Capítulo 18. Joseph – O Segredo e a Culpa


ㅤㅤㅤㅤEu estava com muita raiva. Mas ao contrário do que sempre acontecia, eu estava com raiva de mim mesmo. Primeiro tinha sentido raiva de Demetria por pensar aquelas coisas de mim, mas depois percebi que ela estava certa e que eu não tinha lhe dado nenhum motivo para pensar o contrário. Então senti raiva de mim, por ser tão estúpido, por ter sido grosso com ela e a mandado ir pro inferno quando na verdade queria beijá-la novamente. Porque era só isso que eu tinha em mente desde ontem à noite. Desde meu encontro com Selena eu vinha imaginando como seria beijá-la e não tinha sido nada como pensei, mas mil vezes melhor. Eu nunca tinha sentido nada nem remotamente parecido com nenhuma das outras milhares de garotas que eu já beijara na vida. 
ㅤㅤㅤㅤEu queria ter os lábios dela nos meus de novo e dessa vez também queria sentir o corpo dela contra o meu. Queria que ela me tocasse e queria ouví-la suspirar a cada toque meu. E tinha raiva de mim por querer isso e por saber que nunca ia acontecer. Não devia ter significado nada, eu não deveria querer tais coisas. Eu não conseguia entender porque ela me fazia sentir isso, não sabia dizer como acontecera. Eu ficava diferente quando estava com ela, tinha vontade de me abrir e fazê-la me conhecer, queria de algum jeito poder provar para ela que eu era mais do que um garoto idiota que vivia bebendo e dormindo com qualquer uma.

ㅤㅤㅤㅤMas o problema era exatamente esse. Eu era esse garoto idiota que não ligava para nada, eu vinha sendo assim há muito tempo e não sabia se podia ser diferente, se podia me livrar dessa imagem e desse meu jeito. Mas ela me fazia querer ser diferente. Eu queria poder ser alguém por quem Demetria se apaixonaria. 
ㅤㅤㅤㅤE esse pensamento me assustou. Porque por mais que eu negasse, eu sabia o que estava acontecendo comigo. De alguma forma estava acontecendo e do jeito mais errado possível. Com a pessoa errada, no momento errado. Fechei os olhos e me abaixei no chão, querendo que todos aqueles pensamentos sumissem, querendo desaparecer. Querendo que minha vida não fosse uma completa droga e que não tivesse feridas no meu passado que me transformassem no garoto desprezível que eu era hoje. 
ㅤㅤㅤㅤ__Joseph?
ㅤㅤㅤㅤAbri os olhos assustado e percebi que tinha adormecido deitado no chão. Ethan estava de pé sobre mim, me olhando de uma forma muito estranha.
ㅤㅤㅤㅤ__O que foi?
ㅤㅤㅤㅤ__Porque você está deitado no chão? Ainda está de ressaca?
ㅤㅤㅤㅤ__Eu não estou de ressaca__ resmunguei me levantando.
ㅤㅤㅤㅤ__E você tem o costume de dormir sobre uma poça de baba quando está sóbrio?
ㅤㅤㅤㅤ__Eu não babei, cale a boca idiota.

ㅤㅤㅤㅤMas ele começou a rir e eu ri também, para espantar um pouco da tensão que estava me matando aos poucos. Espreguicei-me e fui tomar um banho e trocar de roupa. Sai do banheiro me sentindo muito melhor. Ainda não sabia o que fazer da vida, mas eu resolveria isso depois. 
ㅤㅤㅤㅤEncontrei Victória na sala, sentada em frente a um piano velho que estava ali há séculos e ninguém mais tocava. Ela passava os dedos sobre as teclas, sem realmente tocá-las. Caminhei até ela e sentei-me ao seu lado.
ㅤㅤㅤㅤ__Pensando em voltar a tocar?__ perguntei.
ㅤㅤㅤㅤ__Já faz muito tempo__ ela murmurou sonhadora__ não sei se ainda me lembro.
ㅤㅤㅤㅤ__Esse tipo de coisa agente não esquece.
ㅤㅤㅤㅤ__E você?__ ela me olhou de lado__ porque não volta a tocar?
ㅤㅤㅤㅤDei-lhe um meio sorriso e percebi naquele momento que fazia séculos que nós dois não conversávamos. Antigamente, compartilhamos esse gosto pela música que puxamos de nossa mãe. Ela tocava piano muito bem, era só um hobby para ela, mas ela nos ensinou a tocar, exceto por Ethan que não conseguia ficar quieto tempo suficiente para aprender qualquer coisa. Mas desde que nossa mãe morrera, nenhum de nós voltara a tocar em um piano. Não era mesma coisa sem ela.
Mas sentado ali, com Victória do meu lado, fui transportado por um momento para o passado. Imaginei que minha mãe estava de pé ao nosso lado, escorada no piano e sorrindo, me incentivando a tocar e antes que percebesse estava deslizando lentamente os dedos pelas teclas, tocando aquela eu costumava ser sua musica favorita. Victória sorriu para mim, e a visualizei como costumava ser antes, uma menininha de cabelos loiros, vestidos floridos e olhos inocentes e quando ela começou a tocar junto comigo, como costumávamos fazer, por um momento me senti bem, me senti como se estivesse novamente em casa. 
ㅤㅤㅤㅤ__Lindo.
ㅤㅤㅤㅤMe sobressaltei ao perceber que não estávamos mais sozinhos. A família inteira tinha se juntado a nossa volta para nos observar. Foi só nesse momento que percebi que meu pai já tinha voltado do hospital com a Daiana.
ㅤㅤㅤㅤ__Fazia séculos que não via vocês tocarem__ meu pai elogiou__ eu sentia falta disso. Essa era a música preferida da sua mãe, ela ficaria orgulhosa de ver vocês dois...
ㅤㅤㅤㅤ__Não fale dela__ antes que pudesse me conter a frase já tinha escapado, o antigo rancor voltando a superfície__ não fale dela assim como se sentisse saudade, como se não fosse culpa sua o fato de ela não estar mais aqui.
ㅤㅤㅤㅤ__Joseph... __ Ethan me repreendeu.
ㅤㅤㅤㅤ__O que? Eu sei que vocês pensam a mesma coisa, só não tem coragem de admitir.

ㅤㅤㅤㅤ__Sabe Joseph? Estou cansado dessa sua atitude__ meu pai disse__ eu relevei durante todo esse tempo porque sei como difícil perder a sua mãe. Mas você não é uma criança, está grandinho o suficiente para ficar me culpando por algo que não estava no meu controle.
ㅤㅤㅤㅤ__Você a expulsou de casa__ o lembrei__ eu estava lá quando você disse para ela nunca mais voltar, e tudo por quê? Porque ela se dedicava ao trabalho dela? Porque estava seguindo seus sonhos?
ㅤㅤㅤㅤ__EU A EXPULSEI PORQUE ELA MERECEU__ ele gritou perdendo a compostura__ SUA MÃE NÃO ERA A SANTA QUE VOCÊ PENSA. 
ㅤㅤㅤㅤ__Do que você está falando?
ㅤㅤㅤㅤEle piscou, como se tivesse acordado de um sonho e percebido que falara demais.
ㅤㅤㅤㅤ__Esqueça, eu não disse nada.
ㅤㅤㅤㅤ__Diga o que você tem para dizer__ eu ordenei__ fala agora. 
ㅤㅤㅤㅤ__Paul, não faça isso__ Daiana pediu.
ㅤㅤㅤㅤ__Não se meta__ eu gritei com ela__ isso não é da sua conta. 
ㅤㅤㅤㅤTodos ficamos em silencio por um segundo. Victória ainda estava sentada ao piano, parecendo congelada. Ethan tinha vindo até o meu lado, tentando me acalmar. Jason, Demetria e a gêmeas estavam com Daiana do outro lado sala, encarando de olhos arregalados.

ㅤㅤㅤㅤ__Isso não está certo, eu não vou falar mal de alguém que não está aqui para se defender.
ㅤㅤㅤㅤ__Você vai falar agora mesmo o que você tem para dizer__ eu segurei o braço__ o que você ia dizer da minha mãe? Fale de uma vez. Que mentira você tem para contar agora?
ㅤㅤㅤㅤEle exitou por mais um momento.
ㅤㅤㅤㅤ__Pai__ dessa vez foi Ethan quem o incentivou a falar.
ㅤㅤㅤㅤ__Eu não expulsei sua mãe de casa porque ela trabalhava demais__ ele finalmente confessou__ eu a coloquei para fora de casa porque ela estava me traindo. 
ㅤㅤㅤㅤ__O que?
ㅤㅤㅤㅤ__Paul__ Daiana o advertiu.
ㅤㅤㅤㅤ__Eles tem o direito de saber Daiana__ ele continuou a falar__ eu descobri que a mãe de vocês estava me traindo com um colega de trabalho, era por isso que ela passava tanto tempo fora de casa. Nós tivemos uma briga muito feia quanto descobri e ela quis ir embora, ia me deixar para ir morar com o amante e ia largar vocês também.
ㅤㅤㅤㅤ__Ela não faria isso__ Victoria sussurrou.

ㅤㅤㅤㅤ__Ela queria fazer. Mas eu a convenci a mudar de ideia, disse para ela ficar, para que conversássemos e tentássemos consertar nosso casamento por vocês, por nossos filhos. Eu engoli a humilhação e o meu orgulho por vocês, para que vocês não tivessem que sofrer. Ela me prometeu que largaria o amante e fingimos por mais alguns meses que estava tudo bem, até que eu descobri que ela continuava me traindo, que não tinha mudado nada e que a suposta viagem que ela faria a trabalho era um final de semana na casa de praia do amante dela. Então eu perdi a paciência e a mandei fazer uma escolha. O amante ou a família. Disse que se não terminasse com ele de vez, podia ir e nunca mais voltar. E ela escolheu ir. Ela não estava triste porque eu a mandei embora aquele dia, ela não bateu a droga do carro porque estava arrasada. Não, porque ela só fez aquele dia o que pretendia fazer á meses. Ela foi embora feliz e o único que estava sofrendo era eu. 
ㅤㅤㅤㅤUm silencio mortal recaiu sobre o recinto. Eu estava completamente paralisado, sem acreditar naquilo que tinha acabado de ouvir. Não era possível que aquilo fosse verdade, minha mãe nunca faria algo assim.
ㅤㅤㅤㅤ__Isso não é verdade__ Victória sussurrou__ mamãe nunca faria isso.
ㅤㅤㅤㅤ__Porque nunca nos disse nada?__ Ethan perguntou__ porque mentiu para nós?
ㅤㅤㅤㅤ__Porque eu não queria que vocês sofressem. Ela era mãe de vocês e morreu, eu não queria ofender alguém que já tinha morrido, que bem faria saber disso? Não mudaria o que aconteceu__ ele respondeu__ mas eu cansei de ser acusado de algo que não tenho culpa. Eu não mereço isso, tudo que eu fiz foi por vocês, eu me humilhei e sofri mais do que podem imaginar e vocês não tem o direito de me odiar por isso. Não por isso.

ㅤㅤㅤㅤEu estava completamente chocado, sem palavras. Senti minha visão ficar embaçada e percebi que tinham lágrimas escorrendo por meu rosto. Meu pai se aproximou e tentou me abraçar, mas me esquivei de seu toque e subi as escadas correndo, entrando em meu quarto. 
ㅤㅤㅤㅤAs palavras dela ficavam ecoando em minha mente, junto com lembranças de velhas discussões e outros momentos. Senti a raiva crescendo dentro de mim, sem ter muita certeza de quem ou do que eu estava com raiva naquele momento. Do meu pai? Da minha mãe? De mim mesmo? Eu não sabia, mas estava coberto de ódio. Comecei a tacar os objetos do quarto na parede e gritei, porque tudo na minha vida era uma droga e aparentemente uma grande mentira. 
ㅤㅤㅤㅤAgarrei um vaso de vidro que enfeitava a cômoda o taquei em direção a porta quando ouvi passos se aproximando, mas não era meu pai e sim Demetria. Ela gritou e se encolheu quando o objeto passou voando por seu rosto e se espatifou na parede, milhares de cacos de vidros se espalhando no chão. Ela me encarou de olhos arregalados.
ㅤㅤㅤㅤ__Desculpe__ sussurrei com a voz fraca, sentindo meu coração bater depressa no peito__ desculpe.

ㅤㅤㅤㅤEla se aproximou devagar, parecendo com medo de que eu surtasse e batesse nela. Respirei fundo quando ela parou na minha frente e segurou minha mão. Ela não disse absolutamente nada, só ficou ali parada junto comigo, esperando para ver o que eu faria ou diria. Me concentrei no seu rosto, nos seus olhos e deixei que a raiva fosse toda embora, saísse completamente de mim até só sobrar uma grande tristeza e então eu estava me desmanchando em lágrimas e Demetria me abraçou. 
ㅤㅤㅤㅤEu passara todo esse tempo odiando meu pai, culpando ele pelo que acontecera, quando na verdade minha mãe, a única pessoa no mundo que me entendia e me amava do meu jeito, era a pessoa de quem eu deveria ter raiva. Era ela a mentirosa, que pretendia nos abandonar. Saber disso doía, porque ela era a única certeza que eu tinha na vida. O amor dela era a minha única certeza e agora eu não tinha mais isso, não tinha mais nada. 
ㅤㅤㅤㅤDemetria se sentou na cama e me puxou para junto dela, sem dizer uma palavra, só me abraçou e me deixou chorar. Como eu tinha feito com ela algum tempo atrás. E ter ela ali do meu lado, mesmo que em silencio, me dando apoio, fez a dor ser um pouquinho menos insuportável. 

Fim do Capítulo


MINI FIC - AMBITIOUS - CAPÍTULO Dois

Meninas desculpem a demora, estava sem internet :(

— E ISSO deve ser um atrativo?
Joe se sentiu profundamente aborrecido, a culpa era toda de Demi Lovato. O que era frequente. A mulher era uma ameaça. Ninguém falava assim com ele. Ninguém o tratava assim Mas, então, poucas pessoas chegavam tão perto de serem iguais a ele. A empresa de Demi havia nascido do nada cinco anos atrás e rapidamente conquistara popularidade mundial. A Anfalas se dedicava a transformar a tecnologia de fantasias em realidade. E sua visão era popular. Uma visão criativa combinada com uma excelência em todas as coisas tecnológicas, que eram naturais nela de uma forma que não vira em ninguém, bem a não ser em si mesmo. O que a tornava formidável. Embora ela se achasse mais formidável do que era. Provara aquilo aquele dia, agindo como se fosse capaz de tomar o poder da situação? Sem chance.
— É um atrativo.
— Verdade?
Cruzou os braços sob os seios pequenos e perfeitos e dobrou a cabeça para o lado, os cabelos louros cascateando sobre o ombro. Estava toda vestida de preto, o que a identificava. Ridículo, quando viviam na costa da Califórnia, mas provavelmente pensava que a fazia parecer agressiva. Para ele, lembrava mais uma garota pálida, magra, ansiando por parecer gótica.
— Precisa haver um motivo para você estar respirando com tanta dificuldade. Ou é interesse no projeto ou em mim. — Lançou-lhe seu melhor sorriso, aquele que sabia que fazia as mulheres se desmancharem O jogo da atração era para ele uma arte refinada. Era um especialista em sedução. Ironicamente, as mulheres que seduzia não precisavam disso, mas gostavam de fingir que gostavam. Fazia com que se sentissem desejadas e quando um homem conseguia fazer uma mulher se sentir desejada. Ficava com o poder, sem necessidade de um braço forte.
— Bem, não é interesse em você, assim podemos eliminar isso da lista.
Ele acreditava que era verdade. Demi parecia ter uma grande aversão a ele. Mas podia usar aquilo contra ela com tanta eficácia, como usaria uma sedução falsa. Havia sempre uma forma de lidar com as pessoas. Uma vulnerabilidade. Uma fraqueza.
Menos com ele. Não mais. No fim, uma fraqueza era atingida vezes demais e sarava com uma cicatriz tão grossa, que era impossível penetrá-la. Irônico como uma fraqueza, podia se transformar no ponto mais difícil de quebrar. Mas acontecera com ele.
— Então deve ser interesse no meu plano. Neste caso, convido-a a entrar para conversarmos em particular.
— Você tem uma segurança tão poderosa quanto à do Pentágono, tenho certeza de que podemos conversar em particular em qualquer lugar de sua propriedade.
— Jamais corro riscos desnecessários.
— A paranoia é uma coisa cultural?
— O quê?
— Todos os italianos são paranoicos?
— Talvez, se cresceram nas ruas de Roma. O que leva um homem a ser um pouco paranoico. — Um pouco paranoico. Um pouco fora da lei. Tinha uma forma de anular a consciência, de modo que todas as más decisões desapareciam Bem, nem todas. Mas estava tudo bem. Porque algumas lições precisavam ser lembradas.
— Está certo. Posso ver como isso pode tornar você um pouco mais cauteloso. Mais que eu, porque os subúrbios de Ohio não são exatamente horríveis.
— Agora que já temos as informações básicas de nossas biografias, gostaria de entrar e ouvir o que tenho a dizer?
Os olhos castanhos de Demi brilharam
— Não especialmente, mas sim.
— Então ficou curiosa.
— Não deixe que isso lhe suba à cabeça.
— Por aqui. — Colocou a mão no ponto mais baixo das costas dela e a sentiu ficar tensa. Certamente ficava agitada perto dele. Mas sem olhares lânguidos. A mulher não reagia como as outras. Seria mais difícil manipulá-la, mas não impossível.
— Você faria isto com um homem? — Só perguntou depois de terem atravessado as portas duplas e estarem no espaçoso saguão.
— Com certeza não. Mas você não é um homem; assim, pare de me pedir que a trate como um.
— Quero ser tratada como igual.
— E isto não é tratá-la como igual?
— Não você está me tratando de modo diferente.
— Diferente é desigual de alguma forma?
— Você me convidou a vir aqui para discutir política de gênero, ou vai me levar para seu estúdio para me fazer seu discurso?
— Fazer meu discurso.
Andou pelo saguão, admirando a opulência de sua casa a cada passo que dava. Apreciando o que era dele. Passara noites demais dormindo nas pedras frias das ruas, para não gostar do que via agora. E noites demais em camas macias, que pertenciam a outras pessoas. E no fim, não tinha certeza se as ruas duras e geladas, não eram a opção melhor.
O saguão se abria para outra sala, através de uma ampla abertura em arco que o lembrava dos velhos edifícios da Itália. Lugares que eram luxuosos demais para permitir sua entrada. Assim, construíra um para si mesmo. Peças antigas que custavam mais caro apenas porque eram velhas, decorava a sala, outra posse que adquirira simplesmente porque podia. A mesma coisa com os bustos de mármore e vasos antigos. Coisas que havia comprado, porque antes, não podia nem olhar para elas em museus e lojas. Agora era dono delas, tinha o que quisesse. O custo para chegar lá, havia sido tão alto que se sentia no direito de possuí-las.
Demi se sentou na maior poltrona do salão. Cruzou uma perna coberta de couro sobre a outra e bateu o salto stiletto negro no piso duro.
— Abra o bico, Jonas.
— Quero fazer uma parceria com você e apresentaremos juntos; o projeto a Barrows. Podemos conseguir o contrato. E tenho boas razões para acreditar que podemos remover Hamlin da equação para sempre, se jogarmos bem nossas cartas.
— O quê?
— Para que parte da declaração?
— Toda ela. Mas comece com Hamlin.
— Ele está afundando. Tem tantas dívidas que a única forma de salvar a Hamlin Tech neste ponto, é um grande contrato Barrows. Se não fizermos a parceria, a possibilidade é que ele consiga. E o grande quadro aqui Demetria, não é você ou eu conseguirmos o contrato, é sermos capazes de nos livrar de um jogador-chave na nossa indústria.
— Isto é uma vileza.
— Enrolaria meu bigode se tivesse um.
— Estou falando sério. Por que tirar Hamlin da jogada?
— É seu objetivo ter mais sucesso que ele? Roubar seus clientes e cortar sua cota de mercado?
— Sim.
— Bem, é meu objetivo também. É meu objetivo fazer isso com você também, mas posso esperar, porque vejo uma oportunidade aqui. Francamente, Hamlin é um canalha e embora não seja o melhor dos caras, não tenho fábricas na Ásia para conseguir mão de obra barata, e não persigo sexualmente minhas funcionárias.
— Então vai agir como se estivesse salvando o mundo da Hamlin Tech e de todo o mal que pratica?
— Não. — Cruzou os braços. — Mas é outro motivo para ser um belo alvo. O motivo principal é que quero ser o vencedor final.
— E por que eu o ajudaria a se aproximar desse objetivo?
— Porque leva você mais perto também.
— Então atacamos juntos e quando o inimigo for destruído, apontamos as armas um para o outro?
— Exatamente. Isso é um problema?
— Não tenho certeza. — Era uma mulher interessante. Lindas pernas, pele pálida e cabelos claros, vibrando com uma espécie de energia incontrolável, que sempre parecia pulsar sob a superfície.
— Enquanto estivermos trabalhando juntos, estaremos trabalhando juntos.
Ela mordeu o lábio inferior e Joe sentiu uma fisgada estranha nas entranhas. Era uma coisinha adorável. Do tipo que não sabia como era adorável. Precisaria de um monte de elogios, de toques, toques não sexuais, para se abrir. Para gostar de um encontro com um homem.
Criticou-se mentalmente pela direção dos pensamentos. Não era hora. E avaliar mulheres assim, tentando descobrir o que realmente queriam, como poderia agir para atender a seus anseios, não fazia mais parte de sua vida. Não olhava para uma mulher assim há anos e não sabia por que fazia aquilo agora. Não estava em busca de uma namorada, amante ou mulher. Não era porque não sentisse atração, simplesmente ela se registrava em seu corpo e em mais lugar nenhum.
Talvez porque ela fosse um enigma. Alguma coisa nela não combinava. A energia, por exemplo. Ela se esforçava tanto para controlá-la, mas mal podia ficar imóvel. Então, havia as roupas negras “não me toque”. Imaginava que tinham o objetivo de fazê-la parecer confiante, mas para ele apenas mostrava que não era. Estava usando uma armadura fácil de reconhecer.
E não importava o quanto o intrigava, não iria por aquele caminho. Não voltaria a ser o homem que havia sido treinado para ser. Fugira daquilo. Usava as armas quando lhe convinham. Não estava mais preso numa coleira.
— Isso significa que não vai me dar uma facada pelas costas, durante este truque?
— Não chamaria de truque. Embora seja necessário usar um pouco de finesse.
— O que significa?
Essa era a parte que ela não gostaria. A parte que seria fácil com qualquer outra mulher. Mas Demi não era fácil. Não reagia a seu flerte. Não reagia a seu charme. Interessante. O que a tornava interessante demais. Ninguém ficava à altura dele. Ninguém, nem mesmo Scott Hamlin, ousaria promover os eventos que ela promovia. Obrigara-o a começar a fazer a mesma coisa. Forçara-o a agir. Tão interessante conhecer alguém com aquele tipo de poder. Mas agora estava sob o poder dele.
— Vamos fazer parecer que é uma fusão.
— Isto não é uma fusão.
— Para o projeto.
— Certo. — Mal podia conter a raiva. — Continue.
— Temos que fazer parecer que a fusão é orgânica.
— E como propõe fazer isso?
De certa forma, o fato de que ela não gostaria da sugestão, tornava tudo ainda mais perfeito. Qualquer coisa que fizesse a balança de poder pender para o lado dele, era boa. E quanto mais agitada ela estivesse, mais controle ele teria.
— Todos esperariam que um casal fizesse um projeto em comum.
Os olhos castanhos brilharam.
— Está sugerindo que... Que devemos fingir algum tipo de envolvimento pessoal?
— Está sendo pudica. — E sorriu. — Estou sugerindo fingir que temos um caso tórrido.
Demi se levantou de um pulo e começou a andar pela sala.
— Isso é insano. Como se eu... Como se você... Como se!
— Acha a ideia tão ofensiva? — Atravessou a sala e se sentou na cadeira da qual ela havia se levantado.
— É inacreditável. Depois da sabotagem de hoje, ninguém pensaria que você e eu...
— Há uma linha muito fina entre o ódio e a luxúria, cara mia.
— Talvez se você tivesse uma desconexão entre seu cérebro e suas regiões baixas.
— Muitas pessoas têm.
Ela plantou as mãos nos quadris.
— É loucura.
— Tem uma ideia melhor? Por que Barrows teria confiança na nossa capacidade de trabalhar juntos, se apresentarmos uma proposta saída do nada?
Ela abriu os braços.
— Porque somos maravilhosos!
— Ser maravilhosa não ganha pontos nos negócios, Demi, e é nisso que alguém como eu tem uma vantagem sobre alguém como você.
— Como eu, jovem, extremamente inteligente, criativa e...
— Verde. Sem treinamento. Sem ter sido testada.
— E quanto a você, Joe Jonas, formado na escola de brutamontes?
Não, não era uma mulher a ser conquistada pela sedução. Mas e quando era desafiada? Não conseguia resistir a uma luta.
— Brutamontes? Andou lendo minha biografia não autorizada?
Ela ruborizou.
— Não. É uma expressão comum.
— E é também a capa do livro. Minha ascensão ao sucesso a partir das sarjetas de Roma. Uma leitura fantástica. Se você gosta de contos de fadas.
Era quase engraçado como ela e o resto do mundo, agarrasse a oportunidade de ler sobre seu passado sórdido. E era sórdido, sem dúvida. Uma coisa boa para ele é que o livro tinha apenas arranhado a superfície. Havia rumores próximos da verdade, mas apenas isso.
— Não sei de que livro está falando.
— Acho que sabe, mas pode manter sua mentira.
Ela estava praticamente pulando agora. Provavelmente ao ritmo dos palavrões que dirigia a ele.
— Certo, eu li. Conheça seu inimigo e tudo. A Arte da Guerra. Vê? Conheço bem o assunto.
— É como se sua mamãe e seu papai tivessem te dado uma caixa de presidente de empresa, como presente de Natal. Ganhou também uma caneca de melhor chefe do mundo e um jardim zen?
— Vá logo ao ponto ou vou embora.
— Meu ponto é que teve um sucesso fácil demais, ainda muito jovem — Ela mordeu o lábio como se estivesse segurando palavras, que queria desesperadamente dizer. Palavras destinadas a castrá-lo, sem dúvida. — E nunca teve que lidar com a realidade do fracasso. De como os negócios funcionam. De suas nuanças. Não precisou cortejar a imprensa, ela foi a você. Não teve que transformar um escândalo em vantagem. Não teve que enrolar mentiras para parecerem verdades. Mas eu tive que fazer tudo isso. Sei com o que estamos lidando. Sei que tipo de homem Scott Hamlin é e não hesitarei em derrubá-lo.
— Você diz isso como se eu não conhecesse homens do tipo dele. — O tom agora era gelado. — Sou uma mulher num mundo masculino. A tecnologia é um clube fechado de garotos, Jonas. Praticamente há um aviso de “Garotas Não São Permitidas” na porta. A vida toda eu lidei com homens que queriam tomar coisas de mim, que pensam que podem vencer mulheres. Conheço homens como Hamlin. E você tem razão. Ele merece ser destruído profissionalmente.
— Ele faria a mesma coisa conosco. Já tentou, ou não sabia?
— O quê?
— Parece chocada.
— Estou. Nunca tentou nada contra mim.
— Acha que não? Bem, ele é responsável por 70 por cento da minha biografia não autorizada, que você conhece. E também está atrás da investigação do imposto de renda em seus lucros do ano passado.
— Como é que sabe?
— Está ficando cansativo, mas vou repetir. Espionagem corporativa.
Observou-lhe a expressão, o rubor. Agora á deixara realmente zangada.
— Quem é seu espião na minha empresa?
— Quem disse que tenho alguém lá? Agora.
— Joseph.
— Jamais confirmo nada. Também não nego nada, assim, não perca seu tempo tentando conseguir uma resposta.
— Certo. Então, ele está tentando nos derrubar.
— Sim. E se você fosse mais escandalosa, ele poderia ter tido sucesso.
Ela franziu a testa.
— Perdão? Você é escandaloso demais e ele não obteve sucesso.
Joe deu de ombros.
— Porque sei como fazer o jogo.
— É aí que “não confirmo nem nego” entra?
— Exatamente. O que quero dizer, Demi, é que você precisa jogar do meu jeito. Porque, embora admita que é uma menina prodígio da tecnologia.
— Tenho 25 anos. Não sou tão jovem assim
Quase cinco anos mais nova que ele e ainda mais quando se tratava de experiência de vida. Demi ainda não parecia cansada, mas ficaria. A vida tinha um modo de fazer isso com as pessoas. Especialmente pessoas jogadas à luz dos holofotes. Felizmente para ele, já chegara exausto, drenado. E pelo menos tinha uma cama que lhe pertencia.
— Você é jovem, e o fato de não perceber apenas destaca mais o fato. Embora isso seja impressionante, não é o que tenho: maturidade.
— Você? Joe Jonas? Está jogando com a carta da maturidade? Você acabou de invadir minha apresentação como um pirata tecnológico e agora me diz que é maduro?
Ele lançou seu sorriso mais ensaiado, suave e sincero, um sorriso que ninguém podia criticar. Um sorriso falso.
— Mostro ao mundo o que escolho mostrar ao mundo.
— E acha que eu não?
— Sua armadura é frágil, cara.
Esperou que ela negasse que usava uma armadura. O fato de não negar, foi um ponto a seu favor.
— Então, me diga — os olhos castanhos nunca deixaram os dele. — O que acha que precisamos fazer?
— Precisamos fazer o mundo acreditar que toda a nossa hostilidade, se transformou em uma atração que não conseguimos negar. Precisamos fazer com que acreditem que se não nos amamos, pelo menos estamos cheios de paixão um pelo outro.
— E acha que vai funcionar?
Estava ruborizada. Ele não se lembrava de já ter visto uma mulher ruborizar. Todos os que ele conhecia, já tinham nascido cansados. Ele não. Podia se lembrar de um tempo em que fora jovem e sentira esperança. Otimismo. Paixão. Mas aprendera que não era possível sair da sarjeta sem sujar as mãos. Mas pelo menos estava fora, mesmo que a sujeira se agarrasse à pele pelo resto da vida. Mesmo se ficasse duro e velho antes do tempo.
— Eu sei que sim
— Como?
— A imprensa e o público são previsíveis. Aparecemos juntos num evento público e seremos manchete no mundo. A semente estará plantada e quando mostrarmos nosso projeto a Barrows, tudo fará sentido.
— Mas Hamlin não perceberá?
— Não necessariamente. Eu disse que fará sentido, não que era previsível. Estou apostando que a ignorância dele será sua queda. Como jamais faria uma parceria com uma mulher, presumirá que eu também não.
Ela mordeu o lábio inferior, outra exibição daquela insegurança que escondia atrás de toda aquela roupa preta. Se isso fosse uma sedução, ele lhe tocaria o rosto agora. Diria que tudo ficaria bem. Ela reagiria. Cerrou os dentes.
— Bem? Você me lembrou de que seu tempo é limitado, Demi. Tenho muitos compromissos e não posso esperar que tome uma decisão muito fácil de tomar.
Ela estendeu a mão e ele a tomou. Era tão feminina, com ossos tão finos, os dedos longos, estreitos e que apertavam sua mão com uma firmeza que o surpreendeu. Era mesmo uma mulher de negócios.
— Temos um acordo, Jonas.
— Fico feliz em saber, Lovato.
— Trabalharemos neste projeto. Apenas isto. Sem toques desnecessários, sem ideias engraçadinhas sobre as coisas esquentando por trás do palco, e nada de espionagem.
A espionagem já era feita na empresa dela, as informações sendo transmitidas numa base regular. E tinha certeza de que ela fazia a mesma coisa com ele.
Jogo limpo durante suas operações normais. O acordo mudava as coisas. Mas acreditava que se não lesse nada durante o acordo, deveria seguir as regras. Ou talvez não. Nunca aceitara regras.
— Acho que posso aceitar tudo.
— E quando acabar, acabou. Se tiver a oportunidade de ter você diante da mira da minha arma trinta segundos depois do fim do nosso trabalho, puxarei o gatilho sem hesitar.
— O mesmo para você. — Soltou-lhe a mão e ignorou a sensação que lhe queimava a pele.
— Até então, acho que temos que ser educados.
Joe sorriu e observou o rubor no rosto de Demi aparecer.
— Agora, isso eu não posso prometer. Não sou nem um pouco educado.

 Continua ...

Mini Fic - Ambitious - CAPÍTULO UM


— EM TERMOS de design e desempenho, o novo sistema operacional está muito além da competição. — Demi Lovato se virou e fez um gesto em direção ao monitor de alta definição atrás dela, que projetava a interface de sua nova tela de computador para milhares de pessoas na plateia e milhões que a viam na televisão e na internet pelo mundo inteiro. — É suave, amigável com o usuário e agradável ao olhar, o que, como sabemos é importante. Tecnologia não é apenas sobre máquinas, é sobre pessoas.
Sorriu para as câmeras, sabendo que estava com boa aparência. Felizmente agora tinha uma estilista pessoal e uma equipe de cabeleireiros e maquiadores. Seria um desastre por conta própria, como lhe haviam dito incontáveis vezes. Mas com uma legião de pessoas garantindo que estivesse apresentável, podia enfrentar o mundo... E era literalmente o mundo com confiança.
— Entretanto, design não é tudo. Precisa ser seguro. O novo sistema de segurança instalado, é melhor que qualquer outro no mercado. É capaz de identificar e bloquear as ameaças mais sofisticadas e assim seus arquivos, fica protegido.
A tela diante dela piscou, e um vídeo surgiu e tomou todo o monitor. Ela congelou, todos os olhos nela e no monitor.
— Seguro? Não acho, Sra. Lovato. Talvez para o raro hacker que se dê o trabalho de usar o Anfalas. Qualquer um que use o software Datasphere conseguirá entrar.
O calor lhe subiu ao rosto. Joe Jonas era um tormento constante, embora, para ser justa, ela fosse o dele. E ambos um tormento para Scott
Hamlin. Basicamente, eram uma chateação uns para os outros, mas aquilo tinha ido longe demais.
O rosto dele, lindo, irritante, cinzelado rosto, havia lhe roubado a apresentação, o sorriso condescendente, uma demonstração da fraqueza que seus antivírus não conheciam.
— Dificilmente qualquer um que use o Datasphere, Sr. Jonas — tentou manter a calma, consciente de que sua humilhação estava sendo exibida para o mundo todo. O lançamento de seu novo sistema operacional era a notícia do dia. O lançamento de qualquer produto Anfalas era a notícia do dia. E Joe havia acabado de destruir sua apresentação. — É preciso ter um mestrado em tecnologia para usar o Datasphere. Por outro lado, os computadores Anfalas têm o foco no usuário.
— E seu usuário acaba de ser invadido. Será que tem informações bancárias que posso acessar?
Ela fez um gesto em direção ao técnico que fazia a transmissão entre seu computador e a tela imensa, e a tela ficou escura, ao mesmo tempo em que o áudio de Joe era cortado. Mas a voz dele ainda vinha do seu laptop e o rosto ainda era visível a ela.
— E você acaba de ser expulso. — O olhar lançava adagas à tela do computador. Ergueu os olhos. — Peço desculpas pelo drama. Sabem como meu competidor pode ser. É possível que esteja tentando compensar seus defeitos.
Houve uma onda de risadas nervosas no salão.
A imprensa na primeira fila se agitou, mas não fariam perguntas antes do momento certo. Era muito rígida quanto a isso. Gostava de fazer as apresentações sem interrupções.
Grrrrr.
Um novo computador foi levado a ela e a demonstração continuou. É claro, havia perdido o ânimo sobre a segurança, assim decidiu se dedicar às questões de alta definição em seus novos monitores e exibir o software de música e edição de fotos, as coisas que realmente atraíam seu público-alvo.
E quando terminou, preferiu evitar a imprensa. Saiu rapidamente do palco praguejando, pegou uma garrafa de água, colocou os óculos escuros e alcançou a bolsa preta na mão do assistente.
— Carro?
— Atrás. A imprensa será atraída pelo carro na frente.
— Obrigada.
Por tudo. Queria abraçar seu assistente e chorar, mas Thad brigaria com ela por estragar a maquiagem, e não demonstraria fraqueza. Porque os fracos eram devorados, na vida e nos negócios, e não exibia vulnerabilidade exatamente por isso. Sabia bem demais como era.
O que devia fazer era voltar para sua mansão à beira-mar, observar a vista pela janela e tomar um litro de sorvete. Ah, sim, calorias, aqui vou eu. E então. Ah, e então planejaria sua vingança contra Joe Facínora Jonas.
Abriu a porta de trás, entrou na limusine que esperava e bateu a porta para fechar.
— Oi.
Virou a cabeça e o queixo caiu. Lá estava Joe com seu sorriso desdenhoso, num rosto muito masculino.
— Que diabos.? O que está fazendo no meu carro?
— É o meu carro. Estas limusines são todas parecidas.
— Bem, o que fez com o meu carro?
— Dispensei o motorista. Disse que tinha uma carona. E uma reunião. Comigo.
— Reunião em que lhe dou um soco no nariz, por aquela brincadeira estúpida?
— Estamos esquecendo o que aconteceu no último lançamento de um produto meu?
Demi mordeu o lado interno da bochecha.
— O quê?
— Todas as sacolas de brinde do novo smartphone da Datasphere, tinham seu Onephone nelas. E então você mandou projetar aquele slogan na parede.
— Onephone para superar todos os outros. — Ela riu. — Essa história não cansa.
— Já cansou.
— Discordo. Mas sua apresentação não foi tão grandiosa como a minha. As minhas são acontecimentos.
— Apenas porque você faz um espetáculo de cada produto que lança.
— É minha assinatura, certo? As pessoas gostam. Aumenta minha clientela. Sou uma tendência, Jonas. Devia tentar um dia desses.
— Tendência, é? Por que não pergunta aos fabricantes de jeans desbotados com ácido, como isso funciona?
— Sou uma tendência em desenvolvimento. Meus produtos são importantes. — Recostou-se no banco e o carro se moveu. — Para onde vamos?
— Meu escritório.
— Terminei de trabalhar por hoje.
— Não, Demetria, não terminou. A menos que queira perder a oportunidade de sua vida.
— Acabei de ter a oportunidade da minha vida. — Olhou para as unhas manicuradas. Seus dedos nem pareciam mais dela. Nada de unhas roídas. Tudo polido muito bem. E sua aspereza natural também estava polida. O lado social era um pouco mais difícil. Podia disfarçar a garota geek com tinta e roupas elegantes, mas ela ainda estava lá. No entanto, nunca mais mostraria aquela menina fraca e vulnerável ao mundo. — Tenho a oportunidade de uma vida o tempo todo. — Ergueu o olhar para o dele. — Oportunidades que a maioria das pessoas nunca tem. Por quê? Porque trabalho muito. Porque sou um gênio, sim Mas trabalho duro também O que significa que se perder a oportunidade de uma vida, outra surgirá antes do jantar.
— Não apostaria nisso.
— Parece tão seguro.
Joe mergulhou o olhar escuro no dela, um sorriso fácil nos lábios.
— Barrows entrou em contato com você.
— Como sabe?
O sorriso cresceu.
— Não tinha certeza até agora. Mas comigo também. E com Hamlin. Fomos os três sondados para fazer o design do GPS para sua frota de carros de luxo.
— Fomos? — Manteve a voz sem emoção.
Aquela proposta tinha sido a maior coisa a lhe ser oferecida, desde que seu OnePhone havia se tornado o celular mais vendido nos Estados Unidos. Uma oportunidade de ter seus aparelhos em carros em todo o mundo? Um negócio imenso. Maciço. E aparentemente estava lidando com uma dura competição se quisesse vencer.
— Fomos. E se quiser vencer, posso ajudar.
— Não preciso de sua ajuda.
— Precisa. Fiz você parecer vulnerável, inexperiente e até despreparada. Minha ajuda é mais necessária do que pensa.
Ela cerrou os dentes. Odiava a palavra vulnerável.
— Pegadinha.
— O quê?
— Pegadinha, Jonas, qual é a pegadinha?
— Você vai me ver muitas vezes. — O sorriso conquistador continuava no lugar. Droga, era tão irritante. E quente. O que era ainda mais irritante.
— Por quê? Se você pretende continuar a usar essas táticas, pode apostar que não vou gostar de ver você com mais frequência.
— Muitas mulheres ficariam bem felizes em me ver mais vezes.
— Muitas mulheres não são suas rivais no mundo da internet, nem ocupam a posição de presidente da empresa de tecnologia de rede mais lucrativa do mundo.
— Muitas mulheres também não são uma chatice tão grande como você. Mas estou disposto a superar isso pelo bem maior.
— Bem maior?
— Vou ser franco com você. Não vou conseguir esse contrato. Nem você. Não tenho a... Simplicidade da sua tecnologia.
— Não é amigável com o usuário.
— Não torno as coisas fáceis para criar o apelo de massa, a menos que seja necessário.
— Esnobe.
— De qualquer maneira, não tenho a tecnologia para fazer o sistema de navegação simples e claro para o motorista médio. Você não tem o poder que tenho. Sabe que meus processadores são superiores aos seus e duram mais. Hamlin, bem, ele pode fornecer uma versão medíocre do meu processador e da sua interface. Não tão bem, mas meu processador é melhor que o seu; e sua interface é melhor que a minha.
— E como sabe disso?
— Espionagem corporativa, o que mais?
— Isso não é certo.
— Como se você nunca tivesse me espionado.
Ela fingiu espirrar e olhou pela janela para o cenário da Califórnia que passava. Colinas salpicadas de casas de estuque com telhados vermelhos e o mar brilhante além. Mesmo depois de sete anos vivendo no litoral, a vista lhe tirou o fôlego. Tinha sido o começo de uma vida nova. Felizmente jamais se cansava dela porque precisava de um cenário maravilhoso para se distrair de Joe e de todas as suas perguntas e sorrisos, e daquele seu cheiro masculino.
O que era difícil de ignorar no espaço fechado da limusine. Muitos dos caras da tecnologia, cheiravam como se vivessem em uma caverna. E alguns deles até eram corcundas por ficarem debruçados sobre o teclado. Se não tivesse contratado um consultor de imagem, também poderia ter terminado daquele jeito. Porque sua vida era muito mais dedicada à tecnologia, do que à forma como o mundo a via.
Mas Joe não era assim. Emanava uma espécie de charme fácil e um sex appeal que muita gente com seu nível de inteligência, incluindo ela, não tinham. Não que pudesse ter sex appeal, mesmo com ajuda profissional.
— Vou tomar seu silêncio como uma aceitação e continuar. Não quero que Hamlin consiga o contrato, porque eu o quero. Tenho certeza de que você sente a mesma coisa sobre nós dois.
— Sim — ainda estudava o litoral. A limusine subiu uma colina e ela se virou para Joe. — Pensei que íamos para seu escritório.
— Meu escritório em casa.
— Por quê?
— Não vou deixar vazar uma aliança com você, até descobrir como quero que pareça.
— Para um homem que está propondo um tipo de parceria, você usa demais a palavra eu.
— Algum problema?
— Não há um “eu” numa equipe Joe, devia saber.
— Detesto clichês.
— São clichês por um motivo. Porque são verdades.
— Não necessariamente.
A limusine parou diante de uma construção pequena de segurança. Joe se debruçou fora da janela e colocou o polegar num scanner. O motorista fez a mesma coisa.
— Você também
— Não vai me reconhecer.
— Eu sei, não terá permissão para entrar com sua digital, mas gosto de manter arquivos.
— Arquivos de impressões digitais! Fale sobre paranoia.
— Não preciso ser paranoico?
Demi deu de ombros e concordou. Principalmente porque ela era um dos motivos para ele ser paranoico. Não sentia escrúpulos em fazer espionagem, mas ele fazia a mesma coisa, maldição. Justo é justo. Ou duas injustiças se transformavam em justiça. Ou qualquer coisa assim
— Agora você. Marque.
Ela olhou para a janela ao lado dele.
— Quer que eu apenas me debruce e faça isso?
Um brilho de diversão surgiu nos olhos dele.
— É, apenas se debruce e faça isso.
Ela ruborizou e fez tudo o que pôde para não olhar nos olhos dele ou mostrar que a perturbava. Estava acostumada com homens. Trabalhava com muitos e chegara ao ponto em que suas insinuações não a aborreciam mais. Especialmente quando estava com sua armadura. Com o rosto que mostrava ao mundo. Vestida de couro negro, botas negras, a garota durona que não fazia prisioneiros na sala da diretoria. Exatamente o que devia ser agora. Estava tentando enervá-la. E não recuaria. Nunca. Por homem nenhum.
Inspirou o ar com força e se debruçou sobre ele. E não alcançou o scanner. Limpou a garganta e se debruçou um pouco mais, o braço roçando o peito dele. O coração tropeçou e caiu. Sentiu uma fisgada profundamente perturbadora no corpo, que a deixou sem fôlego e trêmula. E lá estava o cheiro dele de novo. Mais perto, podia perceber suas nuances. Sabonete na pele. Limpa, almiscarada, masculina.
Pelo menos, era o que presumia. Não era familiarizada com o cheiro de pele masculina, mas não pensaria naquilo. E não devia estar pensando no cheiro da pele de Joe Jonas. Escaneie o polegar e se afaste, está regredindo!
Regredindo para aquela triste a ansiosa adolescente que tinha sido. Que havia fracassado ao tentar se enturmar até desistir. E então os pais começaram a tentar para ela e as coisas tinham se tornado realmente ruim. E descobrira o que acontecia quando tentava. Quando era vulnerável, suave e confiante.
Afastou a lembrança, debruçou-se um pouco mais e tentou ignorar como o seio lhe tocou o bíceps. Como a respiração estava presa na garganta. Estendeu a mão, colocou o polegar no scanner e a respiração presa saiu num jato, quando o aparelho fez um som de aceitação e ela pôde voltar para seu lado do banco, com uma saudável distância entre ela e Joe.
A limusine continuou a subir e outro portão barrou o caminho. Então o carro parou e o coração dela bateu com força.
— Está brincando?
Ele deu de ombros.
— Este precisa apenas de um código.
Ele digitou o código na tela do celular, um que ela percebeu não ser tão elegante ou rápido como o que sua empresa havia acabado de lançar, e o portão se abriu.
— Perfeito.
— Seu celular é ligado à segurança da casa?
— Não. Mas tem alguns Apps de jogos realmente bons.
— Como é que seus celulares vendem mais que os meus?
— Não acabou de me ouvir dizer as palavras “jogos” e “realmente bons”? É por isso.
— Não há uso prático nisso.
— Certo, e é ótimo ser prático, mas a maioria das pessoas não tem sistemas de segurança que grita “Sou paranoico”.
— E como é sua segurança?
— Grita “Sou paranoica” Mas não preciso controlá-la pelo celular.
Ele ergueu o celular.
— Admita, é muito legal.
— Certo, é.
— Isto tudo está contribuindo muito para a defesa do meu caso.
A limusine parou diante de uma casa imensa, que lembrava mais um palazzo italiano.
— Que caso? — Joe desceu e rodeou o carro, abriu a porta dela e estendeu a mão. — Pare com isto, Jonas, é uma reunião de negócios. — Saiu do carro sem tocá-lo, passou por ele e fechou a porta. — Se não faria isto para um rival masculino, não faça para mim.
— Vou anotar que meu toque a perturba.
— O quê? Seu toque não faz nada comigo. Mas não vou permitir que faça joguinhos sutis de poder. Diga-me o que quer para que possa sair do Forte Jonas e voltar à civilização. Estou precisando muito de um copo de vinho neste momento.
— Então entre e tome um. Porque isto não vai ser rápido.
— Ah vai, porque já sei que não vou gostar do que tem a dizer.
— Não vai gostar, mas não é idiota. O que significa que vai ouvir.
— Verdade?
— Sim. O caso é o seguinte: você tem alguma coisa de que preciso, eu tenho alguma coisa de que precisa. A única maneira de conseguirmos aquele contrato é juntando forças.
— Prefiro ser atirada dentro de um vulcão em erupção.
— Nobre. Mas não lhe dará o contrato. Trabalhar comigo dará.
— Errado. Isso me dará meio contrato.
— Melhor que contrato nenhum É melhor que deixar Hamlin conquistá-lo.
— E por que é melhor para mim conseguir o contrato com você, do que com Hamlin?
Scott Hamlin era um canalha da pior espécie e jamais ouvira uma coisa boa sobre ele. Contratara pessoas que haviam trabalhado para a Hamlin Tech em posições de baixo nível, e a opinião sobre o ex-patrão nunca era boa. Mas então, imaginava que pessoas que foram demitidas da Anfalas, diziam coisas ruins sobre ela e seus executivos.
Também roubara alguns dos funcionários de Joe e a palavra, tirano, era uma descrição frequente do homem. E se lhe pedissem para resumir Joe Jonas em poucas palavras, jamais escolheria “cara gentil”.
Mas nenhum deles havia sido acusado de perseguir sexualmente funcionárias. Hamlin era um porco chauvinista e sem escrúpulos. E se havia uma coisa que não tolerava, eram canalhas que pensavam que tinham direito ao corpo de mulheres apenas porque eram homens ou pagavam os salários delas. Portanto, sim, queria que Hamlin queimasse. Mas também não estava ansiosa por uma parceria com Joe.
— Se precisa perguntar, então não conhece bem Hamlin.
— Conheço bem você e não gosto muito. — Olhou ostensivamente para o relógio de pulso. — Você tem um minuto para me convencer a entrar, Jonas, ou vou embora.
— Desculpe, cara mia, não trabalho assim
— Então não vai nem tentar?
— Vou dizer apenas uma coisa: melhor o diabo que conhece, do que o que não conhece.




 Continua ...