Mini fic - Ambitious - CAPÍTULO CINCO

Maratona 2/5

DEMI resmungou um palavrão, quando as portas do elevador se abriram. Estava no escritório, pronta para começar o trabalho, quando Joe ligara, exigindo sua presença no escritório dele. Não, não iria ao dela. E não, aquilo não era negociável.
Nem mesmo tivera a decência de dar detalhes sobre o assunto; assim, é claro, a curiosidade despertara e decidira ir. Mas apenas depois que Thad lhe comprara a maior caneca de café, para ela levar sua dose diária de cafeína. Passou pelo corredor e observou o piso de mármore cor de caramelo e as obras de arte nas paredes. Era muito parecido com a casa de Joe. Opulento e exagerado, diferente de qualquer outro edifício comercial que já vira.
No dela, usara a abordagem zen. Pisos de bambu, pequenos jardins de areia. Era um pouco clichê, mas sentia que tornava a atmosfera de trabalho relaxante.
Andou em direção à recepção, o balcão de madeira escuro, muito enfeitado no fim do corredor, satisfeita com o som duro de seus saltos no piso. Era a parte favorita do estilo que adotara alguns anos atrás. Todos aqueles sapatos negros, tão sexies. A forma como os passos soavam nas calçadas ou nos pisos de madeira dura, á faziam se sentir poderosa. Confiante.
Especialmente depois que aprendera a andar de saltos altos, sem cair de cara no chão.
Aproximou-se do homem sentado atrás no balcão de recepção. Foi uma surpresa. Imaginara que Joe teria uma coisinha bonita como assistente. Mas não, era um homem de meia-idade vestido de terno e gravata.
— Oi, vim ver Joe. Ele está me esperando.
— Sra. Lovato.
— Sim Demi Lovato.
— Já sei. — Olhou de volta para o computador e digitou alguma coisa.
— Se estiver procurando uma hora marcada não vai encontrar.
— Não, estou apenas mandando um e-mail, só um segundo.
Ela bufou.
— Vou entrar.
— As portas estão trancadas.
Ela apenas começou a andar sem olhar para trás. Percorreu outro corredor até chegar a duas portas duplas.
— O que ele acha que isto é? A Capela Sistina? — Tentou abrir as portas. Estavam trancadas. Joe idiota.
Bateu com força.
— Sim?
— É seu encontro dos sonhos, Jonas, abra logo.
Ela ouviu os passos pesados, e então as duas portas se abriram
— Jerry foi difícil com você?
— É esse o nome dele? Sim, me tratou como o inimigo no portão.
— Bem, ele não deve ter visto as notícias desta manhã. Ou viu e está com medo de você tentar me seduzir para arrancar segredos de mim.
— Eu? Arrancar segredos de você com sedução?
— Você é bem femme fatale, especialmente com toda esta roupa preta.
— Sim, tudo pronto para a espionagem corporativa. Posso entrar?
Ele deu um passo para o lado, ela entrou. O escritório era tão opulento e exagerado como o resto do edifício, com mármores e madeiras, peças de arte e vasos. E ali havia até um tapete muito oriental e luxuoso. Ninguém podia acusar Joe de ser minimalista.
Ela se sentou numa das poltronas largas de couro, diante da escrivaninha.
— Então, o que é tão importante para me fazer atravessar a cidade, antes de tomar meu café?
— Você viu as notícias?
— Estive ocupada. — Estivera evitando-as. Depois do escândalo causado pelo encontro anterior, ficara apavorada com o que os jornais diriam. E realmente não queria ver fotos suas com ele.
— Então deixe que lhe mostre. — Sorrindo, pegou um tablet, abriu-o e mostrou as manchetes, desde publicações tradicionais de notícias até blogs sobre o caso ardente entre Demi Lovato e Joe Jonas.
O calor lhe tomou o rosto quando viu as fotos. Cada artigo tinha mais de uma, reveladoras, sexuais. E a expressão no rosto de Demi era sincera demais. Lá estava ela; pressionada contra a parede, os braços em torno do pescoço de Joe, os lábios fundidos. Tinha que admitir que eles eram um casal quente.
— Bem. Uau.
— E isto nem é a melhor parte.
— Oh! Puxa.
— As conversas nos fóruns on-line e nos blogs, não são tão negativas como as de ontem. Há rumores de uma possível grande fusão. Já estão até especulando sobre como será o bebê produzido pela Anfalas e a Datasphere.
— Mas não há um bebê.
— Barrows será o bebê. O GPS. Pode imaginar o sucesso desse produto quando for lançado? É melhor do que imaginamos.
Não parecia melhor. Estava ficando tonta.
— Você sabe como espalhar um boato, não sabe?
— Não sou só eu. Na era da mídia de massas, estas coisas se espalham numa velocidade inacreditável. Mesmo se são especulações e meias-verdades, as pessoas acreditam como se fossem os evangelhos. E uma vez soltas assim, não é possível apagá-las. Tudo o que pode fazer é usá-las a seu favor.
— Você é o mestre nisso, não é? — Pensou na biografia e em todos os segredos que havia revelado. Perguntou-se se algum deles era verdadeiro.
Parecia fantástico demais para ser real. Não podia ser verdade. Menino de rua em Roma, mal sobrevivendo, conseguindo fazer conexões. Ter encontros com mulheres ricas, manipulando-as pelo dinheiro. Então economizando, investindo, fundando uma empresa e se tornando um dos homens mais ricos e poderosos do mundo.
Sim, inacreditável. No entanto, Joe jamais negara os rumores. Nunca dissera nada sobre eles. Nunca parecera afetado por eles. Apenas sorria, aquele sorriso Jonas para o jornalista que perguntasse. Não confirmava e não negava. E os rumores o tornavam mais popular. As mulheres o amavam e a ideia de que usara o corpo para conquistar o sucesso, apenas o tornava mais interessante. Raro era um gênio da computação com um corpo como o de Joe e considerado um homem muito sexy.
— Não sou um principiante, é verdade. E tudo está saindo como planejado. Agora o que precisamos é criar um produto para fazer a proposta a Barrows.
— Oh, isso é tudo.
— Somos duas das melhores mentes do mundo, sei que podemos pensar em alguma coisa.
— Ou matar um ao outro tentando.
— É uma possibilidade.
Ela mordeu o lábio enquanto pensava no que precisava pedir a ele. Quando tudo terminasse, voltariam ao que eram antes. Mas tinha que dar prosseguimento ao plano atual. O futuro que cuidasse de si mesmo.
— Tenho uma coisa. — Tentou parecer casual. — Um evento. E o convite é para Demi e acompanhante; achei que podia ser o acompanhante desta vez.
— O que é, exatamente?
— O casamento de uma executiva da empresa. É um acontecimento enorme, e se não formos juntos depois de tudo, podemos estragar as coisas. Se for sozinha, as pessoas farão perguntas. — Percebeu pelo silêncio dele que não estava entusiasmado.
— E por que não me convidou ontem?
— Estava pensando numa forma de evitar. Fracassei.
— Não há saída agora, cara mia.
— É evidente, e é por isso que o estou convidando agora.
— E quando é o casamento?
— No próximo fim de semana.
— Sábado ou domingo?
— Todo o fim de semana.
— E por quê?
— Porque teremos que viajar.
— Para onde?
— Algum lugar no Alaska.
— Quem vai ao Alaska para se casar?
— É num lindo resort. E a família da noiva é de lá.
— E quer ir comigo para o Alaska para o fim de semana. Como um casal?
— Bem. Sim Vamos lá, Joe, sabe que se for sozinha, haverá mais problemas do que se formos juntos. Há todo este falatório on-line, e quando fizermos a proposta a Barrows, ninguém se surpreenderá. Na verdade, todos estarão ansiosos para conhecer o bebê que resultará da nossa união.
— Verdade.
— Diga seu preço. Posso deixar o dinheiro sobre sua mesinha de cabeceira a cada manhã. — As palavras flutuaram no ar e não como ela tencionava. Tentara fazer uma brincadeira e a coisa se tornara idiota. Balançou a cabeça. — Ah, fui grosseira. Desculpe, não tive a intenção.
— Não se desculpe, cara mia. — Sorria, mas havia alguma coisa assombrada nos olhos dele e Demi não gostou. Mas logo desapareceu. — Foi só uma brincadeira.
— Certo.
— E é claro que irei ao casamento com você. Mas entende que teremos que partilhar um quarto, não entende?
— Talvez possamos alegar que somos antiquados e dormimos em quartos separados?
— Ninguém acreditará e isso levantará suspeitas. Há mais de um quarto numa suíte, não há?
— Bem, não. Porque todas as suítes já estão reservadas.
— O quê?
— Quero dizer, tenho uma suíte, mas é do tipo de um quarto só.
— E como isso aconteceu?
— Reservei a melhor suíte para o casal de noivos e as demais para os pais do noivo, os da noiva e suas famílias. E só sobrou a que reservei para mim
— Você é generosa a ponto de se prejudicar, cara. Mas já vou avisando que dormirei no sofá.
Joe observou o rubor de Demi se aprofundar. Ainda estava mortificada com a gafe. Era uma pessoa rara, que reagia profundamente ao fracasso e ao sucesso. Apesar da armadura, suas emoções eram visíveis. Mas não a confortaria. Não era tarefa sua fazê-la se sentir bem. Ela não conhece seu passado. Não tinha importância.
Mas uma fisgada lhe mostrou que importava. Não gostava que as pessoas pensassem que manipulara mulheres e lhes tomara a fortuna, seduzindo-as. Mas a verdade era pior; a manipulação não tinha sido feita por ele. Mesmo assim, a brincadeira idiota era perto demais da verdade. O que havia entre eles era comércio, não de favores sexuais, mas a linha era fina. Aquele beijo provara. Ela ficara afetada, sabia. Ele não. Tinha sido interessante beijá-la. Inexperiente e desajeitada, entusiasmada de uma forma que nunca experimentara.
Mas na verdade, tinha sido exatamente como no passado. Quando tivera que fazer coisas para sobreviver, quisesse ou não. Quando tivera que usar seu único atributo para ir em frente. Era inteligente, mas sem educação formal. Um trabalhador braçal, incapaz de arranjar trabalhos que realmente lhe dessem a riqueza que queria. Então conhecera Claudia e tudo havia mudado.
Se você quer ganhar dinheiro, caro, use o que tem. Por que passar fome se tem uma coisa que as pessoas querem comprar? Um belo corpo. Mulheres pagarão para usá-lo e você ficará rico.
Sem mencionar o lucro dela. Mas no fim tivera razão. Ele ficara rico. Investindo bem o dinheiro que ganhara. Para conseguir fazer aquele tipo de trabalho, aprendera a separar a mente do corpo. Dividira-se em dois. Era a única forma de não se sentir mal demais. De sobreviver à vergonha. Assim, construíra muralhas em torno de si mesmo. E agora era uma segunda natureza. Acendia e apagava quando desejava. Tinha sido um observador casual do beijo com Demi e ela participara ativamente. De novo, nada incomum para ele, mas lhe deixara um gosto ruim na boca.
Era por isso que evitava relacionamentos. Porque, embora fosse capaz de separar corpo e mente, não conseguia reuni-los. Era tudo uma transação. Tudo sobre vender e receber o pagamento.
Sete anos depois, aquilo ainda o fazia sentir como se estivesse coberto de sujeira. Sentir que seu corpo pertencia a outras pessoas. Como se fosse um produto a ser usado para o prazer da compradora. Ainda sentia que suas antigas clientes eram donas de pedaços dele. Como se tivesse sido cortado, dividido e vendido. Mas não na mente. Não possuíam nada de sua mente, apenas seu corpo. E não queria voltar lá. Por isso deixara totalmente de lado o prazer físico.
Mas Demi era uma mulher normal, que se sentia afetada por seu toque, o que significava que precisava ser cuidadoso. Não usaria o corpo dela contra ela. Havia profundezas de maldade nas quais não mergulharia. Ele a usaria do mesmo modo como ela o faria. Mas em termos de desejo sexual, estavam em campos diferentes demais e ele nunca, jamais, faria com ela o que haviam feito com ele. Jamais usaria o corpo de Demi para seus próprios objetivos. Porque podia. Seria tão fácil...
— Bem, é um alívio e muito cavalheiresco me dar à cama.
— Presumo que vai pagar pela suíte.
— Mas você é meu acompanhante.
— Sou seu convidado. É seu nome que está no convite. E, como vai pagar a conta, tem o melhor lugar. Mas se quiser que eu pague.
— Posso pagar, Joe, ou não sabe que sou a mulher mais rica do mundo?
— Sei, foi um artigo interessante.
— Bem, posso pagar um quarto de hotel. E quero a cama.
— Também posso pagar.
— Eu sei, também li o artigo sobre você. E ei, andou lendo sobre mim? — A expressão no rosto dela era engraçada, um misto de insegurança e prazer. Demi era uma esperta mulher de negócios, mas havia alguma coisa sob a superfície da armadura. Uma coisa brilhante, jovem, excitada, sonhadora.
Perguntou-se por que ela escondia essa parte em couro negro. Porque tentava fingir ser blasé e sofisticada quando não era. Perguntou-se o que a levara a usar a armadura.
— Comecei a ler um artigo e descobri que era sobre você.
— Certo, fiz a mesma coisa. Parece que tivemos um grande sucesso.
— Tivemos.
— Bem, está na minha hora. Vai precisar de mim para alguma outra coisa esta semana?
— Acho que não. Só vamos fazer a proposta dentro de duas semanas.
— Ótimo, então vou deixar tudo pronto na empresa, para uma ausência de alguns dias. Até o casamento.
Ela se virou e saiu; os passos longos e firmes, os cabelos louros deixando um perfume de lavanda no ar. Qualquer homem comum certamente estaria planejando seduzi-la no fim de semana. Mas ele não era um homem normal e sedução não estava em sua agenda. Aquilo tudo era sobre negócios. E não precisava mais usar o corpo. Se necessário, usaria, mas aquilo lhe arrancaria outro pedaço da alma. Portanto, bloquearia tudo. E agora, mesmo quando queria sentir alguma coisa, tudo o que restava era um vazio escuro e profundo. Havia afastado a dor e, com ela, tudo o que era bom. Olhou em torno do escritório, viu a evidência do que conseguira e achou que valera a pena.

 Continua ...


Mini fic - Ambitious - CAPÍTULO 4

Oi gente :)
Tudo bem com vocês?? Bom hoje como prometido irei começar a maratona. Não vou postar os capítulos muito rápido hoje, porque tenho prova na faculdade e eu estou estudando, então mais o menos de 2 em 2 horas terá um capítulo novo ok?


MARATONA 1/5


EVENTOS beneficentes, era o inferno da existência de Joe. Um brilhante e luxuoso salão de baile de um hotel cheio de pessoas feias por dentro, que se sentiam importantes demais. Pessoas que manipulavam e usavam outras menos afortunadas, para seu prazer durante o dia e frequentavam coisas como aquela, a fim de mostrar seu altruísmo para a imprensa.
Lembrava-se bem da primeira vez em que estivera num salão como aquele.
Odiando com quem estava. Odiando ter que sorrir e fingir que gostava do que estava sendo pago para fazer. Não. Os tabloides, e o autor de sua biografia, não tinham a menor ideia da profundidade de maldade em que havia mergulhado.
Olhou para Demi, que lhe segurava o braço como se fosse um salva-vidas, o sorriso rijo, e se perguntou se agora as coisas eram tão ruins. Não, não eram. Isso beneficiava Demi também. Era uma troca. Como sexo por dinheiro? Inferno, não. Não era a mesma coisa.
E por que diabos; estava pensando naquilo? Raramente pensava, contudo estava acontecendo mais depois que ele e Demi, fizeram aquela aliança maldita. Ninguém sabia a verdade. Acreditavam que ele subira, dormindo com mulheres ricas e mais velhas em seus dias de juventude. Mas não sabiam tudo. Os boatos o seguiam, aborreciam-no porque estavam perto demais da verdade. Mas faria o mesmo caminho mil vezes para chegar aonde estava agora, porque tinha o direito ao sucesso. Arrependimentos eram para os fracos. E não perderia mais tempo com aquilo. Fechava-se, assim como fechava a sensação de fome e frio, que experimentara quando era uma criança de rua. Como fechava a vergonha e a dor depois de fugir da sarjeta onde estivera, sendo levado para um mundo horrível e brilhante, que exigira sua alma em troca de comida e uma cama quente. Em troca do sucesso. Como fechava o desejo agora, para evitar pensar sobre aquele tempo em sua vida.
E aquela noite fecharia o resto de consciência que ainda tinha, e iria em frente. Porque era a melhor coisa a fazer. Porque o fim sempre justificava os meios. E porque não era mais o garoto que havia sido. Era um homem com poder. O que significava que venceria no fim
Enquanto andavam pelo salão, eram seguidos por uma onda de sussurros. Todos os observavam. Todos estavam interessados.
— Tente relaxar — murmurou para Demi.
— Estou relaxada.
— O que mostra que você realmente não sabe como relaxar. Está tensa. Está praticamente tremendo.
— Tenho muita energia.
— É mesmo? Então devemos usá-la. — Soltou o braço, tomou-lhe a mão, enlaçou os dedos e a puxou para a pista de dança.
— Por que quer dançar?
— Porque as manchetes serão sensacionais. — Puxou-a contra o peito e sentiu-lhe o corpo estremecer ao seu toque. Não era atração. Parecia apavorada. — Não vou morder.
— Eu sei. Mas vou parecer uma idiota.
— Siga minha liderança.
Ele começou a dançar no ritmo da música, guiando os movimentos de Demi. Ela se segurou no ombro dele, as unhas mergulhando em Jonas através do tecido do paletó. Isso também era familiar, uma lembrança do passado. E no entanto, parecia diferente. Ela tropeçou e lhe pisou no pé. Ficou ruborizada.
— Desculpe.
— Está tudo bem. — Continuou a dançar e ela tropeçou de novo, o rubor aprofundando.
— Isto realmente não é a minha praia. As pessoas estão olhando.
— Provavelmente gostam da nossa página na internet. Somos infames agora, não apenas famosos.
— Já não éramos?
Ele sorriu.
— Sim. Bem-vindo ao lado escuro.
— Não tenho certeza se gosto de ter me juntado a você aí.
— Então sempre teve uma consciência limpa antes de se associar a mim?
Ela desceu as pálpebras.
— É claro.
— Eu a faço se sentir suja, Demi?
Ela ergueu a cabeça, os olhos redondos, o rosto rosado. Conseguira chocá-la. Desequilibrá-la. Não sabia por que precisava fazer aquilo. Para provar que ainda estava no controle? Talvez. O controle parecia fraco com ela em seus braços, a pele suave sob a palma da mão. Mas aquilo era apenas um jogo, como tantos outros de que já participara. Não tinha nada a ver com ele, com o que queria. Nem mesmo importava o que ela queria. Tudo o que interessava era o que a imprensa queria ver. E a imprensa queria um espetáculo que ele garantiria que tivessem.
— Agora que mencionou, senti que minhas mãos estavam sujas cada vez que tive uma associação com você.
— Eu perguntaria como é sentir que vendeu a alma por dinheiro, mas já sei.
Os olhos dela cresceram e a boca se abriu. Ela parecia tão doce. Não na personalidade, mas como se seu sabor fosse o de uma deliciosa sobremesa. Não precisava se perguntar qual seria o gosto dos lábios dela, mas não podia continuar lá, com Demi olhando para ele com aquela expressão. Era a hora do show. Parou e levou a mão ao rosto dela. Sua pele era macia. Quente. Então ele se debruçou e ela endureceu um pouco sob o toque dele.
— Venha comigo à varanda. É muito mais privativa.
Passou a mão carinhosamente pelas costas dela e levou-a para as portas da varanda fechada que se debruçava sobre o oceano.
— O que está fazendo?
— Poupando você do constrangimento de dançar, dando ao público o que querem. O que é melhor do que sermos vistos na pista de dança? Sermos vistos fugindo para um pouco de privacidade. — Olhou para o salão e percebeu que o movimento deles havia sido seguido por uma mulher que demonstrava interesse demais. — Já atraímos a atenção dos paparazzi. Se não me engano, uma mulher está tirando fotos com um OnePhone.
— Dez pontos para mim
Deu um passo em direção a ela, que recuou até ficar com as costas contra a parede.
— Beije-me — ordenou ele.
— O quê?
— Estamos aqui numa varanda escura e há apenas um motivo para isto.
— É mesmo?
— Sim Quero você. Não consigo manter minhas mãos longe de você e precisei nos afastar de todos para me entregar às minhas fantasias, para fazer o que quiser com você.
— Oh?
— Sim. Demi, só há uma coisa que pode levar dois rivais históricos aos braços um do outro e é o tipo de luxúria que não segue regras. Um tipo de paixão que desafia a lógica e a razão. O tipo que nos verá fugindo da pista de dança, para um lugar onde possamos ficar sozinhos.
A boca e a garganta de Demi secaram. Homem nenhum, nunca, olhara para ela com a intensidade com que Joe a observava agora. Seu acompanhante do baile, Michael, a encarara com uma espécie estranha de raiva e agressividade. Mesmo enquanto a beijava à força, não era por luxúria ou atração, mas pela necessidade de dominá-la. De ser dono dela. A tentativa de estupro não tinha relação com o desejo sexual. Ele tinha sido violento. Odioso e insultuoso. Apavorante.
Joe não olhava daquele jeito. Era ardente e interessado, cheio de intensidade. Desejo. Como se a olhasse e realmente a visse. E sabia que era parte do jogo. Sabia que Joe ligava e desligava o charme, que sabia tudo a respeito de sedução. Era um amante legendário. De acordo com o livro, as mulheres arriscavam tudo apenas para ficar com ele. Sentir seu toque. Estar em sua cama. E ela quase conseguia entender.
Ele estendeu a mão e lhe traçou a linha do queixo com a ponta do dedo.
— Beije-me, Demi.
— E se eu não quiser? Nem mesmo gosto de você.
— Não precisa gostar de uma pessoa para querê-la.
— Eu preciso.
— Pense em todas às vezes que atrapalhei seus planos, todas às vezes que meu novo sistema de computador vendeu mais que o seu. E pense em como gostaria de me bater. Pense em como interrompi sua apresentação. Agora, canalize tudo num beijo. Compreende?
Ela estava tremula. Ele se debruçou, os lábios lhe roçando a orelha, a respiração quente no pescoço.
— Pense em como a irritei. E então me beije como se fosse meu castigo. — O dedo desceu para o lábio inferior de Demi, traçou-lhe o contorno da boca.
As palavras dele acenderam uma chama no corpo dela. E a fizeram esquecer tudo. Esquecer os beijos que machucavam e doíam. Esquecer que era ridiculamente inexperiente para uma mulher da idade dela. Esquecer tudo, menos o desejo de seguir suas instruções. Até mesmo a fizeram sentir que a ideia era dela, porque queria aquilo. Como a fizera querer? Nem mesmo se importava. Tudo o que haviam planejado, dependia do fato de que o calor da paixão que havia nascido do ódio, poderia ser facilmente transformado em atração. E no momento, parecia ser verdade.
Ela colocou a mão na nuca de Joe, a palma formigando com o contato com a pele dele. Não sabia beijar. Só esperava não ser desajeitada demais. Então se debruçou e comprimiu os lábios nos dele e percebeu que não importava se sabia ou não beijar, porque isso não era nada que conhecesse.
Pensou em todas às vezes que tivera ódio dele, e isso, combinado com a pressão dos lábios nos dela, construiu um fogo tão intenso em seu sangue, que teve medo de sair do controle. Segurou-se nele, os dedos mergulhados nos cabelos macios. Ele a abraçou pela cintura e a puxou contra o peito musculoso. Então angulou a cabeça, aprofundou o beijo, a língua escorregando sobre a dela. Não havia como um fotógrafo ver aquilo, mas ela não se importou. Especialmente quando mergulhou a língua em sua boca e sentiu o gosto dele, então mordeu com força o lábio inferior. Sua punição, como ele pedira. Importou-se ainda menos, quando o movimento despertou um rosnado profundo, feroz no corpo dele e o beijo dele se intensificou.
Ela arqueou contra Joe, pressionou os seios em seu peito. Até não conseguir mais pensar. Até a raiva, a confusão, a situação enganosa, se dissolverem numa mancha enorme de desespero e paixão que apagou tudo. Sentiu um impulso quase irresistível de tirar as mãos dos cabelos dele, descê-las por seus ombros, seu peito. Apenas para saber como era sentir seus músculos. Saber como era tocar um homem tão perfeito. Mas não fez nada, principalmente porque temia que se mudasse as posições em que estavam, se transformaria numa poça. Quando ele ergueu a cabeça, Demi sentiu como se tivesse corrido uma maratona.
— Isto deve ser o suficiente. Acho que não deixará dúvidas sobre nosso envolvimento pessoal. E tenho certeza de que algumas fotos foram tiradas.
— Ah! — Foi tudo o que conseguiu dizer. Seu cérebro parecia ter esvaziado.
— E, ainda melhor, é o momento certo para partirmos, já que deixamos evidente que temos outras coisas em mente.
— Certo.
— Está tudo bem?
— Ótimo. Só que acabamos de chegar e ainda tenho que fazer um cheque.
— Temos que trabalhar pela manhã.
— Eu sei.
— Esqueci, você nunca fica sem energia.
Mas ela se sentia estranhamente cansada no momento. E nervosa. Não sabia por que havia reagido a ele daquele jeito. Não gostava dele e não deveria ter sido tão afetada por seu beijo. Mas se sentira.
— Não me importo de dormir tarde.
— Eu também não; foi só uma justificativa. Não gosto deste tipo de evento.
— Por quê?
— Lembranças antigas. O passado nunca foi meu lugar favorito.
Ele parecia gelado e ela se assustou.
— Bem, o meu também não. O ensino médio foi um horror. Tinha aparelho nos dentes, usava óculos de lentes grossas.
— Parece ter sido horrível. — Mas não havia convicção na voz dele. — Precisamos mesmo ir.
Ele realmente não fazia ideia do que era ser uma pessoa esquisita, não só na escola, mas em casa também. E a mãe pagar a um cara pelas costas dela, para sair com ela. E o cara ainda estar com a nota de vinte que sua mãe lhe dera, quando tentou forçá-la fazer sexo, batendo nela quando disse não. Não, ele não sabia e não precisava saber. E que aquilo a fizera perder a confiança nas pessoas.
Demi acenou, ele passou o braço dela pelo dele e voltaram ao salão de baile, onde sentiu todos os olhos neles. Haviam passado 15 minutos na escuridão da varanda e agora Joe a puxava pelo salão como se não pudesse esperar nem mais um segundo. Oh, sim, haviam conquistado todos aqueles olhares.
Não tivera muitos encontros, assim foi uma experiência interessante estar de braços com um homem como Joe. Bem, desde que se tornara uma bilionária, tivera muitos homens atrás dela. Eram sempre os mesmos. Bonitos, idiotas, preguiçosos e não sabiam nada sobre a trilogia O Senhor dos Anéis. Em resumo, não valiam nada.
Mas não contavam. Nem mesmo tinham a decência de querê-la por seu corpo, apenas por seu dinheiro. E isso não era nada excitante. É claro, o beijo exibicionista com Joe também não devia ter sido excitante, mas fora. Esperava que seu rosto quente, não estivesse tão vermelho como temia e seguiu Joe para fora do salão de baile e a limusine que esperava.
— Bom trabalho, Jonas, enviou uma mensagem de texto para seu motorista?
— Não, tenho um App que envia um alerta, quando preciso que ele me apanhe. Até lhe dá minha localização, se estiver num lugar diferente de onde me deixou.
Ela entrou e ele a seguiu.
— Oh, como se tivesse parado num bar ou qualquer coisa assim?
Ele sorriu malicioso.
— Qualquer coisa assim
Oh. Sim. Aquilo. Um quarto de hotel com alguma mulher. Estranho, dada sua reputação como amante, não era fotografado com mulheres com muita frequência.
— Certo.
— Agora, não pareça ciumenta, cara, aquelas mulheres não significam nada. — Não era sincero. Nem mesmo tentava parecer sincero, mas seu coração não parecia se importar.
Ela se recostou e cruzou os braços. Não queria sentir a tentação de tocá-lo.
— É impressionante quanto lixo você tem.
— Perdão?
— O sorriso. — Imitou o sorriso vazio. — As palavras sem significado. Você é muito bom nisso, Joe. É fácil esquecer que é tudo fingimento e que você é apenas uma casca vazia sem coração nem alma.
— Ah, você me entende bem — Ainda sorria, ainda a olhava como se ela fosse a única mulher no mundo. — Aconselho-a a se lembrar de suas palavras, porque vai precisar delas. Sou um homem sem consciência e precisa se lembrar sempre.
— Não se preocupe, Joe, não vou esquecer. Não confio em homens. Aliás, em ninguém. Não vou falhar com você.
Mas com aqueles olhos escuros presos aos dela e a lembrança daquela boca ainda queimando a sua, temia que se não se cuidasse, poderia esquecer. Seria bom fantasiar com o homem. Era melhor que qualquer realidade que tivera. O importante, no entanto, era se lembrar de que era apenas fantasia. E que quando aquela situação terminasse, Joe Jonas voltaria a ser seu pior inimigo.



CONTINUA ...

MINI FIC - AMBITIOUS - CAPÍTULO 3

Que tal uma maratona amanha ou sexta?? Deixem nos comentarios se você querem ou não :)


— ESTÁ ocupada esta noite?
Demi franziu a testa quando ouviu a voz em seu celular pessoal.
— Como conseguiu este. Oh, deixa pra lá. Vou adivinhar. Você invadiu o duto do edifício, desceu, procurou na minha escrivaninha até achar meu celular, então roubou o número e voltou pelo caminho pelo qual entrou.
— Não. Que desperdício de energia. Liguei e consegui o número com seu assistente.
Demi lançou um olhar furioso a Thad, através da parede de vidro.
— Por que ele faria isso?
— Presumiu que um telefonema meu seria importante. E como sou agora seu amante... — O modo como ele disse a palavra fez a pele de Demi arrepiar. — Naturalmente vou precisar falar com você dia e noite.
Ela odiava saber que ele estava certo. Odiava ter concordado com tudo aquilo, mas realmente queria o contrato da Barrows, mesmo se tivesse que fazer um acordo com o diabo. Não estava feliz, mas disposta. E uma vez o produto lançado, Joe não seria mais seu problema. Não teriam que trabalhar juntos na criação do sistema de navegação, não depois da fase de design. Podia sobreviver a ele. Tinha o controle. Não era como ser toda produzida no vestido mais feio do mundo e ser mandada para um baile com um cara que havia sido pago para ser o acompanhante dela. Não, tinha interesse naquilo, tinha poder. E compreendia negócios.
— Certo, certo. Por que quer saber se estou ocupada esta noite?
— Imaginei se gostaria de ir à première de um filme comigo.
— Uma première? De quê?
— Cold Planet será lançado esta noite e tenho um convite para Joe Jonas e acompanhante.
Por um segundo ela se esqueceu de bancar a gelada.
— Não me diga! O filme deve ser maravilhoso.
— Acha?
— É como um sonho de ficção científica que tive na infância, se realizando na tela! — Era tarde demais para esconder seu entusiasmo. Estava sempre fazendo aquelas coisas consigo, mesmo quando havia sido ensaiada por profissionais sobre como se comportar em público.
Pessoas normais não ficavam excitadas por filmes, mas geeks sim. Deixava os outros desconfortáveis e ninguém estava interessado. Isso era o que sua mãe lhe dissera. Todos os dias. Desde que tinha 5 anos e falava como queria usar em carros, os sistemas de navegação de uma nave espacial de um filme futurista.
Tinha sido um constrangimento para os pais. Falando sobre assuntos esquisitos o tempo todo, sem controle sobre sua excitação e entusiasmo. Torná-la normal havia sido o objetivo de vida de sua mãe. Queria tanto, que comprara um vestido de baile para Demi quando ela tinha 16 anos.
E aquilo tinha sido o fim. Nunca mais tentara ser normal. Contudo, aprendera uma coisa ainda mais importante naquela noite. Não havia proteção na normalidade. Mas mostrar quem era? Permitir-se ser vulnerável? Aquele tinha sido o pior erro de todos. Sobrevivera àquela noite horrível e se tornara mais forte. E quando tirara aquele ridículo vestido cor-de-rosa, que passara horas escolhendo, pusera a armadura que usava desde então. Joe estava certo sobre isso. E não gostava de saber que ele tinha razão.
No entanto, mesmo com a armadura, possuía alguns pontos fracos. Tentara muito não agitar aquela bandeira de geek. Não mais. Tinha um rosto público que era tão mais aceitável socialmente e a ajudava a enfrentar a mídia sem muitos problemas. O que era ótimo. Tivera muitos enquanto crescia. Cadela idiota, eu estou lhe fazendo um favor. Nenhum outro cara jamais a tocará.
Afastou a lembrança. Não tinha importância. Aquelas palavras, o toque de suas mãos, nada mais tinha importância. Seguira em frente. Mantivera a cabeça baixa e trabalhara muito, sem ligar mais para o que as outras pessoas pensavam
Era por isso que tivera sucesso. E com todo o dinheiro, contratara consultores que a ajudavam a parecer uma heroína de um jogo de vídeo, aprendera a falar com pose e confiança. Não era mais vulnerável. Embora a excitada Demi tivesse permissão para pular de entusiasmo sobre filmes e jogos, não podia jogar.
— Bem — disse ele. — Forneci alguns dos softwares usados para os efeitos especiais muito sofisticados e por isso recebi o convite.
Ela fechou a porta das lembranças e se concentrou no presente.
— Certo, fiquei com um pouco de inveja.
— Mas você não tem a tecnologia para esse tipo de coisa.
— Não. Tenho a tecnologia para pessoas comuns. E então, vou poder ir? — Não perderia aquilo por nada.
— Sim. Roupa formal. Mas, já que é um filme sci-fi, se quiser usar um biquíni dourado e uma coleira de escrava, acho que seria aceitável.
— Ha, ha, Jonas. Mas isso é Star Wars. Cold Planet é uma mitologia totalmente diferente. É baseado no jogo. — Fechou a boca. Estava fazendo aquilo de novo. — E dificilmente irei a um evento público numa fantasia.
— Vai ter que me contar mais sobre mitologias na première.
Estava zombando dela e merecia. Uma coisa era ficar diante de uma sala cheia de pessoas e fazer um discurso ensaiado, outra muito diferente era uma interação social que podia ser muito desagradável. Não tinha prática.
— Certo. A que horas?
— Eu a pegarei às 17h. Precisamos andar sobre o tapete vermelho, então assistir ao filme.
— Uau!
— Você parece excitada.
— Sobre o filme, sim
— Ótimo, vejo você às 17h. — E desligou.
Ela ligou para o assistente.
— Thad.
— Sim?
— Preciso de um vestido. Coisa quente. Peça a Ally para cuidar disso, por favor. E preciso fazer o cabelo.
— Formal? Para quando?
— Sim, e preciso estar na calçada diante do edifício às 16h50.
Thad suspirou. Ela sabia que o que pedia era quase impossível, mas ele tentaria.
— Como quiser.
— Ótimo. Obrigada. Você é o maior.
Desligou e descansou o queixo na escrivaninha. Então inspirou com força e endireitou o corpo. Tudo correria bem. Não pensaria em como estava mal equipada para aparecer numa première de Hollywood, na companhia de um homem como Joe. Não pensaria como era provável que deixasse cair um coquetel de camarão no decote durante a festa. Não. Ficaria relaxada e deixaria que os profissionais que contratara, a preparassem para enfrentar as câmeras. E pareceria bem. Pareceria forte. Dinheiro podia não comprar a felicidade, mas comprava a imagem que lhe permitia se apresentar bem em público.
Sim, ia ter um encontro com Joe. Mas não era um de verdade, felizmente. A última vez que tivera um encontro, havia sido um desastre completo. E o cara não era Joe Sexy Jonas. Não que soubesse o que era sexo. Mas Joe sabia. O rosto enrubesceu quando se lembrou de algumas partes muito reveladoras da biografia não autorizada dele. Não era apenas quente. Era o tipo de homem que fazia uma mulher perder a cabeça. Tinha sido o garanhão muito mais jovem de algumas mulheres no país dele, fazendo manchetes sobre desmanchar casamentos. É claro, presumindo que aquela versão de sua vida fosse verdadeira. E, como Joe dissera, ele nunca admitia nem negava.
Certo, faria aquilo. Aquela noite seria mais um boato para adicionar à lista de Joe. E não confirmaria nem negaria.
Quando a limusine de Joe parou diante do edifício de Demi, ele ficou atônito com a aparência dela. Estava cativante num longo vestido negro, mulher parecia não ter nada de outra cor, que chegava ao chão. As mangas eram longas e cheias, como um quimono, e o decote alto, revelando muito pouco da pele pálida. Os cabelos louros, estavam puxados para trás num coque baixo e frouxo, a maquiagem toda em tons de rosa claro e dourado. Os lábios estavam pintados com um rosa muito suave e aquilo despertou a mais estranha curiosidade nele. Uma fascinação sobre como poderiam parecer se fossem mais escuros e cheios com a excitação. Estranha porque nunca se sentia curioso sobre aquelas coisas. Sabia tudo sobre sexo. Não havia mistérios para ele.
Abriu a porta para Demi entrar e então ambos passaram o tempo de viagem em seus celulares, terminando o trabalho interrompido do dia.
Quando pararam diante do Grauman’s Chinese Theatre, as ruas já estavam bloqueadas. A limusine de Joe teve acesso imediato e foram deixados no começo do tapete vermelho. Aquele tipo de coisa nunca tinha sido seu aspecto favorito da fama. Gostava do dinheiro, não de dar sorrisos falsos, para pessoas ainda mais falsas.
Demi tinha a expressão mais entediada que ele já vira. Como se estivesse obrigando os lábios a ficarem rijos, forçando-se a não sorrir. Estava rija, a cabeça alta, a postura firme. Mas abaixo de tudo aquilo estava vibrando. A energia emanava dela em ondas, embora ninguém que não estivesse perto pudesse senti-la. Mas ele sim Ela tremia.
Parecia gostar de um espetáculo, suas apresentações eram tão ostentosas que pareciam irreais, mas então estava no controle. A mídia jogava de acordo com as regras dela. Talvez aquele fosse o motivo de sua inquietação agora. Puxou-a para ele, os dedos enlaçando os dela.
— Vamos andar sobre o tapete. — Sentia seus dedos tremerem sob os dele.
— Relaxe. Não seremos atropelados pela multidão.
— Você é atropelado com frequência, já vi fotos.
— Sim, mas não quando há estrelas de cinema por perto. Vamos. E se formos atropelados, será ainda melhor para nosso objetivo.
Puxou-a com ele e quando eles pisaram no tapete, ele acendeu o sorriso. Demi fez a mesma coisa e acenou para a multidão alinhada do outro lado do cordão de veludo, que separava os privilegiados das massas. Ela andava um pouco à frente, os passos rápidos e nervosos, e foi então que ele percebeu as costas do vestido, ou melhor, a falta delas. Tinha um decote baixo e largo, uma expansão de pele branca em exibição, que terminava um pouco acima da curva do traseiro.
Foi o choque que o fez querer tocá-la. Tinha certeza. Era um homem gasto demais pelo passado, para ficar excitado por um pouco de pele. Gasto demais para se permitir ficar excitado, a menos que fosse tarde da noite e precisasse dormir. Mas estava fascinado.
— Devagar — puxou-a para trás.
— Desculpe. — O sorriso ainda pregado no rosto. — Nervosa.
— Não fique. Lembre-se, estão todos aqui para vê-la. É você que está numa posição invejável. É linda. Tem sucesso. Todos aqui adorariam ser você.
As palavras saíam com facilidade, sem pensar, sem sinceridade. Era bom em fazer elogios. Em dar às mulheres exatamente o que queriam. Em manter a mente em outro lugar, enquanto dava tudo de seu corpo. Uma desconexão perfeita.
O sorriso dela mudou sutilmente, se tornou mais sincero.
— Isso é uma coisa muito linda de dizer.
— É verdade. — Não parou para pensar se era mesmo.
— Joe! Demi!
A cabeça de Demi se virou na direção do seu nome. Percebeu que Joe mantinha os movimentos sob controle, as emoções escondidas. Mas tinha muito mais dificuldade em controlar as dela. Nunca estivera na première de um filme.
As câmeras estavam voltadas para eles e ela continuou a sorrir, esperando que sua aparência estivesse impecável. Joe, por sua vez, estava imaculado em seu smoking preto, os cabelos curtos em perfeita ordem. O homem sempre parecia composto.
— Vocês estão num encontro? — Gritou um jornalista.
Joe apenas sorriu.
— Se você tem que perguntar, então, eu estou fazendo tudo errado.
— Demi, algum comentário?
— É melhor ser um encontro. Não quero ter que pagar meu jantar.
E todos riram enquanto ela se sentia bem por ter conseguido dizer alguma coisa. Seu cérebro parecia ocupado com o calor que lhe percorria a mão, na qual Joe a segurava e que subia para o braço, os seios e fazia os mamilos enrijecerem
Joe acenou, ela imitou o gesto, então entraram no teatro e foram conduzidos para suas poltronas. Joe a libertou assim que as luzes se apagaram
Ela reconheceu alguns dos rostos em torno.
— Acho que aquele é...
— Não encare, Demi, é grosseiro.
Ela lançou a Joe um olhar letal que ele não viu.
— Desculpe. Esqueci que somos blasés.
— Vai chegar lá.
— Acha?
— Eu sei. Sua vida perfeita ainda não lhe roubou a inocência.
— Você não tem ideia do que a vida me roubou.
Pela segunda vez no mesmo dia, pensou de novo naquela noite do baile. Por que estava pensando tanto naquilo? Não pensava mais. Afastara-se. Estava bem, os ferimentos sararam. E o que não havia cicatrizado, ajudara-a a perceber que precisava ser forte. Não se importava mais de não ser normal e aquilo tinha sido o começo de seu sucesso. Não suportava nem pensar no canalha que a atacara, mas também não estava se lamentando.
— Posso garantir que sabe menos sobre a minha vida do que pensa, Demi.
— Li a biografia.
Ele riu, um som sem humor nem calor.
— Como eu disse, sabe menos sobre mim do que pensa. Apenas porque está impresso, não quer dizer que é toda a verdade.
* * *
“O Fim do Mundo Tecnológico como o Conhecemos?”
A manchete parecia gritar para Demi do jornal que acabara de abrir em seu tablet. Joe estava no escritório dela, sentado numa cadeira diante da escrivaninha, como se tivesse todo o direito de estar lá.
— Não é exatamente a manchete que queríamos.
— Acha? — Ela passou os olhos pelo artigo, o estômago apertando. — “Ou é um golpe no progresso ou uma jogada publicitária” — leu em voz alta.
— Porque, se dormimos juntos, não competimos, e se não competimos, estamos fazendo um jogo?
— Há uma porção de palavrões rodando na minha cabeça. — Ela se levantou e andou de um lado para o outro. — O que vamos fazer? Está em toda parte. Na internet, Jonas, uma maldita página dedicada a do que estão nos chamando? — Olhou o artigo. — JulErro. Pelo amor de Darth.
— E, para todos que adoram esta pequena história: inimigos que viram amantes.
— Há a mesma quantidade de pessoas que nos jogam nas chamas dos infernos. Isso. Isso é maior do que antecipamos, não é?
Joe desejou ter antecipado aquilo, mas o fato era que a mídia social era difícil de prever. A imprensa era uma coisa, mas e a máquina dos civis? Completamente diferente. E a verdade é que aquilo saíra do mundo da tecnologia e estava na internet, dirigida pelas massas. Que eram totalmente imprevisíveis.
— Sim, é.
Não gostou da sensação de claustrofobia, de se sentir preso. Uma armadilha que ele mesmo montara. E tinha ido longe demais, não pela primeira vez.
— Certo. — Ela continuou a andar. — Vamos continuar e fazer disto o maior espetáculo de todos. E quando explodir, será a maior explosão já vista na mídia. E seremos muito mais interessantes depois disto. Pense a respeito, quando invadir outra de minhas apresentações, após terminarmos, as notícias serão mais sensacionalistas que nunca. É hipotético, não invada minhas apresentações de novo.
Demi podia usar armadura, mas era durona. Inteligente. Brilhante.
— É claro, vão esperar que passemos muito tempo juntos. A visibilidade é grande demais. Vamos lhes dar alguma coisa sobre a qual falar, porque, se não dermos...
— Teremos problemas.
— Para dizer o mínimo.
— Certo. Então, qual é o plano?
— Há um evento beneficente esta noite.
— Pretendia mandar apenas um cheque, mas acho que devemos aparecer, não acha? Como um casal.
Demi hesitou.
— Vamos lá, Demi, não desista agora.
— Não estou desistindo!
— Então por que esta expressão de animal encurralado?
— Porque até alguns dias atrás éramos inimigos jurados. Agora. Dois encontros públicos seguidos? Podia viver sem isto. Talvez este seja o motivo pelo qual o mundo da tecnologia e dos negócios, seja tradicionalmente um jogo masculino. — Não acreditava no que dizia, mas precisava lhe dar um motivo.
— Talvez porque mulheres sejam governadas pela emoção. — Sabia que não era verdade. Porque ele havia sido moldado por mulheres, que não davam a mínima para o que suas ações faziam com as emoções de um adolescente. Passara anos cercado por mulheres que viam as pessoas como peões, que agiam motivadas apenas por desejos egoístas. Que usavam pessoas para atingir seus objetivos. Mas o que dizia empurraria Demi na direção certa. Sabia que era o botão para ela.
— Está dizendo que não consigo fazer isto?
— É você que parece ter um problema. Estou disposto a fazer tudo funcionar. Você está?
Ela cerrou os olhos.
— Vou ignorar o insulto.
— Se quiser.
— Certo. Tem um encontro esta noite, Joe?
— Sim?
— Hum. Qual é o objetivo?
— Levantar fundos para adolescentes sem-teto.
— Ótimo. Vou levar meu talão de cheques.

 Continua ...


Capítulo 18. Joseph – O Segredo e a Culpa


ㅤㅤㅤㅤEu estava com muita raiva. Mas ao contrário do que sempre acontecia, eu estava com raiva de mim mesmo. Primeiro tinha sentido raiva de Demetria por pensar aquelas coisas de mim, mas depois percebi que ela estava certa e que eu não tinha lhe dado nenhum motivo para pensar o contrário. Então senti raiva de mim, por ser tão estúpido, por ter sido grosso com ela e a mandado ir pro inferno quando na verdade queria beijá-la novamente. Porque era só isso que eu tinha em mente desde ontem à noite. Desde meu encontro com Selena eu vinha imaginando como seria beijá-la e não tinha sido nada como pensei, mas mil vezes melhor. Eu nunca tinha sentido nada nem remotamente parecido com nenhuma das outras milhares de garotas que eu já beijara na vida. 
ㅤㅤㅤㅤEu queria ter os lábios dela nos meus de novo e dessa vez também queria sentir o corpo dela contra o meu. Queria que ela me tocasse e queria ouví-la suspirar a cada toque meu. E tinha raiva de mim por querer isso e por saber que nunca ia acontecer. Não devia ter significado nada, eu não deveria querer tais coisas. Eu não conseguia entender porque ela me fazia sentir isso, não sabia dizer como acontecera. Eu ficava diferente quando estava com ela, tinha vontade de me abrir e fazê-la me conhecer, queria de algum jeito poder provar para ela que eu era mais do que um garoto idiota que vivia bebendo e dormindo com qualquer uma.

ㅤㅤㅤㅤMas o problema era exatamente esse. Eu era esse garoto idiota que não ligava para nada, eu vinha sendo assim há muito tempo e não sabia se podia ser diferente, se podia me livrar dessa imagem e desse meu jeito. Mas ela me fazia querer ser diferente. Eu queria poder ser alguém por quem Demetria se apaixonaria. 
ㅤㅤㅤㅤE esse pensamento me assustou. Porque por mais que eu negasse, eu sabia o que estava acontecendo comigo. De alguma forma estava acontecendo e do jeito mais errado possível. Com a pessoa errada, no momento errado. Fechei os olhos e me abaixei no chão, querendo que todos aqueles pensamentos sumissem, querendo desaparecer. Querendo que minha vida não fosse uma completa droga e que não tivesse feridas no meu passado que me transformassem no garoto desprezível que eu era hoje. 
ㅤㅤㅤㅤ__Joseph?
ㅤㅤㅤㅤAbri os olhos assustado e percebi que tinha adormecido deitado no chão. Ethan estava de pé sobre mim, me olhando de uma forma muito estranha.
ㅤㅤㅤㅤ__O que foi?
ㅤㅤㅤㅤ__Porque você está deitado no chão? Ainda está de ressaca?
ㅤㅤㅤㅤ__Eu não estou de ressaca__ resmunguei me levantando.
ㅤㅤㅤㅤ__E você tem o costume de dormir sobre uma poça de baba quando está sóbrio?
ㅤㅤㅤㅤ__Eu não babei, cale a boca idiota.

ㅤㅤㅤㅤMas ele começou a rir e eu ri também, para espantar um pouco da tensão que estava me matando aos poucos. Espreguicei-me e fui tomar um banho e trocar de roupa. Sai do banheiro me sentindo muito melhor. Ainda não sabia o que fazer da vida, mas eu resolveria isso depois. 
ㅤㅤㅤㅤEncontrei Victória na sala, sentada em frente a um piano velho que estava ali há séculos e ninguém mais tocava. Ela passava os dedos sobre as teclas, sem realmente tocá-las. Caminhei até ela e sentei-me ao seu lado.
ㅤㅤㅤㅤ__Pensando em voltar a tocar?__ perguntei.
ㅤㅤㅤㅤ__Já faz muito tempo__ ela murmurou sonhadora__ não sei se ainda me lembro.
ㅤㅤㅤㅤ__Esse tipo de coisa agente não esquece.
ㅤㅤㅤㅤ__E você?__ ela me olhou de lado__ porque não volta a tocar?
ㅤㅤㅤㅤDei-lhe um meio sorriso e percebi naquele momento que fazia séculos que nós dois não conversávamos. Antigamente, compartilhamos esse gosto pela música que puxamos de nossa mãe. Ela tocava piano muito bem, era só um hobby para ela, mas ela nos ensinou a tocar, exceto por Ethan que não conseguia ficar quieto tempo suficiente para aprender qualquer coisa. Mas desde que nossa mãe morrera, nenhum de nós voltara a tocar em um piano. Não era mesma coisa sem ela.
Mas sentado ali, com Victória do meu lado, fui transportado por um momento para o passado. Imaginei que minha mãe estava de pé ao nosso lado, escorada no piano e sorrindo, me incentivando a tocar e antes que percebesse estava deslizando lentamente os dedos pelas teclas, tocando aquela eu costumava ser sua musica favorita. Victória sorriu para mim, e a visualizei como costumava ser antes, uma menininha de cabelos loiros, vestidos floridos e olhos inocentes e quando ela começou a tocar junto comigo, como costumávamos fazer, por um momento me senti bem, me senti como se estivesse novamente em casa. 
ㅤㅤㅤㅤ__Lindo.
ㅤㅤㅤㅤMe sobressaltei ao perceber que não estávamos mais sozinhos. A família inteira tinha se juntado a nossa volta para nos observar. Foi só nesse momento que percebi que meu pai já tinha voltado do hospital com a Daiana.
ㅤㅤㅤㅤ__Fazia séculos que não via vocês tocarem__ meu pai elogiou__ eu sentia falta disso. Essa era a música preferida da sua mãe, ela ficaria orgulhosa de ver vocês dois...
ㅤㅤㅤㅤ__Não fale dela__ antes que pudesse me conter a frase já tinha escapado, o antigo rancor voltando a superfície__ não fale dela assim como se sentisse saudade, como se não fosse culpa sua o fato de ela não estar mais aqui.
ㅤㅤㅤㅤ__Joseph... __ Ethan me repreendeu.
ㅤㅤㅤㅤ__O que? Eu sei que vocês pensam a mesma coisa, só não tem coragem de admitir.

ㅤㅤㅤㅤ__Sabe Joseph? Estou cansado dessa sua atitude__ meu pai disse__ eu relevei durante todo esse tempo porque sei como difícil perder a sua mãe. Mas você não é uma criança, está grandinho o suficiente para ficar me culpando por algo que não estava no meu controle.
ㅤㅤㅤㅤ__Você a expulsou de casa__ o lembrei__ eu estava lá quando você disse para ela nunca mais voltar, e tudo por quê? Porque ela se dedicava ao trabalho dela? Porque estava seguindo seus sonhos?
ㅤㅤㅤㅤ__EU A EXPULSEI PORQUE ELA MERECEU__ ele gritou perdendo a compostura__ SUA MÃE NÃO ERA A SANTA QUE VOCÊ PENSA. 
ㅤㅤㅤㅤ__Do que você está falando?
ㅤㅤㅤㅤEle piscou, como se tivesse acordado de um sonho e percebido que falara demais.
ㅤㅤㅤㅤ__Esqueça, eu não disse nada.
ㅤㅤㅤㅤ__Diga o que você tem para dizer__ eu ordenei__ fala agora. 
ㅤㅤㅤㅤ__Paul, não faça isso__ Daiana pediu.
ㅤㅤㅤㅤ__Não se meta__ eu gritei com ela__ isso não é da sua conta. 
ㅤㅤㅤㅤTodos ficamos em silencio por um segundo. Victória ainda estava sentada ao piano, parecendo congelada. Ethan tinha vindo até o meu lado, tentando me acalmar. Jason, Demetria e a gêmeas estavam com Daiana do outro lado sala, encarando de olhos arregalados.

ㅤㅤㅤㅤ__Isso não está certo, eu não vou falar mal de alguém que não está aqui para se defender.
ㅤㅤㅤㅤ__Você vai falar agora mesmo o que você tem para dizer__ eu segurei o braço__ o que você ia dizer da minha mãe? Fale de uma vez. Que mentira você tem para contar agora?
ㅤㅤㅤㅤEle exitou por mais um momento.
ㅤㅤㅤㅤ__Pai__ dessa vez foi Ethan quem o incentivou a falar.
ㅤㅤㅤㅤ__Eu não expulsei sua mãe de casa porque ela trabalhava demais__ ele finalmente confessou__ eu a coloquei para fora de casa porque ela estava me traindo. 
ㅤㅤㅤㅤ__O que?
ㅤㅤㅤㅤ__Paul__ Daiana o advertiu.
ㅤㅤㅤㅤ__Eles tem o direito de saber Daiana__ ele continuou a falar__ eu descobri que a mãe de vocês estava me traindo com um colega de trabalho, era por isso que ela passava tanto tempo fora de casa. Nós tivemos uma briga muito feia quanto descobri e ela quis ir embora, ia me deixar para ir morar com o amante e ia largar vocês também.
ㅤㅤㅤㅤ__Ela não faria isso__ Victoria sussurrou.

ㅤㅤㅤㅤ__Ela queria fazer. Mas eu a convenci a mudar de ideia, disse para ela ficar, para que conversássemos e tentássemos consertar nosso casamento por vocês, por nossos filhos. Eu engoli a humilhação e o meu orgulho por vocês, para que vocês não tivessem que sofrer. Ela me prometeu que largaria o amante e fingimos por mais alguns meses que estava tudo bem, até que eu descobri que ela continuava me traindo, que não tinha mudado nada e que a suposta viagem que ela faria a trabalho era um final de semana na casa de praia do amante dela. Então eu perdi a paciência e a mandei fazer uma escolha. O amante ou a família. Disse que se não terminasse com ele de vez, podia ir e nunca mais voltar. E ela escolheu ir. Ela não estava triste porque eu a mandei embora aquele dia, ela não bateu a droga do carro porque estava arrasada. Não, porque ela só fez aquele dia o que pretendia fazer á meses. Ela foi embora feliz e o único que estava sofrendo era eu. 
ㅤㅤㅤㅤUm silencio mortal recaiu sobre o recinto. Eu estava completamente paralisado, sem acreditar naquilo que tinha acabado de ouvir. Não era possível que aquilo fosse verdade, minha mãe nunca faria algo assim.
ㅤㅤㅤㅤ__Isso não é verdade__ Victória sussurrou__ mamãe nunca faria isso.
ㅤㅤㅤㅤ__Porque nunca nos disse nada?__ Ethan perguntou__ porque mentiu para nós?
ㅤㅤㅤㅤ__Porque eu não queria que vocês sofressem. Ela era mãe de vocês e morreu, eu não queria ofender alguém que já tinha morrido, que bem faria saber disso? Não mudaria o que aconteceu__ ele respondeu__ mas eu cansei de ser acusado de algo que não tenho culpa. Eu não mereço isso, tudo que eu fiz foi por vocês, eu me humilhei e sofri mais do que podem imaginar e vocês não tem o direito de me odiar por isso. Não por isso.

ㅤㅤㅤㅤEu estava completamente chocado, sem palavras. Senti minha visão ficar embaçada e percebi que tinham lágrimas escorrendo por meu rosto. Meu pai se aproximou e tentou me abraçar, mas me esquivei de seu toque e subi as escadas correndo, entrando em meu quarto. 
ㅤㅤㅤㅤAs palavras dela ficavam ecoando em minha mente, junto com lembranças de velhas discussões e outros momentos. Senti a raiva crescendo dentro de mim, sem ter muita certeza de quem ou do que eu estava com raiva naquele momento. Do meu pai? Da minha mãe? De mim mesmo? Eu não sabia, mas estava coberto de ódio. Comecei a tacar os objetos do quarto na parede e gritei, porque tudo na minha vida era uma droga e aparentemente uma grande mentira. 
ㅤㅤㅤㅤAgarrei um vaso de vidro que enfeitava a cômoda o taquei em direção a porta quando ouvi passos se aproximando, mas não era meu pai e sim Demetria. Ela gritou e se encolheu quando o objeto passou voando por seu rosto e se espatifou na parede, milhares de cacos de vidros se espalhando no chão. Ela me encarou de olhos arregalados.
ㅤㅤㅤㅤ__Desculpe__ sussurrei com a voz fraca, sentindo meu coração bater depressa no peito__ desculpe.

ㅤㅤㅤㅤEla se aproximou devagar, parecendo com medo de que eu surtasse e batesse nela. Respirei fundo quando ela parou na minha frente e segurou minha mão. Ela não disse absolutamente nada, só ficou ali parada junto comigo, esperando para ver o que eu faria ou diria. Me concentrei no seu rosto, nos seus olhos e deixei que a raiva fosse toda embora, saísse completamente de mim até só sobrar uma grande tristeza e então eu estava me desmanchando em lágrimas e Demetria me abraçou. 
ㅤㅤㅤㅤEu passara todo esse tempo odiando meu pai, culpando ele pelo que acontecera, quando na verdade minha mãe, a única pessoa no mundo que me entendia e me amava do meu jeito, era a pessoa de quem eu deveria ter raiva. Era ela a mentirosa, que pretendia nos abandonar. Saber disso doía, porque ela era a única certeza que eu tinha na vida. O amor dela era a minha única certeza e agora eu não tinha mais isso, não tinha mais nada. 
ㅤㅤㅤㅤDemetria se sentou na cama e me puxou para junto dela, sem dizer uma palavra, só me abraçou e me deixou chorar. Como eu tinha feito com ela algum tempo atrás. E ter ela ali do meu lado, mesmo que em silencio, me dando apoio, fez a dor ser um pouquinho menos insuportável. 

Fim do Capítulo