__ e aguarde ordens minhas.
__Senhor?__ ele estava confuso.
__Volte para Murdor Joseph, cuide de tudo por mim, vou ficar aqui um tempo. Tenho um plano, confie em mim... Mas quero você em Murdor por enquanto, de olho na princesa e comandando nossos soldados de lá. Eu acho que sei o que aquele desgraçado está tramando, mas se pensa que pode enganar está errado.
__Alteza...
__Só obedeça Joseph, volte para Murdor agora mesmo.
__Como quiser Alteza__ fez uma reverencia. 
Mesmo contra sua vontade, Joseph se retirou, pegou seu cavalo negro e partiu da cidade. Não sabia o que Klaus estava tramando, mas provavelmente era alguma estupidez que acabaria com muitas mortes. Pelo menos ele não teria de ficar ali para ver.


Dívida Eterna

Capitulo 11. MARATONA


Pequenas Verdades.

Reino de Murdor
Paola havia saído da cidade com dois guardas bem cedo. Ela dissera que tinha trabalho fora da cidade, mas Demetria sabia que não era verdade, porém nada disse, só lhe desejou boa viagem e se trancou em seu quarto pelo resto do dia. Aquela noite haveria uma festa para os soldados, prostitutas e os moradores que estivessem a fim de participar, para esquecer um pouco da vida. Todas as meninas do La Luna saíram para se divertir, Demetria ficou sozinha, sentada em uma mesa, esvaziando uma garrafa de vinho enquanto os pensamentos viajavam. 
As palavras de Klaus sobre seu pai não lhe saiam da cabeça, a deixando confusa e com dúvidas. Assim como a morte de Charlie, que se repetia sem parar, uma vez após a outra, a enlouquecendo bem lentamente. Perdera as contas de quantos dias estava presa naquele lugar, estava cansada de ter que fingir, de ter que suportar tudo aquilo, sentia que não aguentaria muito mais tempo, embora mostrasse aos outros exatamente o contrário.

__O que está fazendo aqui?__ ao ouvir aquela voz, ao contrário das outras vezes, Demetria não se assustou. Estava começando a se acostumar com o jeito sorrateiro e a voz profunda do cavaleiro das sombras. 
__Eu moro aqui, esqueceu?__ ela forçou um sorriso__ você mesmo me trouxe pra cá.
__Quis dizer, porque não está na festa com as outras meninas. Vitória não tentou te arrastar com ela? Ela parece gostar de você.
__Eu sou uma prisioneira nesse maldito lugar, não uma visitante, não tem lugar para mim lá__ ela respondeu. 
Joseph se aproximou, encheu um copo de vinho e deu um gole, a olhando de lado.
__Resolvi ficar aqui__ ela continuou__ e me embebedar até esquecer os problemas.
__Está funcionando?
Demetria olhou para o copo de vinho agora vazio e fez uma careta.
__Não tem vinho o bastante aqui__ resmungou. 
__O que aconteceu? Você parecia bem ontem, conseguiu enganar Klaus e até mesmo estava me xingando.
__Me fez sentir melhor no momento__ deu de ombros__ mas o Charlie continua morto, eu continuo sendo prisioneira e... __ ela o olhou por um momento antes de falar__ teve alguma noticia do meu pai?
__Ainda não descobrimos onde é seu esconderijo, você era nossa esperança, mas não sabe onde fica__ ele deu de ombros__ seu pai simplesmente desapareceu. 
__Talvez tenha fugido pra longe__ ela murmurou mal humorada, enchendo o copo com mais vinho__ estou presa nesse lugar já faz semanas e ele ainda não deu sinal de vida. Proibiu todos os homens dele de tentarem qualquer coisa para me ajudar, Charlie veio escondido a mando do Alex.
__Seu pai é um homem inteligente. 
Ela o encarou confusa.
__Ele está se preparando antes de vir salvá-la__ disse com naturalidade, como quem não se importa nem um pouco com aquilo que está dizendo__ se ele chegar aqui sem estar pronto, vai morrer e te deixar nas mãos de Klaus. Ele sabe que você está viva, que Klaus está te usando para atingi-lo, é melhor deixá-la sofrer um pouco agora, do que deixá-la sofrendo para sempre.
__Ou talvez ele simplesmente não se importe__ ela resmungou baixinho__ Klaus disse... Disse que meu pai assassinou a mulher e o filho dele.
__É verdade__ Joseph concordou e Demi sentiu seu coração se apertar, como se fosse esmagado__ foi há muitos anos atrás, não se engane princesa. Klaus já era um tirano e seu pai tentou acabar com o Reino de terror dele, o exercito de Robert era bem mais forte, ele matou muita gente, mas Klaus fugiu e recomeçou do zero, só que dessa vez com mais ódio no coração. Não sei se foi seu pai especificamente que matou a família dele, mas os dois morreram no meio da guerra. 
__Eu sinto que não o conheço... Como ele poderia matar pessoas inocentes assim? Está tudo errado... Talvez eu estivesse enganada a respeito dele, talvez ele nem se importe comigo. 
__Já entendi, esse é um daqueles momentos em que você fica bêbada e sente pena de si mesma?__ Joseph debochou__ escute princesa, o seu pai te ama, disso não tenha duvidas. Quando o prendemos em Severac, antes que um idiota o deixasse escapar, ele só falava de você, que nos mataria se te fizéssemos algum mal e blá, blá, blá. 
__Jura?__ Demetria não estava convencida.
__Ele vai vir__ Joseph garantiu__ só é preciso paciência.
__Porque o esta defendendo?
__Não estou defendendo ninguém, eu pouco me importo com seu pai, só estou atestando um fato__ deu outro gole no vinho__ ele vai vir por você e quando chegar nós o mataremos e ao seu exercito, fim da história.
__De qualquer forma, ele mentiu pra mim e... __ ela se interrompeu ao ver a expressão vazia no rosto de Joseph__ e você não se importa, me desculpe. Esqueci que você é meu raptor e não meu amigo. 
__Parece que o vinho está fazendo efeito. 
Ele largou o copo agora vazio em cima da mesa. 
__O que ele fez pra você? O Klaus?__ Demetria perguntou, o vinho realmente começava a fazer efeito e ela não pensava direito no que estava dizendo, não pensou que poderia irritá-lo com a pergunta__ quer dizer... Você deixou claro que não gosta nenhum pouco dele, muito pelo contrário, mas continua trabalhando pra ele mesmo assim, eu sei que tem um motivo embora ainda não saiba qual. O que ele te fez?

__Não me leve a mal, mas não vou falar disso com você__ ele respondeu calmamente, mas Demetria podia ver o verdadeiro sentimento por detrás daqueles olhos azuis__ nada pessoal, só não estou com vontade de sentir pena de mim mesmo. O cavaleiro das sombras não sente pena de ninguém lembra?__ debochou. 
__Sinto muito__ ela sussurrou.
__Não sinta, não quero e nem preciso da sua pena e tem razão, não sou seu amigo. 
Ele se virou para ir embora, mas Demetria voltou a falar.
__Então porque não me entregou ao Klaus ontem? Quando me viu com o sonífero?__ ela questionou.
__Não posso deixar que o machuque ou mate, mas não me importo se o fizer de idiota__ respondeu__ é até engraçado. 
Ela assentiu, baixando os olhos para o copo, o girando entre os dedos, e o silencio reinou.
__Vou trabalhar__ ele disse__ tente não beber demais e fazer alguma loucura, não estou com paciência para ficar te perseguindo hoje e não acho que Klaus levaria mais uma das suas tentativas de fuga numa boa. Você pode ser útil viva, mas não é indispensável, nunca se esqueça disso princesa. 
E então ele saiu do Bordel e Demetria voltou a ficar sozinha.

Gestos

Demetria estava sentada na janela do quarto, olhando para fora, observando o cavaleiro das sombras brincando com um menino que não devia ter mais que dez anos. Estava lhe ensinando a maneira certa de usar a espada, e os dois riam em meio a golpes desajeitados e tropeções; Paola dissera que o menino se chamava Peter e que ele idolatrava Joseph, era como se fosse seu herói.
Aquela cena parecia estranha, Joseph brincando com uma criança e sorrindo, coisa que não costumava fazer com freqüência, ele até parecia um homem qualquer brincando com o seu filho, os outros guardas também pareciam estranhar a cena, mas ninguém se atrevia a dizer absolutamente nada. Joseph estava mais tranquilo aquela manhã, descontraído, depois que conversara com Paola, assim que ela voltara de sua viagem, ele simplesmente parecia outra pessoa. Ela devia ter trazido boas noticias para ele, noticias da tal Macayla e da Marisa, Demetria gostaria de saber quem eram, onde estavam o que tinham haver com Joseph. 
__Impressionante não?__ Paola disse sorrindo.
__Ele está feliz__ Demetria comentou.

__É algo raro e agradável de se ver__ Paola disse__ temos de aproveitar enquanto dura. 
__É porque você trouxe boas noticias sobre Macayla e Marisa?__ Demetria perguntou sem olhá-la.
__Onde você ouviu esses nomes?
__Ouvi você conversando com ele, na noite antes de viajar__ deu de ombros__ são parentes dele? Alguma namorada ou...
__Já disse que não posso contar__ Paola disse simplesmente.
__Que seja__ Demetria suspirou__ ele nem parece àquele cara malvado que cortaria minha garganta sem pensar duas vezes.
__Ele tem seus momentos. Gosto de vê-lo mais tranquilo, é uma pena que não vai durar. 
__Nenhuma alegria dura para sempre__ Demetria sussurrou e se levantou, saindo de perto da janela.
Lá fora, na pequena arena de treinamento, Joseph treinava com o pequeno Peter, usando espadas de madeira para não correr o risco de machucá-lo. O garoto tinha começado a persegui-lo um ano antes, o enchendo de perguntas, dizendo que queria aprender a ser um espadachim tão bom quanto ele, tão bom quanto o cavaleiro das sombras. Joseph tentou se livrar dele, mas acabou por se apegar ao garoto e respeitava a sua insistência, era um garoto decidido, sabia o que queria e não tinha medo dele. Então Joseph resolveu ensiná-lo o que queria saber, e até se divertia durante as aulas.

__Esquerda__ ele disse e tentou acertá-lo pela esquerda, o menino defendeu o golpe agilmente, um sorriso de satisfação no rosto__ direita. Esquerda. Esquerda. Direita__ e prosseguiu com os golpes até que o menino errou o movimento e ele lhe acertou o braço com a espada de madeira.
__Ai__ ele gemeu passando a mão pela área dolorida.
__E você está morto__ Joseph sorriu abaixando a espada.
__Você mentiu, disse que ia para direita e foi para esquerda__ Peter acusou.
__Um inimigo não lhe avisará antes de dar o golpe, ele o pegará desprevenido, você terá que adivinhar o que ele planeja, o que pensa, pois ele sempre tentará te enganar__ Joseph explicou__ um descuido, e você é um garoto morto.
__Tudo bem, vamos fazer de novo__ Peter ergueu a espada, cheio de energia__ não vai me enganar dessa vez. 
__Comandante__ alguém chamou sua atenção. 
__O que foi? Estou ocupado agora.

Peter tentou se aproveitar da distração do comandante para lhe acertar um golpe. Mas mesmo sem olhar diretamente para o garoto, previu a tentativa e aparou o golpe com sua espada, depois torceu o braço do menino e o imobilizou, sem machucá-lo, é claro.
__Fique quieto Peter__ ele murmurou fitando o soldado que o chamara__ e você é muito previsível.
__O Rei Klaus deseja vê-lo na sala do Trono agora. 
__Tudo bem, eu já estou indo__ ele soltou o menino e se virou para encará-lo__ chega de treinamento por hoje, tenho que trabalhar, mas você pode praticar um pouco mais os movimentos. Te darei um prêmio especial se conseguir me acertar na próxima na aula.
__Que prêmio?__ os olhos do menino brilharam.
__É uma surpresa__ Joseph riu de sua empolgação__ agora vá pra casa. 
Joseph trocou a espada de madeira por sua verdadeira espada e seguiu com alguns guardas para o Palácio. O Rei os aguardava sentada em seu Trono e parecia mais contente que o habitual, isso era um bom sinal.

__Mandou me chamar Alteza?__ Joseph fez um reverência.
__Sim Joseph, tenho ótimas noticias__ ele sorriu se levantando__ interceptamos um dos homens do Rei Robert, ele estava voltando para o esconderijo, mas infelizmente nos percebeu o seguindo. Nós o capturamos para tirar informações, mas o mais importante é que já temos uma melhor noção de onde procurar por esse esconderijo.
__São mesmo ótimas noticias Alteza.
__Quero que você interrogue o homem e veja se consegue lhe arrancar qualquer informação útil.
__Onde ele está?
__Não o trouxemos para a cidade__ Klaus explicou__ achei que seria melhor assim. Vamos partir de Murdor alguns dias e eu vou junto, deixarei um de meus conselheiros cuidando de tudo em meu lugar, quero ajudar nas buscas. Quero que escolha um de seus homens e o deixe vigiando a princesa em seu lugar, não quero que ela apronte novamente, não agora que estamos tão perto.

__Como quiser Alteza, cuidarei disso agora mesmo.
__Junte um grupo de cinquenta homens e me encontre nos portões dentro de uma hora.
__Entendido, com sua licença alteza. 
E se retirou com seus homens para cumprir as ordens. A primeira coisa que fez foi passar no Bordel.
__Quanto tempo ficará fora?__ Paola perguntou.
__Não sei dizer, nem ao menos sei exatamente para onde estamos indo__ ele explicou__ mas deixarei um homem em meu lugar para vigiar a princesa. Mesmo assim vou contar com a sua ajuda para que ela não faça nenhuma besteira, os homens daqui são estúpidos demais, não confio em nenhum deles.
__Eu vou vigiá-la, prometo que aquele episodio não se repetirá.
__E... Seria melhor se não dissesse a ela o que estamos indo fazer.
__Não direi nada, só vai deixá-la preocupada e ela não merece isso. 
__Eu tenho que ir... Tome cuidado Paola.
__Tome cuidado você. 
E ela observou da porta enquanto ela sumia no meio da multidão. 

Fim do Capítulo


Capitulo 10. MARATONA

Amores a maratona começa hoje e termina amanha , irei postar no total 8 capítulos 4 hojes e ou outros 4 amanhã ... ou talvez termine de postar hoje mesmo durante a madrugada porque amanha irei na casa do meu irmao e nao terei tempo de postar , se for postar amanha a maratona so sera de noite

Cruel ou Covarde?.

Reino de Murdor

Demetria estava se preparando para ir outra vez aos aposentos do Rei Klaus. Depois de matar Charlie e abusar dela aquela noite, mesmo que ela estivesse cheia de dores e mal se agüentasse em pé, ele lhe deixara em paz por alguns poucos dias, mas agora que ela já se recuperara__ pelo menos fisicamente__ de tudo que aconteceu, ele tratara de exigir novamente sua presença. 
__Não entendo porque ele não me mantêm presa em uma cela, como a prisioneira que sou, e ao invés disso me deixa vagando por ai. 
__Ele quer que tenha a sensação de liberdade princesa__ Paola explicou enquanto lhe arrumava os cabelos__ quer que de alguma forma sinta-se a vontade neste lugar, ele quer mexer com a sua cabeça, o Rei Klaus é bom nisso. 
__Eu não quero ir__ a princesa gemeu inconformada__ sei que você disse que ia melhorar com o tempo Paola, mas não importa o que eu faça, não melhora, eu não suporto que ele me toque. 
__É porque você não é como eu ou minhas meninas__ ela sorriu gentilmente__ você nasceu para ser uma princesa e nada mais, só sentirá prazer e alegria quando estiver com o homem que ama. O que é pior para você, eu sinto dizer.
__Estou cansada, já chorei tanto que penso que minhas lágrimas secaram.
__Olhe, eu não devia fazer isso, mas tenho uma coisa que pode ajudá-la__ Paola se levantou e caminhou até um baú no canto do quarto, de onde tirou alguma coisa e voltou a se sentar junto de Demetria, mostrando-lhe um pequeno vidrinho vermelho com um líquido dentro__ isso aqui é um sonífero forte. Uma gota e ficará tranquila, três gotas lhe dão um sono profundo, e mais do que isso é capaz de matar. 
__O que...
__Coloque três gotinhas no cálice de vinho do Rei antes que comecem__ Paola explicou__ em questão de poucos minutos ele estará em um sono profundo, basta distraí-lo com alguns truques que Vitória lhe ensinou e não precisará dormir com ele, ele logo estará em sono profundo e não se lembrará de coisa alguma quando acordar, pensará que tiveram uma ótima noite. 
__Obrigada Paola__ Demetria pegou o vidrinho com um largo sorriso.

__Escute princesa, tome muito cuidado para que ninguém a veja com isso ou estará em apuros e eu também__ ela avisou__ e são apenas três gotas. Sei que se sentirá tentada a pôr mais e acabar com essa agonia, mas acredite, matar Klaus não vai ajudar ninguém, pelo menos não ainda. Entendeu? 
__Entendi__ concordou.
__Se sentir-se tentada, lembre do que houve da ultima vez que não ouviu meus conselhos.
__Eu entendi Paola, prometo que não farei nada estúpido__ sorriu e lhe abraçou. 
__Agora vá, que Joseph a espera lá em baixo para levá-la ao Rei. 
Demetria escondeu o vidrinho na roupa e foi de encontro ao comandante que a esperava na porta do Bordel. Ele a guiou em silencio pelos corredores vazios do Palácio, e depois de todo o desespero ter passado, Demetria começou a sentir raiva da frieza daquele homem. A morte de Charlie tinha de certa forma sido culpa dele.
__Onde você estava quando Klaus mandou que matassem Charlie?__ ela questionou zangada, sem deixar de andar, o fitando com clara irritação__ você o entregou, achei que estaria lá para fazer o trabalho sujo e matá-lo você mesmo.

__Temos um carrasco para esse tipo de situação__ ele respondeu simplesmente, sem olhá-la.
__Você é um covarde__ Demetria acusou e parou de andar, o comandante fez o mesmo, olhando-a pela primeira vez desde que a pegara no Bordel.
__O que disse?
__Que é um covarde, começo a achar que as histórias eram apenas histórias__ ela disse__ é verdade que você é um ótimo soldado, mas o cavaleiro das sombras das histórias não tinha medo de absolutamente nada. 
__Não sou nenhum covarde e não tenho medo de nada.
__Mentira__ ela rebateu__ tem medo de Klaus. Eu achava que não, mas agora sei que tem, se não porque outro motivo serviria tão fielmente a um homem como ele? Ah não ser que você seja realmente um ser desprezível e cruel, o que é tão ruim quanto ser covarde. Então cavaleiro das sombras, qual dos dois você é?
Discutir com aquela mulher era estupidez, mas Joseph odiava que o desafiassem daquela maneira, ainda mais que o acusassem de coisas que eram mentira. Ele não era covarde... Ele odiava covardes. 
__Tenho minhas razões para servir ao Rei, razões que não lhe interessam, mas te garanto que não sou nenhum covarde__ ele disse__ eu devia lhe dar uma lição por insinuar tal coisa.
__Não vai encostar em mim__ Demetria sorriu debochada, estava cheia de ódio e rancor dentro de si, tudo começara com aquele homem, fora ele que invadira a sua cidade a mando do Rei, fora ele que a sequestrara e ele que entregara Charlie__ O Rei Klaus proibiu todos os homens do Reino, inclusive você de encostar um dedo sequer em mim. E você obedece como um cachorrinho porque tem medo dele, não é tão forte e invencível como as histórias...
Antes que ela pudesse terminar sua frase, Joseph se aproximou rápida e silenciosamente, a segurou com força pelas pernas a levantando do chão e empurrando-a de encontro à parede do corredor, de forma que as pernas dela estavam em volta de sua cintura e ele imprensava o corpo dela com o seu.
__Observe o meu respeito pelas malditas regras daquele maldito Rei.
E num momento de fúria, sem pensar muito no que fazia ele juntou seus lábios nos dela, num beijo feroz e cheio de luxúria. No começo Demetria esteve tão assustada que não soube o que fazer, até tentou empurrá-lo, mas acabou se deixando levar por aquela nova sensação. Nunca tinha sido beijada daquela forma, o Rei nunca a beijava e seus beijos com Alex eram rápidos e inocentes, mas aquilo nada tinha de inocente, muito pelo contrário. A forma como a língua dele invadia sua boca e a explorava era íntima, erótica e intensa, de uma forma que fez todo seu corpo arder mesmo contra sua vontade. 
E então parou, deixando-a atordoada e sem fôlego e se afastou rispidamente, fazendo-a cair em pé, com as pernas fracas.
__Agora corra e conte para o seu Rei que eu a toquei, exatamente como ele proibiu que fizesse__ Joseph desafiou, também respirava com dificuldade, mas não parecia nem um pouco afetado como ela__ veja se ele tem coragem de vir me matar ou mandar alguém fazer, ele pode encostar em mim, mas não sem perder alguma parte preciosa do corpo. 
Mas ele se arrependeu de fazer aquilo, pois o Rei não podia machucá-lo, mas podia descontar sua raiva em outras pessoas.
__Se não é um covarde, então talvez seja cruel e mesquinho__ ela acusou agora mais irritada que antes__ Paola tentou me convencer de que você não era uma pessoa ruim, mas não vejo como ela pode estar certa. A não ser que... __ ela parou um instante__ quem são elas? Disse que se algo acontecesse com elas por minha causa...
__Isso não é da sua conta__ ele agarrou-lhe pelo braço, puxando-a para perto e olhando bem nos olhos, o que causou arrepios estranhos na princesa, e não apenas de medo__ minha vida não é da sua conta e não lhe devo nenhuma satisfação, nem sei por que perco meu tempo discutindo com você. Pense o que quiser de mim princesa, sua opinião de nada me importa. 
E ainda segurando-a pelo braço voltou a caminhar em direção aos aposentos do Rei. Demetria sentiu os olhos arderem e sem que percebesse lágrimas lhe escorreram pelos olhos, pelo visto estava errada... Elas ainda não tinham secado.
__Porque está chorando?__ ele resmungou__ eu não lhe bati, apenas lhe beijei. Klaus já lhe fez coisa muito pior.
__Estou chorando de raiva, seu mentiroso hipócrita__ cuspiu as palavras irritada__ e a propósito nunca mais faça isso outra vez está entendendo? Nunca mais se atreva a me beijar.
__Não se preocupe com isso princesinha, prometo que não vai se repetir nunca mais. 
E os dois seguiram o resto do caminho em silencio e bufando de raiva.

Uma Noite de Paz

Quando Demetria entrou no quarto do Rei Klaus, ele já a esperava na cama, completamente nu. Aquela visão teria agradado qualquer mulher, pois o Rei, apesar de cruel e desprezível era um homem muito bonito, até a cicatriz no rosto tinha seu charme, mas a visão não agradava Demetria, só lhe causava repulsa, coisa que ela não demonstrava, obviamente.
__Venha até aqui princesa__ ele chamou__ preciso da sua ajuda para relaxar. 
__Claro Alteza__ ela sorriu e desfez o nó do vestido, deixando que ele caísse aos seus pés. Não tinha mais vergonha de ficar nua na frente dele, a vergonha tinha desaparecido com o orgulho e ultimamente ela vinha ficando muito boa em fingir__ mas antes, que tal uma taça de vinho? 
__Você sabe como fingir querida, eu gosto disso em você__ ele sorriu__ mas tudo bem, vinho é uma boa ideia. 
Demetria caminhou até uma mesa no canto, onde o Rei deixava algumas bebidas e se virou de costas para ele para poder encher o copo. Ouviu uma batida na porta e quando o Rei ordenou que alguém entrasse, mas não se virou para olhar, ficando nervosa.
__O que você quer Joseph?__ ela gelou por dentro.
__Desculpe interromper Alteza, mas o senhor pediu que enviasse uma carta com ordens para os homens em Severac, disse que precisava ser enviada hoje, e que me entregaria agora a noite__ ele explicou.
__Oh sim, tinha me esquecido, eu volto num instante. 
Ouviu quando o Rei se afastou para pegar a tal carta e percebeu que Joseph não tinha entrado no quarto, mas estava parado na porta, então continuou a encher as duas taças de vinho e discretamente, aproveitando a distração do Rei, pegou o vidrinho com sonífero para pingar as gotas no vinho. 
__O que é isso?__ sentiu uma mão agarrar seu pulso e a voz do comandante em seu ouvido. Seu coração parou de bater__ está tentando envenenar o Rei princesa? 
__Não, isso não é veneno, é... Eu não... __ ela gaguejou nervosa__ é só um sonífero. 
Fechou os olhos com força, praguejando mentalmente a si mesma por não ser mais cuidadosa. O comandante já não estava feliz com ela pelas palavras de mais cedo, agora ele a entregaria e o Rei a machucaria de novo, ela estava perdida.
Esperou que o comandante dissesse alguma coisa, que gritasse com ela, que lhe batesse, que tirasse o vidro da sua mão, que falasse qualquer coisa. Mas ele apenas ficou ali parado atrás dela, segurando-a pelo pulso, a respiração quente batendo em seu pescoço, ele estava perto demais, ela percebeu, de repente consciente de que estava totalmente nua e que ele a olhava com aqueles brilhantes olhos azuis, que ela nunca conseguia dizer o que ele sentia. 
__Paola que lhe deu isso?__ ele perguntou.
__Sim__ ela concordou.
Então ele soltou a mão dela e se afastou quando ouviu o Rei voltar.
__Algum problema?__ Klaus questionou.
__Não senhor, problema algum__ Joseph negou e pegou a carta da mão do Rei__ desculpe a interrupção, tenho uma boa noite Alteza__ e se virou para Demetria__ princesa.
E saiu do quarto sem dizer nada. Demetria ficou chocada... Porque ele não a entregara?
_Onde está o vinho que me ofereceu?__ Klaus perguntou sentando-se na cama.
Demetria pingou as três gotas de sonífero no vinho, escondeu o vidrinho e caminhou até a cama, sentando-se ao lado dele.
__Aqui está Alteza__ entregou-lhe a taça sorrindo.
__Não está com raiva por eu ter matado o seu amigo?__ ele questionou sorrindo debochadamente, mas bebeu todo o vinho de uma única vez e Demetria continuou tranquila.
__Minha raiva não trará Charlie de volta__ ela disse simplesmente__ mais vinho Alteza?
__Sim.
Ela se levantou para encher outra taça e considerou a possibilidade de botar mais algumas gotas, mas lembrou-se do aviso de Paola, e acabou mudando de ideia, talvez matar o Rei desta forma fosse realmente precipitado e imprudente embora fosse tentador. 
__Eu queria que tivesse sido o seu pai__ ele murmurou enquanto pegava a taça da mão dela e mandava para dentro__ queria eu mesmo ter arrancado à cabeça dele, é oque ele merece sabe? Você pensa que seu pai é um santo princesa, mas está errada, eu tenho um bom motivo para querer matá-lo__ e estendeu a taça para ela__ me traga mais vinho.
Demetria ficou em silencio enquanto ele falava, grata por ele ter se distraído sem que ele precisasse agradá-lo de alguma forma. 
__Ele invadiu minha cidade uma vez, anos atrás... Tentou me matar, tirar o meu Trono__ murmurou, o vinho e o sonífero começavam a fazer efeito e ele não estava exatamente lúcido__ eu tinha uma esposa e um filho e ele os matou. Invadiu minha cidade e matou as pessoas que eu amava e vem querer falar de honra pra mim, ele é um filho da puta mentiroso. 
Demetria não estava acreditando naquilo que ouvia, seu pai nunca mataria uma mulher e uma criança indefesas. Ele continuou a falar, pedindo uma taça de vinho atrás da outra e não demorou a adormecer. Demetria ainda esperou uns minutos antes vestir as roupas e sair do quarto para voltar ao Bordel. O cavaleiro das sombras não estava na porta como deveria.
Eu Não Vou Esquecer
Demetria estava entrando no Bordel quando ouviu vozes no salão, parou um momento e espiou sem se mostrar e viu Paola conversando com Joseph. O cavaleiro das sombras parecia ansioso com alguma coisa.
__Preste atenção em tudo Paola, qualquer pista que puder me dizer sobre o lugar é importante. Um som que você ouviu, ou algum cheiro, qualquer coisa especifica__ ele disse.
__Tudo bem Joseph, eu sei, não é a primeira vez que faço isso__ ela revirou os olhos__ vou fazer o meu melhor, prometo. 
__Desculpe se pareço mandão, é que... Não aguento mais essa agonia de não saber... Faz dezoito anos e não estou mais perto de conseguir nada do que estava anos atrás, sinto que todo meu esforço não está servindo de nada.
__Dessa vez será diferente, você verá__ ela sorriu__ só tenha um pouco mais de paciência. 
__Ok__ ele suspirou__ diga... Diga a Macayla que sinto muito por não ter estado lá em seu aniversário, como das outras vezes. E diga a ela que não me esqueci e não vou esquecer da promessa que fiz. Diga que ela só precisa ser mais paciente__ e ele puxou um objeto do bolso, um cordão, Demetria percebeu__ entregue meu presente a ela.

__Tudo bem__ Paola concordou com um sorriso__ quer que diga algo a Marisa? 
__Diga que sinto saudade__ ele disse tristemente__ e entregue esta carta a ela. 
__Vou fazer isso__ ela prometeu e se aproximou para abraçar Joseph__ paciência meu garoto, paciência.
Aquela foi a primeira vez que Demetria viu o cavaleiro das sombras parecer não um soldado perigoso, mas sim um rapaz vulnerável como outro qualquer. Mas durou pouco tempo, ele logo se afastou de Paola e recuperou a postura orgulhosa e imponente de sempre.
__Quando vão partir?__ ele perguntou.
__Amanhã cedo__ Paola respondeu.
__Ok__ ele assentiu__ te vejo amanhã antes de partirem.
Então Demetria entrou no salão, antes que ele a visse escondida e se irritasse.
__O que faz aqui á essa hora?__ Joseph perguntou confuso.
__Eu e o Rei já... Terminamos__ ela disse desconfortável.
__Não devia ter saído sem minha escolta.
__Você não estava lá__ foi tudo que ela respondeu, sem querer desafiá-lo. 
__Que seja__ e se virou para fitar Paola__ mais cuidado com os conselhos e presentes que da a princesa Paola, eu estou de olho.
E saiu para voltar ao trabalho.
__Ele viu você com o sonífero?
__Ele não deixa passar nada__ Demetria disse.
__E não entregou você ao Rei?
__Não.
Paola nada disse, apenas sorriu com aquela afirmação e Demetria teve a impressão de que ela não esperava por aquela atitude de Joseph, assim como ela, mas que tinha ficado muito orgulhosa e satisfeita com o gesto.
__Do que estavam falando?__ Demetria e atreveu a perguntar.
__Nada importante__ Paola deu de ombros.
__Já entendi, não é de minha conta__ Demetria
 suspirou e começou a subir as escadas__ Boa noite Paola.
__Boa noite querida. 
E realmente Demetria tivera uma ótima noite. 

Fim do Capítulo

Capitulo 9. MARATONA


Nada melhor do que começar uma linda manhã de sabado com uma maratona né?

O Medo que Cega.

Reino de Murdor

__Eu avisei Demi__ Paola disse andando de um lado para o outro enquanto a princesa tremia encolhida em sua cama__ falei para ficar na sua e não fazer nenhuma besteira, mas você não me ouviu. O que acha que o Rei vai fazer quando souber disso? 
__Eu achei que ele me mataria__ Demetria sussurrou assustada__ ele estava com tanto ódio, dava para ver nos olhos dele.
__Ele nunca ficou assim antes__ Paola comentou__ eu o conheço desde pequeno e nunca o vi tão irritado.
Aquilo não fez Demetria sentir-se mais tranquila, só aumentou ainda mais o seu medo.
__Ele estava com raiva de mim Paola, como se eu tivesse feito algo para ele... Eu não entendo, ele disse umas coisas que...
__É o medo querida__ Paola lhe sorriu gentilmente__ ele cega as pessoas e faz com que ajam sem pensar.
__Medo?__ Demetria a encarou confusa__ do que um homem como ele teria medo?
__Até o mais corajoso dos homens tem algum medo__ Paola murmurou parando e lhe fitando com paciência__ Joseph não tem medo de se machucar, não tem medo de lutar, ele não tem medo da morte. Ele é um soldado, a vida dele é a guerra, ele foi criado assim Demi, não vai ver ele assustado com nenhum desafio.
__Então do que ele tem medo?
__De perder.
__Perder o que?__ ela não conseguia entender.
__A única coisa com o que se importa__ ela deu de ombros. 
Demetria esperou que ela dissesse mais alguma coisa, mas sabia que não ia acontecer. Paola era como Vic, nunca contaria os segredos de Joseph, mas não por medo e sim por respeito. Só cabia a ele decidir com quem partilhar sua história, mas isso a deixava curiosa, o que havia por detrás daquele exterior duro e sombrio? O que teria causado aquele descontrole? O que não queria perder?
__Eu não entendo__ ela disse frustrada.
__Você não conhece Joseph como eu, eu vi aquele menino nascer__ Paola explicou__ ele tem os motivos dele para ser quem é hoje, e você o julga mal Demetria. É certo que as atitudes dele nem sempre são as melhores, mas ele faz o que acha certo para defender aquilo que ele ama.
__É por causa de alguma mulher?__ Demetria sugeriu__ ele disse que se alguma coisa acontece a elas por minha causa...
__Desculpe, mas eu não posso lhe contar, eu sei o motivo da raiva dele, mas é a história dele e quem deve lhe contar não sou eu, não é da minha conta__ suspirou__ só tem que saber que Joseph não é como Klaus.
__Desculpe, mas ainda não tive provas do contrário... Eu não entendo__ ela disse frustrada__ e na verdade nem acho que queira entender, de uma forma ou de outra ele vai me machucar, eu sei que vai. Ou ele ou o Rei, ou ele a mando do Rei__ e limpou as lágrimas que desceram__ eu tinha que tentar Paola, a chance de liberdade surgiu e eu tinha que tentar. 
__Eu sei__ Paola se aproximou e a abraçou__ eu sei querida, mas agora terá de lhe dar com as consequências. 
E antes que a princesa pudesse pensar em algo para dizer a porta do quarto se abriu e alguns soldados do Rei entraram. Por um momento Demetria esperou vê-lo surgir da porta e lhe atacar, mas ele não estava lá. 
__O Rei está a sua espera princesa. 
Naquele momento a princesa desejou morrer para não ter de ver o que lhe aguardava.

Consequências

Demetria foi levada à sala do Trono, e aquilo não era o que estava esperando e também era um péssimo sinal. Esperava ser levada ao quarto de Klaus, onde ele a estupraria e a bateria como era de se esperar, mas ao invés disso foi levada ao salão, que estava cheio de pessoas, soldados e súditos e também os aliados dele, que Demetria ajudara a servir mais cedo. Seus olhos procuraram pelo cavaleiro das sombras, achava que se ela fosse punida, ele o faria... Mas ele não estava em lugar nenhum, o que era estranho. 
Mas ela viu outra coisa que a desesperou, no canto do salão, dois soldados seguravam Charlie pelos braços, o prendendo, impedindo que fugisse. O coração de Demetria parou de bater quando ele a encarou com tristeza nos olhos gentis. 
__Bem, bem... Agora que nossa princesa chegou podemos começar a reunião__ Klaus disse sentado em seu Trono, com a coroa reluzindo. Ela podia ver a sede de sangue nos olhos dele, ela ia sofrer. 
__Klaus...
__Rei Klaus__ ele a corrigiu__ e cale a boca. 
Os soldados a seguraram com mais força, e o Rei fez um gesto para que trouxessem Charlie ao centro sala. O obrigaram a ajoelhar no chão na frente dele e Klaus se pôs de pé, um sorriso malicioso nascendo em seu rosto. 
__Diga o seu nome para todos os presentes ouvirem__ ele ordenou.

__Charlie Bender__ ele respondeu sem exitar, não parecia com medo... O velho Charlie não tinha medo do perigo. 
__Charlie Bender, você é acusado de invadir a minha cidade, assassinar cinco dos meus soldados e tentar libertar uma prisioneira.
__Uma prisioneira que você fez invadindo outra cidade__ Charlie o lembrou.
__Verdade__ ele sorriu descaradamente__ é a guerra, você entende. Você admite os seus crimes Charlie Bender?
__Eu fiz tudo isso e com orgulho__ ele concordou__ porque tenho honra, coisa que você não sabe nem o que significa. 
Demetria queria gritar para que ele parasse de dizer aquelas coisas pois só estava irritando o Rei, talvez se ele se comportasse Klaus apenas o mantivesse como prisioneiro. Mas ela sabia que isso não era verdade, de repente sentiu-se novamente uma criança de cinco anos, completamente assustada e indefesa, vendo seu herói ser condenado bem a sua frente sem poder fazer nada. 
__Charlie Bender, eu o Rei Klaus do Reino de Murdor, o declaro culpado pelos crimes de invasão, assassinato e conspiração contra mim e contra o meu povo e o sentencio a morte. 
__NÃO__ Demetria gritou e tentou soltar-se, as lágrimas desceram com mais força e um dos homens que a seguravam tampou sua boca para que não pudesse falar.
O carrasco do Reino, um homem que apelidaram de Montanha, pois ele era simplesmente enorme, apareceu com sua espada e um sorriso no rosto. Enquanto observava a cena atônita, Demetria se lembrou de quando era pequena, quando Charlie era seu guarda e a seguia por todos os lados para se certificar de que ficaria bem. A perseguia por todo o Castelo e pelas ruas de Severac, e também lhe ensinara como usar um arco e tentara lhe mostrar como usar a espada, mas a princesa nunca fora boa nisso. Ele era como seu pai, e agora ela o veria morrer por ela... Só o primeiro dos muitos que viriam depois, ela sabia e então não conseguia mais respirar de tanto desespero.
__Eu falhei com você princesa__ Charlie sussurrou a fitando__ eu sinto muito. 
Ela queria responder que ele não tinha falhado, que era um dos homens mais corajosos que ela já vira, mas não podia falar. 
__Que bonitinho__ Klaus provocou__ mate-o logo Montanha. 
Demetria observou, sem conseguir desviar os olhos enquanto com um único golpe, Montanha cortava a cabeça de Charlie e ela rolava pelo chão, o corpo caindo logo em seguida, sem vida. A princesa perdeu o equilíbrio, sem força alguma nas pernas, e achou que fosse desmaiar de tamanha a agonia e tristeza que sentia naquele momento.

__Agora é a vez da nossa princesa, o que devemos fazer com ela?
E os homens a arrastaram até a frente do Trono, a largando ali de joelhos. A princesa gritou e chorou, incapaz de se conter, o medo era forte demais, real demais. Sua vida estava acabada, mesmo que não morresse, estava acabada. Nunca mais seria feliz outra vez, era esse o seu destino... Sofrer. 
__O que acham que devo fazer com ela?__ Klaus perguntou sorrindo, mas não queria realmente uma resposta__ só não lhe corto a garganta por tamanha insolência porque preciso de você viva, mas talvez eu possa arrancar fora um pedacinho. Quem sabe a língua? Montanha por favor...
Quando Demi entendeu o que estava havendo era tarde demais pra tentar se afastar. A montanha se aproximou rapidamente, um dos guardas segurou o rosto de Demi e a obrigou a abrir a boca, outro segurou sua língua com um objeto de ferro enquanto o carrasco empunhava sua faca. Demetria não achou que ainda podia sentir mais pavor do que o que já tinha experimentado até aquele dia, mas claramente estava errada.
Ela chorou, gritou e esperneou, mas não conseguiu se afastar, sentiu o metal frio da faca tocar sua língua quando alguém gritou do fundo do salão.
__ESPERE__ seu coração batia tão forte naquele momento que ela achou que fosse rasgar o peito, era doloroso demais. 
__O que foi agora?__ Klaus questionou impaciente.
A mulher que gritara se aproximou e Demi pode ver que era Paola.
__Desculpe interromper meu senhor, mas acho que a princesa pode precisar da língua. 
Ele parou para pensar naquilo um instante.
__Você está certa... Não vale a pena__ ele murmurou__ dêem apenas alguns socos para que ela aprenda a lição, mas não no rosto, não quero estragar algo tão bonito. 
Os homens a soltaram, ela se encolheu no chão chorando desesperadamente e fechou os olhos enquanto eles batiam nela.

Promessas

Joseph estava na porta do Palácio, sozinho, escorado na parede, respirando fundo inúmeras vezes para espantar a raiva que lhe dominara. A rua estava vazia, a maioria das pessoas estava dormindo àquela hora ou dentro do Palácio na reunião, o mesmo lugar onde ele deveria estar agora para acatar as ordens de seu Rei, mas simplesmente não podia deixar que os outros o vissem naquele estado, ele não podia de forma alguma demonstrar algum tipo de fraqueza, já tinha pessoas demais querendo matá-lo, não deveria incentivá-los achando que tinham chance. 
Nunca tinha perdido o controle daquela forma, nunca se permitia demonstrar raiva ou qualquer emoção que fosse, pois sabia que tudo aquilo podia ser usado contra ele. Por isso também não demonstrava nenhuma bondade, naquele lugar isso era sinal de fraqueza. Mas aquela noite, ao ver o que acontecera ele teve medo. O Rei andava nervoso demais desde que atacaram Severac, estava mais cruel que de costume e Joseph temeu, mas não por ele, e sim pelas pessoas que amava e precisava proteger. Agora não se reconhecia direito, o jeito como Paola o olhara, como se tivesse medo dele, ela nunca tivera medo dele, ela o conhecia por quem ele realmente era, ela conhecia o Joseph e não somente o cavaleiro das sombras.

Mas o que mais lhe incomodara fora o olhar assustado da princesa quando ele gritou, como se fosse alguma espécie de monstro. Muitas pessoas lhe olhavam com medo, mas algo naquele olhar foi diferente, foi à primeira vez desde que se tornara o cavaleiro das sombras que ele se sentira um homem mau, talvez tenha sido por saber que ajudou um monstro como Klaus a estragar a vida de uma jovem inocente como ela. Ou talvez porque ao olhar para Demetria se lembrara dela, a ultima vez que vira Macayla, tinha o mesmo olhar de medo e mesmo depois de tantos anos sem vê-la, nunca conseguiu se esquecer. 
Mas ele logo tratou de espantar aqueles pensamentos, não tinha que se sentir mal ou culpado, ele estava fazendo o que precisava fazer, ele estava lutando pela vida como tantos outros. Quando ele finalmente se recompôs e estava pronto para entrar no Palácio a porta se abriu e a princesa Demetria passou correndo por ele, sem olhar para trás, disparando pelas ruas escuras da cidade, alguns guardas vinham atrás, mas o Joseph os mandou que parassem.
__O Rei ordenou que a levasse aos seus aposentos comandante__ um deles disso.
__Eu cuido disso__ ele garantiu.
Então foi atrás dela, sem tanta pressa quanto os outros. A encontrou abaixada na beira de um pequeno lago por entre as árvores da cidade, abraçando a si mesma, balançando para frente e pra trás enquanto chorava. Ele ia pegá-la, mas parou quando a ouviu murmurar alguma coisa, não tinha notado a presença dele ainda. 
__Eu sou uma princesa, eu sou uma princesa, eu sou uma princesa__ ela repetia sem parar com a voz falha, como que para não esquecer quem era de verdade__ ele me prometeu que viria, ele me prometeu, ele me prometeu, ele prometeu. 
Ele não precisava perguntar para saber do que ela estava falando, da promessa do Príncipe Alex de voltar para salvá-la. Enquanto ouvia aquilo se perguntou se era assim que Macayla se sentia, se também chorava e repetia essas palavras para criar coragem de continuar. Será que ela duvidava por algum momento da promessa que ele tinha feito? Será que ela estava sofrendo também? 
__Demetria__ ele chamou com a voz desprovida de emoção.
Ela se virou lentamente para olhá-lo, mas não se levantou.
__Eu não estava tentando escapar__ ela se atrapalhou com as palavras, em meio ao desespero e as lágrimas__ eu juro, só estava...
__Eu sei__ ele a interrompeu__ tenho que levá-la de volta.
__Você estava certo__ ela sussurrou com o belo rosto destorcido de agonia__ vão todos morrer por minha causa. Eu nunca vou embora daqui e vou ver todos morrerem como aconteceu com o Charlie, você estava certo. 
Ele nada respondeu, não confiava nas próprias palavras, não havia nada que pudesse fazer.
__Levante, eu tenho que te levar de volta.
Demetria se esforçou para se por de pé, todo seu corpo doía pelos socos e chutes que os guardas lhe deram dentro do Palácio, até que o Rei se cansasse e mandasse que eles parassem. Ela não sabia de onde tirar forças para correr, só sabia que precisava se afastar de lá e chorar um pouco sozinha, longe daquela agonia, mas agora não foi uma tarefa fácil se mexer.
__Vamos logo__ Joseph murmurou com impaciência e a pos de pé sem muito jeito, fazendo-a soltar um gemido de dor__ o Rei está a sua espera, não vai querer deixá-lo mais irritado. 
Então, apoiada pelos braços fortes do comandante, ela se inclinou para frente e vomitou ao ouvir suas palavras. Tinha assistido alguém que amava perder a cabeça, sabendo que isso provavelmente aconteceria com todos os outros que tentassem ajudá-la, quase perdera a língua e tinha sido espancada e agora teria que servir de objeto sexual para o Rei que estava tremendamente zangado aquela noite... Ela simplesmente não suportava mais aquilo.
Joseph esperou que ela terminasse, sem nada dizer, estava sem humor e paciência até para assumir a pose de “não me importo com nada”, e quando ela terminou, pegou-a no colo e a carregou de volta ao Palácio, a deixando sobre a cama do Rei e saindo logo em seguida. Não ficou de guarda na porta aquela noite, a tarefa foi dada a outro soldado e ele foi grato por isso. 
Estava indo para casa, quando esbarrou com Paola no caminho.
__Não me olhe desse jeito__ ele resmungou mal humorado.
__De que jeito?__ ela perguntou.
__Esse jeito Paola__ ele rebateu irritado__ como se me culpasse pelos problemas do mundo. 
__Ela não merece aquilo Joseph, é só uma garota e...
__E que tenho eu haver com isso?__ ele disse, mas logo em seguida suspirou__ pensa que gosto disso? Que acho engraçado ou divertido? Que toda esta droga me agrada? Você me conhece bem demais para me acusar de qualquer coisa, sabe melhor que ninguém que só estou fazendo o que é preciso, estou fazendo o que acho certo... Eu precisei entregá-la, precisei entregar aquele homem.
__Joseph...
__Não vai me fazer sentir culpado Paola__ sussurrou__ se tiver que escolher entre ela ou qualquer outro e minha família, vou sempre escolher a minha família. Vou por em primeiro lugar aquilo que me importa, eu não tenho escolha, não depois de tudo que eu já fiz, e nem você e nem ninguém vai me fazer sentir culpado por defender aquilo que eu amo. 
E saiu, deixando Paola sozinha no meio da rua sem saber o que dizer. 

Fim do Capítulo