Mini fic - Ambitious - CAPÍTULO SETE

Maratona 4/5


Demi tentou afastar o arrepio que sentia, sempre que Joe estava por perto. Seria conveniente atribuir isso ao frio do Alaska, mas não seria verdadeiro, já que começara desde o beijo na varanda. Apertou o xale sobre os ombros. Vermelho, o que era incomum para ela, combinando com os sapatos e o batom, e um vestido negro, tudo fornecido por sua estilista com explicações explícitas. Assim como sobre todas as roupas que havia levado para usar durante o fim de semana.
Para seu horror, descobriu que seu assistente, que não sabia que seu caso com Joe era falso, havia providenciado roupas de dormir muito sensuais. Enviou uma mensagem de texto furiosa para ele, e a resposta tinha sido que o contato pele com pele, era a melhor maneira de evitar a hipotermia.
Joe esperava por ela no bar do restaurante do hotel, um copo de uísque na mão.
— Isto deve esquentá-lo.
— Quem disse que preciso esquentar?
— Você disse antes que não gostava de sentir frio.
— Acho que disse. — E sorriu, depois tomou o resto da bebida. — Vamos encontrar uma mesa.
— Claro.
A anfitriã surgiu e os levou até uma mesa num canto.
— Realmente gosto daqui — disse Demi depois de estarem sentados. — Parece um filme de fantasia. Posso imaginar anões comendo aqui. No entanto, deveria ser mais rústico e menos polido.
Se pudesse retirar aquela declaração estúpida e reveladora, faria isso. O que havia em Joe que a fazia revelar o que existia dentro dela? Talvez apenas não estivesse acostumada há passar muito tempo com uma pessoa, que não fizesse parte de seu círculo íntimo. Mas com Joe tentara manter sua imagem, porque ele era um dos inimigos e não queria que visse as rachaduras em sua armadura. E o próprio Joe parecia desumano, uma parede de puro granito, sem emoção.
E então ele a surpreendeu.
— Talvez devesse usar este ambiente como inspiração para um jogo do seu celular. Podemos nos coordenar e fazer alguma coisa em conjunto para meu celular também.
— Oh, seria divertido. Você pode construir um de seus mundos de fantasia e criar grandes cidades.
— E você criaria exércitos.
— Ou viveria em paz e caçaria e colheria. Acho que seria uma boa ideia. — Pegou o cardápio. — Está vendo? Paixão. Isso ajuda.
— Prefiro controle. As coisas não são ao acaso. São previsíveis, organizadas.
— Oh, mas Joe, assim nunca chega às alturas.
Alguma coisa nos olhos dele mudou, escureceu, e ele os dirigiu para os lábios de Demi. Ela os sentiu formigar apenas com o olhar dele. Bem, os lábios e algumas partes mais baixas... Nem queria pensar a respeito. Sobre como ele conseguia fazer aquilo. Com apenas um olhar
— Vou pedir o salmão — fez o possível para aliviar a tensão que apenas ela parecia sentir. — Embora me sinta um pouco desleal com meu amigo do saguão.
— Há alguma coisa impiedosa em você, Demi. — A voz era rouca. — E também vou comer salmão.
Ele colocou o cardápio sobre a mesa e se recostou, os olhos escuros jamais se afastando dos dela. Demi sentiu como se estivesse sendo caçada. Uma sensação estranhamente excitante.
— A impiedade é parte da paixão. Mesmo quando tomo decisões que vão contra o meu melhor julgamento, são nascidas da paixão. É evidente, ou não estaria aqui. Minha vontade de arruinar Hamlin, de promover minha empresa, meu bebê, bem, isso mostra bom senso. É a vantagem da paixão.
— Oh, há muitas outras vantagens na paixão.
— Há?
— Sim. A paixão é totalmente egoísta. É pessoal. E quando alimentada, torna-se mais faminta. Exige satisfação, não importa o custo. — Ela não conseguia tirar os olhos dos lábios dele. Hipnotizada pela forma como dizia as palavras. E como eram capazes de despertar seu corpo.
Paixão, como ele dizia, apenas ficava mais faminta quanto mais era alimentada. Aparentemente era verdade em relação à paixão física também. Não tinha experiência com isso. Outra coisa que escondia porque não era apenas uma geek, era também uma virgem, que Deus a ajudasse. Aos 25 anos. Sua única experiência tinha sido violenta, brutal e dolorosa. Sentia-se grata por ter sido interrompida antes que a estuprasse, porque sabia que era aquela sua intenção. E havia lhe tirado a confiança nos homens, não importava o quanto fingisse. Mesmo sem ter experiência com a paixão física, podia sentir a verdade de suas palavras.
— É tão ruim quando as duas partes envolvidas são apaixonadas pelas mesmas coisas? — Limpou a garganta. — Você e eu, por exemplo. Com esta coisa do negócio, quero dizer. Tenho muita paixão pelo contrato com Barrows e você, bem, você também o quer, porque nos beneficia. Assim, no final, minha paixão o beneficia e vice-versa.
— É bom quando acontece, mas na minha experiência aquele que tem mais poder, acaba assumindo o controle do jogo. E você não quer ser a perdedora, a que fica sem o controle.
— Então, resumindo, no mundo de Joe o controle vence a paixão.
— Todas às vezes, cara.
— Mas o controle não lhe dá inspiração para bons jogos. Xeque-mate.
Ele riu, um som que parecia arrancado dele, como se não estivesse acostumado a rir. Ouvira-o rir algumas vezes, mas agora parecera mais sincero.
— Não posso argumentar com a sua lógica.
— Ótimo.
O salmão foi servido logo depois, com vinho. Comeram em silêncio por algum tempo, ambos desfrutando da vista do lago, que ainda estava brilhante apesar da hora tardia graças ao verão do Alaska. Demi se lembrou de sua apresentação, quase duas semanas atrás, e riu.
— O quê? — Ele ergueu o olhar para ela.
— Bem, duas semanas atrás você estragou minha apresentação e queria matá-lo com qualquer objeto disponível. E agora aqui estamos, diante um do outro, e tenho uma faca, mas nem mesmo quero usá-la em você.
— Fizemos uma longa caminhada.
— Verdade. Você parece quase civilizado.
— Não cometa esse erro, Demi.
— Por quê? Não quer atender às minhas expectativas?
— Não quero que tenha expectativas irreais. Não se esqueça, quando isto terminar tudo volta a ser o que era. Ainda serei o inimigo e me lembrarei de tudo o que me revelar. De cada segredo que souber. E os usarei contra você.
— Você foi franco comigo Joe. Apesar de seus pecados, não é mentiroso. Portanto, acredito em você. — Sentiu uma dor no peito. — Não me preocupo.
Talvez porque ele estivesse tão determinado a não fazer uma conexão com ela. Talvez porque ela estivesse começando a sentir uma ligação, embora estranha, com ele. Alguma coisa sobre ele certamente a comovia, atingia-a no fundo e a fazia querer coisas. Sentir coisas sobre as quais não pensava. O quê? Mais beijos? Mais do que beijos? Com ele? Seria realmente estúpido. E também delicioso. Uau, precisava de ajuda.
— Está pronta para sair?
Ela acenou. Mas se saíssem, voltariam para o quarto. Sozinhos. Juntos.
— Talvez pudéssemos dar uma caminhada?
— Às nove da noite?
— Ainda está claro.
— Ursos?
— Oh! Certo. Bem, realmente não quero encontrar ursos.
— Achei que não.
— Certo. Para o quarto, então.
Joe deixou algumas notas sobre a mesa.
— Como está pagando pelas acomodações, pago o jantar.
— Nobre da sua parte. — Sentiu o estômago se contrair. Por que estava reagindo assim? Era tão patético. — Oh! — Lembrou-se da roupa de dormir. — Humm, eu o encontrarei no quarto.
— Certo. — Ele saiu e a deixou lá.
Ela suspirou, então andou em direção às lojas. Compraria moletons. E não se sentiria tão mal com Joe no quarto. Talvez.
Joe se reclinou no sofá, os olhos no céu ainda claro às 23h. Demi havia desaparecido no banheiro para uma chuveirada meia hora antes, e ele estava apenas deitado lá, pensando demais. Não tanto sobre o corpo nu dela, sob a água quente do chuveiro, porque não pensava nele? Estava permitindo que a vergonha o dominasse, que o lembrasse do porquê de não se permitir se entregar à atração que sentia por ela.
Não o impedia apenas de agir, impedia-o também de querer.
Era uma coisa que fazia realmente bem. Aprendera bem cedo, a dominar o corpo ao pensar nas coisas certas. A se sentir excitado quando precisava, a impedir a excitação quando isso o mantinha seguro.
A porta do banheiro se abriu e viu Demi. Estava usando moletom cinzento, grande e baixo nos quadris; além de uma camiseta preta com algumas palavras impressas. Os cabelos estavam presos numa toalha. Tentou lembrar se alguma vez vira uma mulher vestida tão casualmente. Nunca tivera uma amante. Tivera clientes. Mulheres que pagavam para fazer sexo com ele. Para que fosse a fantasia delas. E eram vaidosas. Para ele, estavam sempre arrumadas demais, com espartilhos que desafiavam a gravidade e a natureza. Como se ele se importasse. Como se houvesse alguma forma de tornar o ato, ou elas mais palatável.
Novamente ficou impressionado com a suavidade de Demi, que ela tentava esconder. Mas que estava lá, embora enterrada bem profundamente. E o fascinava.
Demi desenrolou a toalha da cabeça, jogou-a no banheiro e balançou os cabelos molhados. Eles desceram, ondulados, pelas costas dela. Então andou até a cama, deitou-se no meio, tirou o tablet da bolsa e o ligou. Seu rosto se iluminou com a tela clara. Colocou fones de ouvidos e começou a bater no teclado. Um jogo, ele imaginou, especialmente quando gemeu de frustração. Não conseguiu deixar de sorrir. Aquela paixão que ela defendia era uma coisa linda de se ver.
Ela era linda, percebeu assustado. Sentia a beleza dela. Queria tocá-la. Possuí-la. Era uma dor estranha e aguda. Um anseio profundo. Alguma coisa que sabia ter sentido antes, mas que parecera perdida. Numa parte diferente de sua vida. Talvez num homem diferente do que aquele em que se tornara.
— O que está jogando?
Ela se assustou e tirou os fones.
— Pensei que estivesse dormindo.
— Não. Desculpe.
— Então estava apenas fingindo.
— Estou deitado no sofá, não estou fingindo.
— Espreitador.
Ele riu. Estranho como ela o fazia rir. Normalmente não ria, apenas sorria. Não era involuntário, espontâneo. Mas ela realmente despertava uma reação que ele não controlava, que o deixava preocupado. Ressentido. Que aquela mulher, que era apenas uma menina, tivesse tanto poder sobre ele. E no entanto, alguma coisa nele também gostava, se sentia tentado. Tão tentado. Há quanto tempo nada o excitava? Desde quando alguma coisa o fazia se sentir aquecido? Estava tão cansado de sentir frio.
— Culpado — admitiu. — Eu estava admirando sua escolha de roupas.
— Você nem acreditaria no que Thad colocou na mala para mim.
— Seu assistente?
— Sim. Ele tinha, bem, momentos de sexo na mente, assim arrumou algumas coisas... Bem, não meus moletons. Mas as lojas do hotel me deram o que precisava.
— Gosto do seu moletom
Rendas e sedas não teriam sido tão atraentes. Porque no momento, Demi era uma mulher como nunca tinha visto. Limpa, sem disfarces, sem armadura. Como seria fácil agora dizer as palavras certas. Sair do sofá e se deitar na cama dela. Um beijo se transformaria em dois, que levaria a mais. Poderia lhe tocar a suavidade, alimentar-se de seu calor. Estremeceu com força. Queria o corpo dela. Queria-a. E quando percebeu o que estava planejando, o que estava se permitindo querer, parou, gelado.
Algum dia tomaria uma amante. Demorara demais para aceitar que precisava. Mas não seria esta mulher. Não agora, não sob estas circunstâncias. Podia ver como seria. Seu corpo por sua empresa. Deixarei Anfalas viver sem nenhuma interferência. Tudo do que preciso em troca é você. Sob meu comando. Para o meu prazer. Poderia fazer aquilo. E se tornar a coisa que mais odiava. Trocando favores. Tirando vantagem.
Não, não se permitiria aquilo, não mergulharia naquele inferno. Pouco restara de sua alma. Tinha sido o custo de chegar onde estava. E o que sobrara estava ferido além da cura. Mas não entregaria o resto. Seu corpo pulsava de calor, atormentava-o com o gosto do que poderia ser. Não. A paixão era a rota para a destruição. Apenas através do controle encontraria satisfação. Apenas através dele seria capaz de descobrir a resposta, a paz para o tormento que o destruía.



 Continua ...

Mini fic - Ambitious - CAPÍTULO SEIS

Maratona 3/5


SUA ROUPA para a viagem ao Alaska era sensacional. O que era bom, porque precisava de um pouco daquilo, para enfrentar um longo fim de semana com Joe num quarto de hotel. Puxou o zíper da jaqueta negra, colocou as mãos nos quadris da calça preta de couro, sentindo-se realmente durona e maravilhosa. Então esperou que Joe chegasse para entrarem no avião dele.
Roupas realmente a faziam se sentir bem. Monocromático tinha sido sempre sua estratégia. O negro a destacava. Depois de ser atacada, deixara de tentar se sentir incluída no ambiente e apenas usara jeans largos e casacos cheios de bolsos.
Não usava cores. Especialmente rosa. Não depois do vestido de baile. Você está tão linda doçura. Via a mãe atrás dela, sorrindo. Haviam passado horas procurando o vestido certo, depois que Michael a convidara para sair com ele. O mesmo vestido estava rasgado, destruído, no final da noite. E, quando o tirara e o jogara no chão antes de entrar no chuveiro para lavar o sangue, a dor e a vergonha, jurara nunca mais usar aquela cor idiota de novo.
No começo, sua equipe de publicitários e estilistas; haviam tentado vesti-la com cores mais suaves, mas finalmente todos admitiram que a escolha dela era a melhor. Dava-lhe polimento, sofisticação. Era uma armadura. Fazia-a se sentir mais como gostaria de ser. Mais dura, mais no controle. Como se houvesse dominado aquela menina idiota, que queria tão desesperadamente ser aceita. Por dentro, sabia que era uma farsa, mas, ei, pelo menos tinha a aparência que queria, se não a substância.
— Toda pronta para a neve, estou vendo.
Virou-se e viu Joe andando em sua direção, e como mulher, apreciou a aparência do homem em jeans negro e uma camisa branca de botões com as mangas enroladas até os cotovelos, com uma mochila de couro pendurada no ombro.
— E você não está.
— Vou me trocar no avião. Tem mais quartos do que a suíte de hotel que reservou para nós.
— Ha, ha. Engraçadinho, Jonas.
— É verdade.
— Bem, vou descobrir logo, não vou? — Pegou a mala do chão. — Dê a ordem ou faça o que tiver que fazer para botar este show na estrada.
Ele sorriu e tirou um celular do bolso da jaqueta.
— Sabe, há um celular melhor e mais rápido no mercado. O OnePhone.
— Melhor é uma generalização e também subjetivo. E seu celular só é mais rápido, quando é capaz de se ligar às suas torres especiais, o que acontece em... Lembre-me Demi, 10 por cento dos casos?
Ela sorriu.
— Doze. E estamos aumentando.
— Certo, certo. — Apertou um botão do celular e as portas do avião se abriram, a escada desceu. — Enquanto isto, meu celular continua a ser funcional. E faz chamadas sem deixá-las cair.
— É super funcional. Aposto que todas as pessoas que têm aviões particulares, querem seu telefone. Mas as massas querem jogar, o que encontram no meu celular.
— Um desperdício de tecnologia.
— Não é não. — Subiu a escada e abaixou a cabeça para passar pela porta.
— Agradável. Maior que o meu. — Sentou-se num dos luxuosos sofás de couro. — Quando estava no ensino médio, todos começamos a comprar celulares. E eles faziam apenas uma coisa, ligações. As telas eram em branco e preto, os toques monofônicos. Garotos ricos tinham laptops. Agora um computador está disponível no celular. Buscas na web, vídeos e jogos. Acessibilidade. Há preços adequados não só para telefones, mas para toda tecnologia, para praticamente todo mundo. Informações, diversão. Tudo em sua mão.
— Vou deixar de lado o sentido duplo do comentário da diversão na mão.
Ela sorriu.
— Por favor, faça isso.
— Mas entendo seu ponto. Você se vê como uma espécie de revolucionária, não é?
— Sim. Estamos mudando a paisagem, Joe, mudando a forma como as pessoas interagem e aprendem. Fazemos uma coisa maravilhosa.
— Estou nisto apenas pelo dinheiro.
— Mesmo? — Estudou sua expressão. — Não acredito. Você tem paixão por isso.
— Não, Demi, eu não tenho. Sou bom com computadores, compreendo-os com facilidade, mas como qualquer outra coisa na minha vida, é apenas uma ferramenta. Tudo o que me importa é o dinheiro. E é por esse motivo que sou sua ameaça, e não se esqueça disso. Hamlin gosta de poder e espero que um dia, em breve, ele o tenha cedo demais. Você é uma visionária. Apaixonada e idealista, e marque o que digo, será sua queda. Tudo o que me importa é seguir em frente. Não ligo para o certo ou o errado. Só me importa vencer o jogo.
Havia uma dureza desolada em suas palavras, um cálculo frio. Mas ela não sabia se havia verdade nelas. Tinha quase certeza de que ele acreditava nelas, mas não sabia por que ele precisava acreditar.
— O que acontece no fim? Quando acabar tudo e não houver nada mais a fazer?
— Encontro um novo jogo. — Não havia emoção na voz, nenhum fogo.
— Então prefiro a paixão e o potencial de perder. Acho que é mais divertido.
— Não tive o luxo de me divertir.
— Você é um bilionário, Joe. Relaxe e desfrute.
Os motores foram ligados e o avião começou a se mover na pista.
— Uma coisa que se aprende quando se vive nas ruas, cara, é jamais relaxar. Nunca se sentir confortável. Não abaixar a guarda. Não dormir. Precisa estar pronto para saltar e lutar por sua vida a qualquer momento. A complacência pode lhe causar a morte, uma verdade também nos negócios.
A garganta de Demi fechou.
— E agora. Agora que tem sua mansão com segurança perfeita. Agora você dorme?
Ele balançou a cabeça.
— Não.
— Então poderia muito bem estar de volta às ruas.
Ele riu.
— Luto todos os dias para garantir que jamais voltarei.
— Sua vida parece muito cansativa.
— Essa é a opinião da mulher que tem uma energia infinita?
— Mas sou feliz. É mais fácil viver quando se é feliz.
— Por que se sente feliz?
— Tenho o trabalho dos meus sonhos. Amigos. Família. — Quase tropeçou na palavra. Raramente falava com os pais. — Por que não seria feliz?
— Então por que a armadura? Se você é feliz, por que se protege tanto?
— Não sei do que está falando.
Ele se debruçou e passou o polegar e o indicador na gola da jaqueta.
— Sabe muito bem do que estou falando. Disto.
— Seus ternos são armaduras, Joe? Ou é uma coisa que usa para criar uma imagem?
— Armaduras para que ninguém diga, que me pareço com o garoto de rua que sou. Para que, não importam os rumores, pareça um homem que conquistou o sucesso e não um homem que fez seu caminho para o topo dormindo. Por baixo, porém, não muda nada.
— Muda. Eu me sentiria muito mal comigo mesma, se tivesse que subir num palco para fazer um lançamento com os cabelos desarrumados, usando aparelhos nos dentes e vestindo jeans e camisetas largos.
— Mas isso não muda você. Se mudasse, mesmo se usasse camisetas largas, você se sentiria confiante.
— Um especialista para um homem tão disfuncional.
— Mas tenho razão.
— E daí? Todos fazem isso. Você também, acabou de confessar.
Ele acenou.
— Suponho que seja verdade. A imagem é tudo. Mas diferente de você, não finjo que estou bem.
Ela não gostou de ele pensar que fingia estar bem. Ou que era verdade. Naquele momento, sentiu-se como aquela menina da escola secundária.
— Bem, quando você abandonar sua imagem, me livro da minha.
— Não a estou desafiando nem julgando. Eu sou a última pessoa a ter o direito de fazer isso, e nós dois sabemos. Estou apenas declarando um fato. Você esconde muita coisa, Demi.
Ela continuou a não gostar, que ele soubesse que sua roupa era uma armadura. E estava certo; a mudança tinha apenas a profundidade da pele, porque se não fosse, ele não conseguiria abalar tanto sua autoconfiança.
Idiota.
—Bem, da próxima vez que precisar de um analista, contratarei um profissional, certo?  Não preciso que um cara com mais problemas que eu, investigue minha cabeça. — Fez uma pausa. — De qualquer maneira, o quanto você é feliz?
— Nunca disse que sou feliz. Nem mesmo sei o que é felicidade. Mas vencer o jogo é tudo o que conta para mim.
— Inacreditável.
E se calou, o que ele também fez até o fim da viagem.
O hotel ficava à margem de um lago e era cercado por montanhas e árvores altas de sempre-verde, que o escondiam atrás de uma parede de cores verdes e castanhos.
Joe olhou em torno, a expressão impassível.
— Não parece entusiasmado. — Demi tirou uma echarpe da mala e a enrolou no pescoço.
— Não gosto de frio. — Andou em direção à porta do hotel.
Era uma cabana luxuosa de madeira cor de mel. Ela adorara quando se mudara para a cidade no Oeste da Califórnia. Adorara o calor e as palmeiras. A imensa diferença de sua cidade natal. Mas aquilo era completamente diferente.
— Então vamos entrar. — E o seguiu através das portas de vidro que deslizaram ao se abrirem para o saguão.
— Agradável. — Olhou em torno do interior de madeira. — Veja só, uma grande estátua de um salmão. É legal. E olhe, está à venda. Podia comprá-la e pregá-la na minha casa. — Não sabia por que estava tagarelando. Talvez porque o malvado e estoico Joe a tirasse do equilíbrio.
— Gostaria de ver isso, Demi, um salmão na sua mansão à beira-mar.
— Ei, combina com o tema.
— E também não combina.
Ela sorriu e tentou fazê-lo sorrir. De certa forma, conseguiu, mas o sorriso era terrivelmente falso. E não sabia se era resultado da conversa que haviam tido no avião, quando ele dissera que não sabia o que era a felicidade. Era disso que tinha medo. Quanto mais passava seu tempo com Joe, mais ele lhe parecia humano. Fazia-a se importar com ele. Não, isso não. Joe era um idiota. Não podia, não iria se importar com ele.
— Espere um pouco, vou nos registrar.
Joe olhou o saguão e esperou que o sofisticado sistema de aquecimento o esquentasse. Não sabia por que permitia que a temperatura o afetasse. Não era como se nunca tivesse sentido frio nos últimos anos, mas a verdade é que fazia o possível para evitá-lo. E desde que saíra do avião, estivera lutando com o pensamento do que seria ficar preso lá, sem abrigo. Ter que passar a noite lidando com os elementos.
O fato de que se mudara para um lugar com um clima temperado, não tinha sido aleatório. Preferia se sentir aquecido. Não gostava de se lembrar de como era dormir no cimento gelado, coberto por papelão. Era o mesmo motivo pelo qual não gostava de sentir fome. O mesmo motivo pelo qual não tinha relacionamentos. Não gostava de lembranças. De como estava desesperado quando Claudia o encontrara. Vira-o em pé na rua, pedindo trabalho. E ela oferecera. ”Quer uma cama onde dormir esta noite, querido?”
Ainda se lembrava das primeiras palavras que lhe dissera. De como era seu perfume. De como o cheiro permanecera em sua pele depois, assim como a vergonha. Ela lhe pagara muito dinheiro por sua virgindade. Achara excitante treiná-lo. E lhe dera o suficiente para uma semana de abrigo e alimento. Uma noite de sexo por uma semana de conforto. E quando o dinheiro acabara, Claudia o encontrara de novo.
“Preciso de você de novo, querido. E quando terminar com você... Tenho amigas, sabe? Solitárias. Negligenciadas pelos maridos. Vão adorar a oportunidade de brincar com você. Se disser sim, nunca mais ficará em hotéis baratos. Poderá comprar sua casa. O que acha? Independência? Calor?”
Impossível recusar. Mas cada dólar recebido, custara demais.
— Tudo pronto!
Olhou para Demi. Ela seria quente, não duvidava. Sua pele era macia, já sabia. E seria quente. Flexionou os dedos, curvou as mãos em punhos, tentando esquecer a impressão da pele dela na dele. Uma estranha espécie de calor o percorreu. Apenas o pensamento dela o aquecia, quando um momento antes, estivera congelando de dentro para fora. Interessante. Mas não uma coisa a que daria atenção.
Seguiu-a até o elevador sem dizer nada e deixou que ela apertasse os botões, para levá-los a um andar mais alto. Um quarto com vista, sem dúvida. As portas se abriram e ele seguiu Demi pelo corredor, os saltos dela batendo no piso de madeira. Ela dava passos longos, pesados. Percebera isso nela mais cedo. Tudo parte de sua armadura. Para parecer durona. Impenetrável.
— É no final do corredor. — E abriu a porta com o cartão quando chegaram. O quarto era, como ela dissera, todo aberto, com imensas janelas do piso ao teto que mostravam o lago e as montanhas. Havia um sofá e uma cama enorme, com quatro colunas de madeira. A maioria dos homens pensaria nas atividades que poderiam ocorrer numa cama daquele tamanho. E ele também. Faça o que lhe dizem, garoto. Não está aqui para você. Está aqui para mim. Para meu prazer. Sou sua dona.
Aquela era a verdadeira Claudia. Uma mulher que sentia prazer em ser dona dele. Em vendê-lo. Aquela voz estava sempre no fundo de sua mente, lembrando-o de como era sujo. Não interessava o quanto tentasse convencer a si mesmo de que nada daquilo importava, não era verdade. Importava.
Porque não podia se livrar daquilo. Não havia como fugir do medo de sentir frio, não interessava há quanto tempo estava aquecido. Não conseguia fugir da sensação de que seu corpo pertencia à outra pessoa. Não importava há quanto tempo não o vendia. O fato permanecia, ele se vendera. E de alguma forma, parecia que nunca mais se recuperara.
— Bonito — disse Demi. — E apenas uma cama.
 O rosto dela ficou ruborizado, ele se perguntou se era apenas constrangimento ou se ela o queria.
Se o quisesse, o jogo seria mais fácil.
Tão mais fácil se o que um deles sentisse fosse verdadeiro. E ele saberia usar aquele desejo. Para torná-la mais quente para ele. Mais brilhante. Afinal, era treinado para dar a uma mulher exatamente o que ela queria.
Mas se rebelou contra a ideia. Já havia jogado com ela uma vez, no baile beneficente, quando usara sua emoção para despertar a excitação, para fazê-la gostar do beijo, embora o odiasse. Sabia que com os pensamentos certos, era possível ficar excitado, mesmo quando odiava tudo o que acontecia com seu corpo. Que era possível encontrar um lugar profundo, onde fosse capaz de controlar tudo com a mente. Cerrou os dentes.
— Sim, mas ainda quero dormir no sofá, sem discussões.
— Certo.
— A imprensa estará neste casamento?
— Sim, com muita cobertura. Foi por isso que soube que precisávamos estar juntos. Josh é uma Colter, você sabe, dos Colter que são proprietários da cadeia de restaurantes; assim, é um grande evento.
— E mesmo assim você pagou pelos quartos de todos? Devem ser milionários.
— Foi meu presente de casamento.
Olhou para ela, tentando compreendê-la. Era insegura, sabia. Elogios lhe faziam bem, porque era ansiosa por aprovação. E no entanto, fazia coisas gentis. Dava sem motivo e não compreendia aquilo. Ou talvez não fosse tanta gentileza. Talvez estivesse comprando amigos. Sim, fazia sentido para ele.
— E sua tentativa de comprar amigos.
— Todos fazem coisas gentis para os amigos.
— Eu não.
— Você tem amigos?
— Acho que não.
— Por que não?
— Neste momento da minha vida, sim, acho que os estou comprando. Não sou uma pessoa de quem os outros gostam com facilidade, caso não tenha percebido.
— Não percebi.
— Vim para o mundo sem nada. Não tenho conexões com o passado que quero manter.
Ela suspirou.
— Não estou comprando amigos. Faço isso porque quero e porque posso; logo, por que não? Mas tenho problemas com namorados.
— Tem?
— Sim Cavadores de ouro. Sou um vale-refeição para todos os homens que querem sair comigo, e é realmente cansativo. Quando alguém me convida para sair, a grande pergunta que me faço é se ele me convidaria se eu não tivesse dinheiro. Se a resposta é não, não dou mais importância.
— E como chega a tal conclusão?
— Homens bonitos não me procuram por causa do meu cérebro.
— Estereotipado.
— Mas verdadeiro. Tive um incidente desagradável no ensino médio.
— Mais dificuldade em seu passado?
O cinismo na voz dele a fez desistir de partilhar.
— E quanto a você? Não tem amigos, mas vi o tipo de mulheres que leva a festas.
Sim, era muito seletivo em relação ao tipo de mulheres que levava a festas. Lindas, vazias. Comprava seus vestidos, suas joias e as deixava se pendurar em seu braço até as fotos serem tiradas. No fim da noite, sempre seguiam para lugares diferentes.
— Não me importo com o que querem, desde que nós dois tenhamos o que queremos.
Ele conseguia passar a imagem que queria para a imprensa, elas conseguiam diamantes, exposição, a excitação de sair com uma celebridade. Qualquer coisa, desde que não fosse sexo.
— Puxa, você se parece com a maioria dos homens que saem comigo.
— Não, eu não uso. Faço uma troca. E não é melhor tentar adivinhar o que querem, antes de se aprofundar demais?
— Certo, isso é péssimo. Mas também é horrível descobrir que o cara com quem saiu para jantar quatro vezes, é um gay num relacionamento estável que tenta lhe tomar dinheiro. E por falar nisso, o homem no relacionamento não tinha ideia do que acontecia, ficou muito infeliz ao nos descobrir juntos num restaurante.
— Pelo menos ele só tirou vantagem do seu dinheiro, não do seu corpo.
— Eu sei. Mas seria bom sair com alguém que não quer usar você. Antes da Anfalas, todas as pessoas na minha vida deixaram muito claro que havia alguma coisa muito errada comigo. E agora sou popular porque me visto bem e tenho dinheiro.
Desviou o olhar dele para a vista além da janela. E ele sentiu uma coisa estranha no peito. Como se houvesse um fio invisível que os ligasse e o fizesse sentir o que ela sentia. Ou talvez fosse apenas o que ela dissera. O desejo de sentir o que pessoas normais sentiam, apenas por um momento. Geralmente não se preocupava com aquilo, mas às vezes imaginava. Como seria se seu corpo, coração e cérebro funcionassem juntos, e não como entidades totalmente separadas. Como seria se pudesse limpar a sujeira de sua pele e seguir em frente. Limpo. Como se nada tivesse acontecido. Mas não era possível.
— É assim que o mundo funciona, Demi. Quem tem dinheiro tem poder. Acha que alguém ligava a mínima para mim, quando eu era um órfão pobre vivendo nas ruas?
— Tenho certeza de que ninguém, senão você não estaria nas ruas, estaria?
— Ninguém ligou quando minha mãe morreu, porque ela não tinha nada a dar a ninguém. Tinha apenas um filho que ninguém queria cuidar. Um menino que caiu na sarjeta.
— Como você sobreviveu?
— Por algum tempo, com a igreja. Vivi lá alguns anos, frequentei uma escola dirigida por freiras. Mas depois não houve mais dinheiro para cuidar de mim e virei um sem-teto de novo.
— Suponho que isso torne patéticas minhas queixas sobre cavadores de ouro.
Ela desviou o olhar, a expressão triste. Ele devia cumprimentá-la. Acabara de lhe fornecer a melhor informação, dissera-lhe que ansiava pelo tipo certo de atenção masculina. Dava-lhe amplo material para usar contra ela. Uma oportunidade de formar um laço, que poderia usar mais tarde para sua vantagem, depois que derrubasse Hamlin. Quando fosse a hora de destruir Anfalas e Demi. Mas não queria usar aquelas informações, e não sabia o motivo.
Talvez porque ela era honesta. Porque não manipulava. Estava realmente dando alguma coisa de si mesma e ninguém jamais fizera isso com ele. Ninguém jamais o fizera querer partilhar seu passado. E no momento, ele lhe contara mais do que já contara a qualquer um. De novo, sentiu aquela espécie estranha de calor.
— Está com fome?
Ela se virou para ele.
— Sim.
— Bom. Vamos encontrar alguma coisa para jantar.
— Certo. Apenas espere enquanto troco a roupa.
Ele acenou e de repente, foi assaltado pela imagem dela se livrando de todo aquele couro. As chamas se tornaram mais ardentes.
— Vou esperá-la no saguão.
Ele saiu do quarto e sentiu frio de novo.


 Continua 

Mini fic - Ambitious - CAPÍTULO CINCO

Maratona 2/5

DEMI resmungou um palavrão, quando as portas do elevador se abriram. Estava no escritório, pronta para começar o trabalho, quando Joe ligara, exigindo sua presença no escritório dele. Não, não iria ao dela. E não, aquilo não era negociável.
Nem mesmo tivera a decência de dar detalhes sobre o assunto; assim, é claro, a curiosidade despertara e decidira ir. Mas apenas depois que Thad lhe comprara a maior caneca de café, para ela levar sua dose diária de cafeína. Passou pelo corredor e observou o piso de mármore cor de caramelo e as obras de arte nas paredes. Era muito parecido com a casa de Joe. Opulento e exagerado, diferente de qualquer outro edifício comercial que já vira.
No dela, usara a abordagem zen. Pisos de bambu, pequenos jardins de areia. Era um pouco clichê, mas sentia que tornava a atmosfera de trabalho relaxante.
Andou em direção à recepção, o balcão de madeira escuro, muito enfeitado no fim do corredor, satisfeita com o som duro de seus saltos no piso. Era a parte favorita do estilo que adotara alguns anos atrás. Todos aqueles sapatos negros, tão sexies. A forma como os passos soavam nas calçadas ou nos pisos de madeira dura, á faziam se sentir poderosa. Confiante.
Especialmente depois que aprendera a andar de saltos altos, sem cair de cara no chão.
Aproximou-se do homem sentado atrás no balcão de recepção. Foi uma surpresa. Imaginara que Joe teria uma coisinha bonita como assistente. Mas não, era um homem de meia-idade vestido de terno e gravata.
— Oi, vim ver Joe. Ele está me esperando.
— Sra. Lovato.
— Sim Demi Lovato.
— Já sei. — Olhou de volta para o computador e digitou alguma coisa.
— Se estiver procurando uma hora marcada não vai encontrar.
— Não, estou apenas mandando um e-mail, só um segundo.
Ela bufou.
— Vou entrar.
— As portas estão trancadas.
Ela apenas começou a andar sem olhar para trás. Percorreu outro corredor até chegar a duas portas duplas.
— O que ele acha que isto é? A Capela Sistina? — Tentou abrir as portas. Estavam trancadas. Joe idiota.
Bateu com força.
— Sim?
— É seu encontro dos sonhos, Jonas, abra logo.
Ela ouviu os passos pesados, e então as duas portas se abriram
— Jerry foi difícil com você?
— É esse o nome dele? Sim, me tratou como o inimigo no portão.
— Bem, ele não deve ter visto as notícias desta manhã. Ou viu e está com medo de você tentar me seduzir para arrancar segredos de mim.
— Eu? Arrancar segredos de você com sedução?
— Você é bem femme fatale, especialmente com toda esta roupa preta.
— Sim, tudo pronto para a espionagem corporativa. Posso entrar?
Ele deu um passo para o lado, ela entrou. O escritório era tão opulento e exagerado como o resto do edifício, com mármores e madeiras, peças de arte e vasos. E ali havia até um tapete muito oriental e luxuoso. Ninguém podia acusar Joe de ser minimalista.
Ela se sentou numa das poltronas largas de couro, diante da escrivaninha.
— Então, o que é tão importante para me fazer atravessar a cidade, antes de tomar meu café?
— Você viu as notícias?
— Estive ocupada. — Estivera evitando-as. Depois do escândalo causado pelo encontro anterior, ficara apavorada com o que os jornais diriam. E realmente não queria ver fotos suas com ele.
— Então deixe que lhe mostre. — Sorrindo, pegou um tablet, abriu-o e mostrou as manchetes, desde publicações tradicionais de notícias até blogs sobre o caso ardente entre Demi Lovato e Joe Jonas.
O calor lhe tomou o rosto quando viu as fotos. Cada artigo tinha mais de uma, reveladoras, sexuais. E a expressão no rosto de Demi era sincera demais. Lá estava ela; pressionada contra a parede, os braços em torno do pescoço de Joe, os lábios fundidos. Tinha que admitir que eles eram um casal quente.
— Bem. Uau.
— E isto nem é a melhor parte.
— Oh! Puxa.
— As conversas nos fóruns on-line e nos blogs, não são tão negativas como as de ontem. Há rumores de uma possível grande fusão. Já estão até especulando sobre como será o bebê produzido pela Anfalas e a Datasphere.
— Mas não há um bebê.
— Barrows será o bebê. O GPS. Pode imaginar o sucesso desse produto quando for lançado? É melhor do que imaginamos.
Não parecia melhor. Estava ficando tonta.
— Você sabe como espalhar um boato, não sabe?
— Não sou só eu. Na era da mídia de massas, estas coisas se espalham numa velocidade inacreditável. Mesmo se são especulações e meias-verdades, as pessoas acreditam como se fossem os evangelhos. E uma vez soltas assim, não é possível apagá-las. Tudo o que pode fazer é usá-las a seu favor.
— Você é o mestre nisso, não é? — Pensou na biografia e em todos os segredos que havia revelado. Perguntou-se se algum deles era verdadeiro.
Parecia fantástico demais para ser real. Não podia ser verdade. Menino de rua em Roma, mal sobrevivendo, conseguindo fazer conexões. Ter encontros com mulheres ricas, manipulando-as pelo dinheiro. Então economizando, investindo, fundando uma empresa e se tornando um dos homens mais ricos e poderosos do mundo.
Sim, inacreditável. No entanto, Joe jamais negara os rumores. Nunca dissera nada sobre eles. Nunca parecera afetado por eles. Apenas sorria, aquele sorriso Jonas para o jornalista que perguntasse. Não confirmava e não negava. E os rumores o tornavam mais popular. As mulheres o amavam e a ideia de que usara o corpo para conquistar o sucesso, apenas o tornava mais interessante. Raro era um gênio da computação com um corpo como o de Joe e considerado um homem muito sexy.
— Não sou um principiante, é verdade. E tudo está saindo como planejado. Agora o que precisamos é criar um produto para fazer a proposta a Barrows.
— Oh, isso é tudo.
— Somos duas das melhores mentes do mundo, sei que podemos pensar em alguma coisa.
— Ou matar um ao outro tentando.
— É uma possibilidade.
Ela mordeu o lábio enquanto pensava no que precisava pedir a ele. Quando tudo terminasse, voltariam ao que eram antes. Mas tinha que dar prosseguimento ao plano atual. O futuro que cuidasse de si mesmo.
— Tenho uma coisa. — Tentou parecer casual. — Um evento. E o convite é para Demi e acompanhante; achei que podia ser o acompanhante desta vez.
— O que é, exatamente?
— O casamento de uma executiva da empresa. É um acontecimento enorme, e se não formos juntos depois de tudo, podemos estragar as coisas. Se for sozinha, as pessoas farão perguntas. — Percebeu pelo silêncio dele que não estava entusiasmado.
— E por que não me convidou ontem?
— Estava pensando numa forma de evitar. Fracassei.
— Não há saída agora, cara mia.
— É evidente, e é por isso que o estou convidando agora.
— E quando é o casamento?
— No próximo fim de semana.
— Sábado ou domingo?
— Todo o fim de semana.
— E por quê?
— Porque teremos que viajar.
— Para onde?
— Algum lugar no Alaska.
— Quem vai ao Alaska para se casar?
— É num lindo resort. E a família da noiva é de lá.
— E quer ir comigo para o Alaska para o fim de semana. Como um casal?
— Bem. Sim Vamos lá, Joe, sabe que se for sozinha, haverá mais problemas do que se formos juntos. Há todo este falatório on-line, e quando fizermos a proposta a Barrows, ninguém se surpreenderá. Na verdade, todos estarão ansiosos para conhecer o bebê que resultará da nossa união.
— Verdade.
— Diga seu preço. Posso deixar o dinheiro sobre sua mesinha de cabeceira a cada manhã. — As palavras flutuaram no ar e não como ela tencionava. Tentara fazer uma brincadeira e a coisa se tornara idiota. Balançou a cabeça. — Ah, fui grosseira. Desculpe, não tive a intenção.
— Não se desculpe, cara mia. — Sorria, mas havia alguma coisa assombrada nos olhos dele e Demi não gostou. Mas logo desapareceu. — Foi só uma brincadeira.
— Certo.
— E é claro que irei ao casamento com você. Mas entende que teremos que partilhar um quarto, não entende?
— Talvez possamos alegar que somos antiquados e dormimos em quartos separados?
— Ninguém acreditará e isso levantará suspeitas. Há mais de um quarto numa suíte, não há?
— Bem, não. Porque todas as suítes já estão reservadas.
— O quê?
— Quero dizer, tenho uma suíte, mas é do tipo de um quarto só.
— E como isso aconteceu?
— Reservei a melhor suíte para o casal de noivos e as demais para os pais do noivo, os da noiva e suas famílias. E só sobrou a que reservei para mim
— Você é generosa a ponto de se prejudicar, cara. Mas já vou avisando que dormirei no sofá.
Joe observou o rubor de Demi se aprofundar. Ainda estava mortificada com a gafe. Era uma pessoa rara, que reagia profundamente ao fracasso e ao sucesso. Apesar da armadura, suas emoções eram visíveis. Mas não a confortaria. Não era tarefa sua fazê-la se sentir bem. Ela não conhece seu passado. Não tinha importância.
Mas uma fisgada lhe mostrou que importava. Não gostava que as pessoas pensassem que manipulara mulheres e lhes tomara a fortuna, seduzindo-as. Mas a verdade era pior; a manipulação não tinha sido feita por ele. Mesmo assim, a brincadeira idiota era perto demais da verdade. O que havia entre eles era comércio, não de favores sexuais, mas a linha era fina. Aquele beijo provara. Ela ficara afetada, sabia. Ele não. Tinha sido interessante beijá-la. Inexperiente e desajeitada, entusiasmada de uma forma que nunca experimentara.
Mas na verdade, tinha sido exatamente como no passado. Quando tivera que fazer coisas para sobreviver, quisesse ou não. Quando tivera que usar seu único atributo para ir em frente. Era inteligente, mas sem educação formal. Um trabalhador braçal, incapaz de arranjar trabalhos que realmente lhe dessem a riqueza que queria. Então conhecera Claudia e tudo havia mudado.
Se você quer ganhar dinheiro, caro, use o que tem. Por que passar fome se tem uma coisa que as pessoas querem comprar? Um belo corpo. Mulheres pagarão para usá-lo e você ficará rico.
Sem mencionar o lucro dela. Mas no fim tivera razão. Ele ficara rico. Investindo bem o dinheiro que ganhara. Para conseguir fazer aquele tipo de trabalho, aprendera a separar a mente do corpo. Dividira-se em dois. Era a única forma de não se sentir mal demais. De sobreviver à vergonha. Assim, construíra muralhas em torno de si mesmo. E agora era uma segunda natureza. Acendia e apagava quando desejava. Tinha sido um observador casual do beijo com Demi e ela participara ativamente. De novo, nada incomum para ele, mas lhe deixara um gosto ruim na boca.
Era por isso que evitava relacionamentos. Porque, embora fosse capaz de separar corpo e mente, não conseguia reuni-los. Era tudo uma transação. Tudo sobre vender e receber o pagamento.
Sete anos depois, aquilo ainda o fazia sentir como se estivesse coberto de sujeira. Sentir que seu corpo pertencia a outras pessoas. Como se fosse um produto a ser usado para o prazer da compradora. Ainda sentia que suas antigas clientes eram donas de pedaços dele. Como se tivesse sido cortado, dividido e vendido. Mas não na mente. Não possuíam nada de sua mente, apenas seu corpo. E não queria voltar lá. Por isso deixara totalmente de lado o prazer físico.
Mas Demi era uma mulher normal, que se sentia afetada por seu toque, o que significava que precisava ser cuidadoso. Não usaria o corpo dela contra ela. Havia profundezas de maldade nas quais não mergulharia. Ele a usaria do mesmo modo como ela o faria. Mas em termos de desejo sexual, estavam em campos diferentes demais e ele nunca, jamais, faria com ela o que haviam feito com ele. Jamais usaria o corpo de Demi para seus próprios objetivos. Porque podia. Seria tão fácil...
— Bem, é um alívio e muito cavalheiresco me dar à cama.
— Presumo que vai pagar pela suíte.
— Mas você é meu acompanhante.
— Sou seu convidado. É seu nome que está no convite. E, como vai pagar a conta, tem o melhor lugar. Mas se quiser que eu pague.
— Posso pagar, Joe, ou não sabe que sou a mulher mais rica do mundo?
— Sei, foi um artigo interessante.
— Bem, posso pagar um quarto de hotel. E quero a cama.
— Também posso pagar.
— Eu sei, também li o artigo sobre você. E ei, andou lendo sobre mim? — A expressão no rosto dela era engraçada, um misto de insegurança e prazer. Demi era uma esperta mulher de negócios, mas havia alguma coisa sob a superfície da armadura. Uma coisa brilhante, jovem, excitada, sonhadora.
Perguntou-se por que ela escondia essa parte em couro negro. Porque tentava fingir ser blasé e sofisticada quando não era. Perguntou-se o que a levara a usar a armadura.
— Comecei a ler um artigo e descobri que era sobre você.
— Certo, fiz a mesma coisa. Parece que tivemos um grande sucesso.
— Tivemos.
— Bem, está na minha hora. Vai precisar de mim para alguma outra coisa esta semana?
— Acho que não. Só vamos fazer a proposta dentro de duas semanas.
— Ótimo, então vou deixar tudo pronto na empresa, para uma ausência de alguns dias. Até o casamento.
Ela se virou e saiu; os passos longos e firmes, os cabelos louros deixando um perfume de lavanda no ar. Qualquer homem comum certamente estaria planejando seduzi-la no fim de semana. Mas ele não era um homem normal e sedução não estava em sua agenda. Aquilo tudo era sobre negócios. E não precisava mais usar o corpo. Se necessário, usaria, mas aquilo lhe arrancaria outro pedaço da alma. Portanto, bloquearia tudo. E agora, mesmo quando queria sentir alguma coisa, tudo o que restava era um vazio escuro e profundo. Havia afastado a dor e, com ela, tudo o que era bom. Olhou em torno do escritório, viu a evidência do que conseguira e achou que valera a pena.

 Continua ...