Mini fic - Ambitious - CAPÍTULO OITO

Maratona 5/5


Demi acordou grogue e inquieta. Partilhar um quarto com Joe era muito difícil. Primeiro, o homem dormia quase nu. O que só percebera na manhã seguinte, quando ele se levantara e ela acordara a tempo de vê-lo entrar no banheiro, as costas musculosas nuas e aquele traseiro, oh, céus, aquele traseiro vestido apenas com uma sunga que abraçava seus contornos.
Então ele saíra do banheiro sem nada e permitira que ela visse todos os seus segredos, além do peito esculpido. Era como uma fantasia feminina viva, conjurada de seus desejos mais básicos. Um homem de verdade, com pelos e músculos e todas as coisas boas formadas pela dose saudável de testosterona. Nunca ansiara por aquelas coisas, não num nível tão visceral, não como a visão dele a fez ansiar.
Porque jamais se permitira. Odiava admitir aquilo. Gostava de fingir que Michael e o assalto não importavam num contexto sexual. Porque na mente sabia que sexo não era assim. Que a maioria dos homens não a feriria. Sabia, mas uma parte dela não acreditava. E evitar sexo e homens era tão mais fácil do que analisar o que sentia.
Mas Joe a fazia imaginar se valia a pena correr o risco de ter contato com um corpo como aquele. Ele não a feriria ou a forçaria, sabia. E, ei, talvez também gostasse dela. Afinal, ele a havia beijado e devia ter sentido alguma coisa. Não que gostasse dele, apenas o achava atraente. Não era uma menina idiota com uma paixonite. Era uma mulher e tinha necessidades. Queria fazer sexo com ele, não namorar.
Era hora do almoço e ela empurrou o peito de frango no prato com o garfo. O casamento começaria dentro de duas horas e nem pensava na noiva. Apenas nos músculos de Joe. Patético. Não conhecia o homem, mas estava começando. Ele a fazia rir e sorrir.
Joe não comparecera ao almoço, alegando ter trabalho, e estava bem com aquilo. Precisava de uma folga dele. Precisava acalmar seus hormônios negligenciados e parar de ofegar pela atenção dele. O que ele não lhe daria.
Porque entregar-se ao desejo estranho e louco por ele arruinaria. Arruinaria nada. Absolutamente nada. Não gostava de Joe. Ele não gostava dela. Eram rivais decididos a derrubar um ao outro, e no momento viviam apenas uma trégua temporária. De qualquer maneira, não poderiam ter um relacionamento. Nem mesmo queria. Além disso, não era o tipo de mulher que dormiria com um cara com o qual sabia que não teria um futuro. Era?
E não se via confiando em ninguém para ter um relacionamento. Não queria ser usada por seu dinheiro, e os caras só a procuravam pelo que poderia lhes proporcionar em termos financeiros. Era fácil dizer não a eles. Mas Joe não estava atrás do dinheiro dela. Se quisesse dormir com Demi, seria porque a desejava. De qualquer maneira, já estavam usando um ao outro para fazer um grande negócio, assim, um relacionamento apenas físico seria possível, desde que ficasse de olhos abertos.
Sua mãe ficaria tão desapontada com ela. Tinha lhe ensinado a tratar seu corpo, o sexo, como uma coisa especial. Mas a mãe havia comprado um cara para sair com ela, e ele tentara estuprá-la. O que havia arruinado o modo como via o sexo. Logo, que importância tinha? A mãe jamais soubera o que era melhor para Demi.
Além disso, o que tinha a perder?
Não era talhada para o papel de esposa e mãe. Talvez um caso tórrido e passageiro fosse o melhor que conseguiria na vida. Um caso com o inimigo. Agora, por que isso a excitava? Devia sentir repulsa.
Ergueu os olhos quando um homem se sentou à sua mesa. Louro, bonito. Não devastador como Joe, mas também nada desagradável. Talvez aquela fosse a resposta. Outro homem. Um homem mais sensato. E estavam em público, sentia-se em segurança. Um homem que poderia atender à necessidade sensual que crescia nela, mas que não era tão intensa como com Joe. E alguém que não podia classificar como inimigo.
— Oi. — Ela sorriu, virando a cabeça para o lado, flertando. Vira outras mulheres fazerem aquilo e podia imitá-las. E sabia que estava bonita e atraente naquele vestido.
— Oi. Demi Lovato, certo?
— Sim — Não se sentiu ofegante, mas fingiu, porque achava que homens gostavam daquilo. — E você é?
— David Brown. Vi você aqui e tive que me aproximar.
— Mesmo? É tão gentil.
— Tenho uma ideia para um produto e preciso lhe contar.
Depois disso, o cérebro apenas se fechou enquanto David, que parecia cada vez menos bonito, começava a lhe explicar uma ideia muito incompleta e que parecia não ter base na tecnologia existente e compreensão de como computadores funcionavam Ou conhecimento de que ao se aproximar de uma mulher, durante uma festa de casamento para fazer uma apresentação de negócios, significava um não automático.
Quando ele terminou, Demi lhe apertou a mão, agradeceu e fingiu que não estava morrendo por dentro. Estava tão cansada do fato de que ninguém, homem nenhum, conversava com ela, com a pessoa que era. Porque gostava de computadores e era uma geek, e esse era o motivo pelo qual homens bonitos se aproximavam dela, eram gentis, tratavam-na com deferência. Porque era rica e tinha poder. Eram todos mentirosos. Não podia confiar em nada do que diziam, nada do que faziam. Joe era um canalha, mas era honesto. E era uma enorme vantagem.
Olhou em torno, para a paisagem impressionante. Seria amiga daquele casal se não fosse pela posição que ocupava? Se não pagasse as melhores suítes para eles? Uma coisa era certa. Se não pudesse lhes dar dinheiro, então teria que lhes dar alguma coisa de si mesma. Abrir-se para eles. E não gostava nem um pouco da ideia.
Joe não gostava muito dela e não fingia. Não queria conhecê-la, mas poderia gostar de dormir com ela. Era honesto. E no momento, preferia sua franqueza brutal ao sorriso de um sicofanta. Um caso com o inimigo parecia cada vez menos idiota.
—Você não devia usar preto em casamentos.
Joe se aproximou de Demi na recepção, com uma taça de champanhe na mão. Chegara bem no começo da cerimônia.
Demi se virou e o estômago de Joe deu um nó, o sangue grosso e rápido nas veias. Aquela intensa atração.
— Tenho permissão. — Ela sorriu, os dentes com um brilho branco contra o batom carmesim
O cabelo louro descia em ondas suaves, o vestido negro tinha uma silhueta simples, que abraçava seus quadris e abria como um sino nos joelhos, de onde caía suavemente até o chão. Mas foi o profundo decote em V na frente e atrás que chamou sua atenção. Os seios eram pequenos e perfeitos. Ele se descobriu imaginando-os, pensando neles de forma obsessiva. Seria por causa dos muitos anos em que sufocara as próprias fantasias, enquanto realizava as dos outros? Dos muitos anos reprimindo os próprios desejos para não precisar lidar com as lembranças? Seria por isso que era tão forte? Ou apenas Demi?
O fruto proibido. Uma tentação a que se julgara imune. Porque tinha sido a tentação para outras pessoas e não havia satisfação para o objeto desse tipo de luxúria. Era um desejo egoísta. Usava a outra pessoa, até que nada restasse dela. Até ficar congelado por dentro. A menos que tornasse sua missão satisfazê-la.
Não. Não faria isso. Era manchado pelo passado, cada centavo recebido, cada centavo multiplicado, vindo de sua mais profunda vergonha. Seu império havia sido construído sobre suas costas no senso literal. Não traria tudo àquilo de volta. Não poderia.
Odiava os boatos. Que havia seduzido mulheres ricas e mais velhas e lhes tomado às fortunas. No entanto, odiava mais a verdade. Que havia sido o brinquedinho delas. Que havia sido comprado. Que sua empresa tinha sido construída assim. Que seu legado era o de um homem que vendera por um preço baixo, aquilo que só poderia ser dado.
Assim, afastou o olhar do corpo dela para seus olhos. Castanhos. Limpos. Refletindo tudo o que começava a acreditar que era: inocente. Boa. Toda aquela armadura para cobrir o que havia de doce e vulnerável nela.
— Permissão especial para a benfeitora do casamento? — Entregou-lhe a taça de champanhe.
Ela a pegou.
— Dificilmente a benfeitora.
— Você pagou pela hospedagem de todo mundo. E também paga o salário da noiva.
— Não lhe dou dinheiro por nada. É uma programadora muito boa.
— Conhece todos os seus funcionários?
— Não todos. Numa empresa do tamanho da minha, seria impossível, mas você sabe disso.
— Mal conheço alguns, nenhum abaixo de certo nível.
— Como é possível?
— Não sou o tipo de patrão que anda pelos escritórios e faz reuniões com equipes de funcionários ou frequenta treinamentos.
— Oh. Eu sou. Quero dizer, faço essas coisas.
— Sim, você é muito, você é uma pessoa gentil.
— Obrigada. Parece surpreso.
— Não conheço muitas pessoas gentis.
— Talvez eu não seja tão gentil, Joe.
— Por que diz isso?
— Bem, acho que sou generosa com dinheiro. Mas não comigo mesma. Sim, ando pelos corredores e converso com todos. Vim ao casamento e compro presentes caros. Mas é fácil dar dinheiro. Difícil é se dar, oferecer amizade verdadeira.
— Quer que as pessoas a usem pelo seu dinheiro.
— Nunca tinha pensado nisso, mas suponho que é o que recebo, já que é tudo o que dou. Mesmo assim, jamais gostei de ser usada por meu dinheiro quando tentava fazer uma conexão.
— E homens fazem isso com você?
— Sim. Há muitas mulheres lindas no mundo, mais bonitas que eu. Nenhuma, porém, tem mais dinheiro que eu. Assim não é preciso ser um gênio, para descobrir por que homens se sentem atraídos por mim.
— Qualquer homem que olhar para você e ver apenas uma conta bancária; é um idiota. Como podem não perceber como é realmente maravilhosa e singular?
Ela o olhou de queixo caído com o elogio. E havia sido sincero. Não estava tentando seduzi-la. Não estava brincando. E as palavras haviam funcionado. Atraíram-na. Se a quiser, pode tê-la. Mas não a teria. No entanto a tentação era tão grande que quase o consumia. Saber como seria ter tudo o que queria. Explorar toda a suavidade dela. Sua inocência.
Aquela seria a verdadeira vergonha. A inocência dela, o desejo de despi-la de sua armadura e expor toda aquela suave doçura que clamava por ele, eram as próprias coisas que o impediam de tocá-la. No entanto, se fosse outra mulher, mais vivida, mais sedutora, duvidava de que sentisse qualquer coisa por ela. Era o que a tornava diferente. Proibida. E tão atraente.
— Acha mesmo que estão deixando de ver alguma coisa?
— Sim — Sabia que devia parar. Sabia que devia fazer alguma coisa para impedi-la de olhar para ele com aqueles grandes olhos castanhos. Como se fosse algum tipo de herói.
— Como todos podem deixar de ver, Joe? O que há comigo? Não escondo as coisas boas em mim, então por que ninguém vê? O que está errado comigo?
— A verdade? Acho que é inteligente demais para a maioria das pessoas. Você as intimida. E é claro que não consegue se conectar com alguém que também não é excepcional. Você é um desafio e isso assusta alguns homens. Ou os fazem querer dominá-la. Também, acho que realmente não quer nenhum dos homens que não demonstraram interesse por você. Acho que tem um controle maior do que pensa.
— Acha?
— Você é o tipo de mulher que sabe o que quer e como conseguir. Uma bilionária antes dos 21 anos, uma líder na indústria da tecnologia. É um feito impressionante para uma pessoa da sua idade. É praticamente a única do seu gênero. E tem um controle grande demais.
Demi olhou para a taça, e então de volta para Joe. Estava vestido de maneira impecável, o smoking lhe realçando o corpo que vira nu aquela manhã. Joe causava uma boa impressão, parecia um homem muito civilizado, mas não era, sabia. E achava que tinha mais controle do que realmente tinha. O que aconteceria se tentasse seduzir Joe? Se pegasse o que queria? Ele também a queria. Bem, talvez. Havia-a beijado como se estivesse se afogando e ela fosse o ar, e dissera que aqueles que não percebiam que ela era especial eram idiotas. O que tinha que significar que ele percebia. Mas não importava. Só queria que a desejasse.
Era ridícula. Uma virgem de 25 anos, permitindo que tantos medos e inseguranças a prendessem Ele tinha razão. Sua armadura era falsa. Ainda vivia com medo, protegendo-se. Não se sentia forte por causa de sua imagem, escondia-se atrás dela. Mas se fizesse sexo com Joe, sua armadura podia quebrar. Aquela grande muralha de medo que a cercava ruiria. Porque Joe Jonas era mestre naquele jogo. O tipo de homem que fazia as mulheres perder a cabeça para ter o corpo dele. Era uma ideia.
Se ela queria aprender alguma coisa, aprendia com um mestre. Era apenas senso comum Se quisesse aprender sobre sexo. Tomou um gole de champanhe. Para se fortalecer. Precisava muito. Então deu um passo em direção a ele e colocou a mão no seu braço.
— Você gosta de mulheres no controle?
Alguma coisa nos olhos dele mudou. Escureceu.
— Não.
— Ah.
— Gosto de ficar no controle.
O modo como disse as palavras, a voz macia e rica, cobrindo-a como chocolate quente, a fez estremecer. Despertou um anseio nela que a chocou por sua força.
— Bem, isso não é bom, já que acha que estou no controle. Mas você prefere estar. — Era uma idiota na arte da sedução. Não sabia mesmo nada.
O que era uma pena, porque realmente o queria. Bem agora, queria-o tanto que doía. Era uma experiência inédita e apavorante. Mas parecia que era capaz de fazer aquilo. Com Joe não haveria sentimentos, mas também não haveria joguinhos. Não haveria exigências, força. Não confiava nela e não lhe pediria que confiasse nele.
Podiam dar prazer um ao outro, e então. E então as coisas voltariam ao que eram antes.
— Você poderia. — Hesitou, inspirando com força. — Poderia ir até a varanda comigo?
— Quer uma repetição da nossa visita à varanda na Califórnia?
— E se quiser?
— Há jornalistas?
— Provavelmente.
Ele lhe tomou o braço e a guiou através do salão até a varanda de madeira. Lanternas estavam penduradas em intervalos regulares. Ela inspirou com força e exalou, os olhos nas estrelas. Havia tantas delas! Nunca tinha visto uma quantidade tão grande. Sentia- se selvagem como a região. Virou-se para Joe e ergueu a mão para o rosto dele, buscando uma pista em sua expressão. Não havia nada. Mas não esperaria por um sinal e exercitaria o controle que ele achava que tinha.
Colocou a outra mão na nuca de Joe e enlaçou seus cabelos com os dedos. E então fechou os olhos e comprimiu os lábios nos dele. Eram quentes, firmes e imóveis. Mudou o ângulo da cabeça e lhe tocou os lábios com a língua. E então ele se moveu, o braço passou em torno de sua cintura e a puxou para ele, apertando-lhe os seios contra o peito. Segurou-a lá, permitindo que ela o beijasse sem reagir.
— Beije-me — pediu com os lábios ainda comprimidos nos dele.
E, por um momento de encantamento, ele obedeceu. A boca se moveu sobre a dela, tão hábil, tão incrivelmente sábia. Um arrepio a percorreu e a excitação lhe arrepiou a pele. A umidade da língua criou uma reação igual entre as pernas dela. Oh, sim, ela o queria. Queria que ele lhe mostrasse tudo o que estava perdendo.
Então ele se afastou de repente e o ar a congelou.
— O quê?
— Nada. Mas isto não foi bem uma exibição pública, foi?
Ele estava respirando com força, percebeu Demi, uma coisa que não lhe acontecera na Califórnia. E o rosto parecia um pouco vermelho. Duas coisas ficaram evidentes para ela: Joe estava excitado. E no primeiro beijo não havia ficado. Não sabia o que pensar das duas coisas.
— Suponho que não. — A respiração dela estava errática, o coração disparado. E as pernas tremiam
Ele se virou, afastou-se dela e se debruçou na amurada da varanda, os braços descansando na madeira. Ela o seguiu e parou a seu lado.
— Quero você. — Ele não reagiu, não se moveu ou olhou para ela. Apenas continuou a olhar para a água. — Joe eu não quero nada além do acordo que temos. Apenas quero você. Na cama. Até isto ter terminado, e então você se afasta com o que quer e eu com o que quero.
— Uma transação de negócios. — O tom era duro e sem emoção.
— Sim. O que há de errado com isso?
— Não gosto da ideia.
Ficou atônita. Teria entendido tudo errado? Ele não a queria? A humilhação foi pior do que imaginava. Sentiu-se pequena, a garota desajeitada que sempre tinha sido. É claro, não tinha nada a oferecer a Joe.
— Lamento que me ache tão desagradável. — A mágoa e a raiva dos últimos dez anos de sua vida se somaram à rejeição de Joe. — Devia ter lhe oferecido dinheiro? É essa a moeda que compreende?
Ele se afastou da amurada e se virou para ela, os olhos brilhando de ódio.
— Cuidado, cara mia.
— Desculpe se acho um pouco insultante que você, Joe Jonas, que todos sabem que seduziu mulheres ricas e mais velhas por dinheiro, ache desagradável dormir comigo.
Ele estendeu as mãos, segurou-lhe os braços e a puxou contra ele. E pela primeira vez, ela o viu sem nenhuma civilidade. A máscara tinha caído. Não havia mais charme, mais sorrisos fáceis e sarcásticos. Este era o homem das ruas, que deixara de lado a moralidade para sobreviver.
Ele não disse nada, apenas olhou para ela. Então ergueu a mão e lhe tocou a face, traçando uma linha até o queixo, os olhos nunca deixando os dela.
— Então quer falar sobre meu passado, quer? Acha que o compreende porque leu um livro? Os detalhes a excitam? As histórias das minhas atividades com antigas amantes? Gosta da parte que diz que tomei uma mulher casada num armário durante uma festa, enquanto o marido a procurava no salão de baile? É minha história favorita.
Ela balançou a cabeça, congelada por dentro.
— Joe... Eu não...
— Mas não sabe os detalhes. São sensacionais. Um jovem garanhão que as mulheres achavam irresistível. Um canalha sem consciência, que recebia presentes por suas habilidades sexuais. Mas essa é a versão limpa, Demi.
— Não pode ser.
— Sim, pode. Presumo que saiba o que é uma prostituta.
Ela piscou.
— Sim
— Não fui o alegre sedutor de mulheres solitárias. Era pago para estar lá. Na cama delas. No armário. Era um prostituto, Demi, pago pelo sexo. Vendi meu corpo pelo preço mais alto e fiz o que quer que mandassem, quisesse ou não.
— Não pode... Não pode ter sido. Isso não.
— Pensa que estou exagerando? Não estou. Fui tirado das ruas aos 16 anos por uma mulher chamada Claudia. Era bem mais velha, rica. Procurando um pouco de diversão. Não comia fazia quatro dias. Procurava trabalho, mas mal conseguia ficar em pé. A primeira coisa que ela fez foi me comprar uma refeição. E depois disso, como podia negar o que quer que ela quisesse? Estava faminto por comida, por um toque, por uma cama limpa, então fui e recebi o dinheiro dela, satisfeito. Mas era seu bichinho de estimação, Demi. Aprendi a obedecer a todos os comandos dela, a ser seu amante de fantasia. Mas não era tudo o que queria. Pretendia ganhar dinheiro comigo também. E tinha contatos, outras mulheres que conhecia e que estavam dispostas a pagar para ter um homem jovem em suas camas, que fizesse tudo o que desejassem. Ela me ensinou inglês, me ensinou a dançar, arte e cultura, e tudo o que eu precisava saber para ser uma companhia agradável. Fui treinado. Como um animal.
Demi engoliu, o estômago apertado.
— Quer que eu pare, não quer?
Ela acenou. Não queria saber. Porque, até um momento atrás, ele tinha sido uma fantasia. E agora era real demais. Só ouvir o que Joe havia vivido a fazia se sentir suja. Como ele deveria se sentir?
— Pena, você me desafiou, agora lide com as consequências. Quer falar sobre o meu passado, então precisa saber como realmente foi. Recebi dinheiro por sexo. Fiz o que as mulheres queriam e fiz bem. Também ouvi quando falavam. As esposas de homens ricos sabem muito sobre dinheiro. Sobre investimentos. Descobri como fazer o dinheiro que ganhava crescer. É difícil abandonar um estilo de vida assim, quando fazia centenas de dólares por uma hora de trabalho. Mas finalmente entendi que o custo era muito alto e não me vendo mais. Não estou mais disponível. Não sou um animalzinho de estimação. Sou um homem e tenho minhas próprias vontades.
Ela acenou devagar e se afastou dele andando de costas, interrompendo a corrente que a prendia. Virou-se então e voltou para o salão de baile, mantendo a cabeça baixa enquanto atravessava a multidão.
Sentia-se doente. Todo o corpo tremia. Como tinha sido fácil usar o passado dele para julgá-lo. Sentir-se superior a ele. Agora se sentia como se despedaçada por dentro, como se tivesse sido obrigada a ver o que ele tinha sofrido, e nada a protegia daquele pavor.
Joe era um homem orgulhoso, e tivera seu orgulho pisoteado durante aquela parte de sua vida. Fora obrigado a pertencer a outras pessoas. Sofria por ele. E sua visão dele mudou. Não o playboy mundano, mas o menino transformado em vítima. Dezesseis anos e precisando desesperadamente de tantas coisas. De amor e educação, comida e abrigo. E lhe deram uma versão vazia daquelas coisas e o prenderam a ela. Mas agora o via como era, pelo que era. Imaginara-o um homem educado, suave e mulherengo. Como o homem que recebia presentes com um sorriso e deixava as amantes satisfeitas e saciadas. Não havia percebido. Jamais teria sido capaz de pensar que ele se vendera. Vendera seu corpo.
E sim, aquilo a perturbava. Mas também a fazia sentir uma espécie estranha de ligação com ele. Porque tivera uma prova de como era ser considerada um objeto, de como era horrível e apavorante ter alguém tentando tomar posse do seu corpo contra sua vontade. Apenas ele o fizera de novo e de novo. Submetera-se àquilo para sobreviver. E o sofrimento dela aumentou, fazendo-a se sentir exposta demais.
De qualquer maneira, ele não a queria e não o culpava. Insultara-o além do limite, da razão. Tratara-o como um prostituto e agora conhecendo seu passado, sabia que ele tinha todo o direito de odiá-la.
Apertou o botão do elevador, entrou e se encostou na parede enquanto subia. Talvez devesse procurar outro quarto. Mas não podia fazer isso, porque se fossem apanhados dormindo separados todos ficariam sabendo, e precisavam manter a farsa até apresentar a proposta a Barrows. Estava presa no inferno que haviam fabricado.
Saiu do elevador em seu andar e foi até o quarto. Passou o cartão e a fechadura não abriu. Tentou de novo. Nada.
— Ah, coisa idiota, idiota!
Passou de novo e de novo. Então chutou a porta. Depois puxou o cabelo, encostou o rosto na parede e lutou para não chorar. Um segundo elevador parou e Joe saiu, furioso em direção a Demi, os olhos escuros presos nos dela. Arrancou a gravata e a jogou no chão enquanto andava até parar, a mão na parede ao lado dela. Debruçou-se com os lábios a um sussurro dos dela.
— Não me deixe mais assim.
— Ou o quê?
Passou um braço pela cintura de Demi e a puxou contra ele. Abaixou a mão da parede e traçou a linha dos lábios dela com a ponta do polegar.
— Você sabe meus segredos agora.
Ela acenou.
— Violou sua regra. Não confirme nem negue.
— Sim. E vou violar outra.
— Qual é?
— Eu quero. E não me permito querer.
— Você não se permite querer sexo?
— Não. Nunca tive uma amante, Demi, Isso a deixa chocada?
— Mas... Mas você disse. Não compreendo.
— Tive sexo, nunca uma amante. Tive clientes. Nunca estive com uma mulher da minha escolha e o que fazia no quarto era controlado por ela. Aprendi a ser apenas um corpo. Eu me separava completamente do que estava acontecendo. Encontrava uma fantasia que me permitisse funcionar e era isto: não precisava pensar, não precisava sentir. Não era meu corpo então, eu não vivia nele.
— Elas sempre lhe disseram o que fazer?
Ele balançou a cabeça.
— Sou especialista em linguagem corporal. Sei o que querem. Do que precisam. Mas não sei o que eu quero. Nunca me fiz tal pergunta.
— E. E agora?
— Quero você. — Ergueu os olhos para os dela. — Nos meus termos. Se quiser um arranjo, podemos fazer. Você na minha cama, até o negócio com Barrows estar fechado. No fim, quando nos separarmos, talvez, se for do seu agrado, você terá uma parcela um pouco maior do produto. — Ela balançou a cabeça. — Não, não vou deixar você me comprar. Se me quiser. Se me quiser, então talvez. No entanto, quero ser mais do que uma conveniência. Mais do que um homem que pensou que podia ter facilmente por causa da nossa situação. Não quero ser alguém a quem se acha no direito de ter.
Mas ela não podia aceitar que ele achasse que era dono dela também
— Minha confissão a fez mudar de ideia? — Soltou-a.
Ela mordeu o lábio.
— Podia dizer que sim, mas seria uma mentira.
— Entre. — Passou o cartão e, claro, a luz verde acendeu e libertou a fechadura.
Ela o seguiu para dentro do quarto. O coração batia com força, as pernas tremiam. Porque não sabia com o que havia concordado. Seu corpo doía. Queria, apesar do que sua mente pensava.
Joe desabotoou o colarinho, depois os punhos da camisa e se virou para ela. Estava escuro no quarto, apenas o abajur aceso ao lado da cama, e tudo era uma sombra com um brilho fraco que fazia o cenário parecer irreal.
— Se decidir que me quer, haverá regras.
— Que regras?
— Aprenderá a me dar prazer. Aprenderá o que quero. E me dará. Seu objetivo básico será meu prazer. Nunca tive uma amante Demi, e agora que decidi tomar uma será nos meus termos.
— E quanto ao meu prazer?
E pensou que o que quer que Joe fizesse, lhe daria prazer. Um homem como ele, bem versado em sexo e sem saber como ter prazer. Ela também não sabia como lhe dar prazer. E estava totalmente confusa. Por um lado, estava atraída por ele. E isso provavelmente lhe prejudicava o julgamento. Dar a ele quando todos haviam apenas tomado. Porque compreendia o quanto era desesperadamente solitário quando as pessoas apenas a usavam. E para ele tinha sido muito pior. Uma vida de solidão nas ruas, solidão na cama de estranhas. Solidão no topo do sucesso. E como era importante escolher a própria amante. Parte dela estava aliviada por estar acontecendo daquela maneira. Não no calor do momento, mas numa pausa para conversar. Com uma resposta definitiva de ambos os lados. Fazia-a se sentir poderosa, no controle. E imaginava que Joe sentia o mesmo. Talvez pudessem ajudar um ao outro a se sentirem um pouco menos solitários.
Além disso, receber instruções apenas a ajudaria. Afinal, queria a experiência, um pouco de treinamento para não ter tanto medo de fazer a coisa errada. Se seguisse ordens, não estragaria tudo. Quase disse que nunca tivera um amante também, mas decidiu ficar calada. Não havia lugar para a bagagem dos dois. E tinha a impressão de que ele se recusaria.
— E o que quer de uma amante?
Ele começou a andar de um lado para o outro, as mãos presas às costas, os movimentos elegantes, perigoso como um tigre.
— Quer mesmo saber? Não vou amenizar a verdade. Se quiser realmente, está concordando em me tomar. Todo eu. Como sou.
— Diga-me primeiro, então decidirei.
— O prazer da minha amante é importante para mim. Não tenho interesse em tomar e não dar nada de volta. — Como havia sido feito com ele, pensou. — Espero que aprenda do que gosto. A dar sem perguntar. Seguirá minhas instruções.
— E se eu não gostar do que me pedir?
Ele parou de andar e lhe encontrou o olhar.
— O prazer da minha amante é importante para mim — repetiu. — Sempre se lembre disso.
Olharam um para o outro. Com os olhos presos nos dele, soube que com ele, jamais se sentiria vulnerável ou em desvantagem
Era um homem com um desejo, um homem tão cativado pelo que existia entre eles quanto ela. Um homem sobre o qual exercia poder pela necessidade que tinha dela.
— E se eu disser não?
— Então, nada acontece. Depois do que me ocorreu, jamais teria uma amante que não me quisesse. Que não me desejasse a ponto da loucura. Como desejo você.
E naquele momento, ela se sentiu forte. Pela primeira vez, apenas ser ela, ter um homem a olhando daquele jeito a fez se sentir poderosa. Capaz de lhe conceder todo o controle, e ser recompensada. Uma coisa era certa, fisicamente Joe jamais a feriria. E emocionalmente, era seu inimigo. Não havia possibilidade de uma ligação emocional. Perfeito.
Sua escolha estava feita.
— Concordo com seus termos.

Continua ...




Mini fic - Ambitious - CAPÍTULO SETE

Maratona 4/5


Demi tentou afastar o arrepio que sentia, sempre que Joe estava por perto. Seria conveniente atribuir isso ao frio do Alaska, mas não seria verdadeiro, já que começara desde o beijo na varanda. Apertou o xale sobre os ombros. Vermelho, o que era incomum para ela, combinando com os sapatos e o batom, e um vestido negro, tudo fornecido por sua estilista com explicações explícitas. Assim como sobre todas as roupas que havia levado para usar durante o fim de semana.
Para seu horror, descobriu que seu assistente, que não sabia que seu caso com Joe era falso, havia providenciado roupas de dormir muito sensuais. Enviou uma mensagem de texto furiosa para ele, e a resposta tinha sido que o contato pele com pele, era a melhor maneira de evitar a hipotermia.
Joe esperava por ela no bar do restaurante do hotel, um copo de uísque na mão.
— Isto deve esquentá-lo.
— Quem disse que preciso esquentar?
— Você disse antes que não gostava de sentir frio.
— Acho que disse. — E sorriu, depois tomou o resto da bebida. — Vamos encontrar uma mesa.
— Claro.
A anfitriã surgiu e os levou até uma mesa num canto.
— Realmente gosto daqui — disse Demi depois de estarem sentados. — Parece um filme de fantasia. Posso imaginar anões comendo aqui. No entanto, deveria ser mais rústico e menos polido.
Se pudesse retirar aquela declaração estúpida e reveladora, faria isso. O que havia em Joe que a fazia revelar o que existia dentro dela? Talvez apenas não estivesse acostumada há passar muito tempo com uma pessoa, que não fizesse parte de seu círculo íntimo. Mas com Joe tentara manter sua imagem, porque ele era um dos inimigos e não queria que visse as rachaduras em sua armadura. E o próprio Joe parecia desumano, uma parede de puro granito, sem emoção.
E então ele a surpreendeu.
— Talvez devesse usar este ambiente como inspiração para um jogo do seu celular. Podemos nos coordenar e fazer alguma coisa em conjunto para meu celular também.
— Oh, seria divertido. Você pode construir um de seus mundos de fantasia e criar grandes cidades.
— E você criaria exércitos.
— Ou viveria em paz e caçaria e colheria. Acho que seria uma boa ideia. — Pegou o cardápio. — Está vendo? Paixão. Isso ajuda.
— Prefiro controle. As coisas não são ao acaso. São previsíveis, organizadas.
— Oh, mas Joe, assim nunca chega às alturas.
Alguma coisa nos olhos dele mudou, escureceu, e ele os dirigiu para os lábios de Demi. Ela os sentiu formigar apenas com o olhar dele. Bem, os lábios e algumas partes mais baixas... Nem queria pensar a respeito. Sobre como ele conseguia fazer aquilo. Com apenas um olhar
— Vou pedir o salmão — fez o possível para aliviar a tensão que apenas ela parecia sentir. — Embora me sinta um pouco desleal com meu amigo do saguão.
— Há alguma coisa impiedosa em você, Demi. — A voz era rouca. — E também vou comer salmão.
Ele colocou o cardápio sobre a mesa e se recostou, os olhos escuros jamais se afastando dos dela. Demi sentiu como se estivesse sendo caçada. Uma sensação estranhamente excitante.
— A impiedade é parte da paixão. Mesmo quando tomo decisões que vão contra o meu melhor julgamento, são nascidas da paixão. É evidente, ou não estaria aqui. Minha vontade de arruinar Hamlin, de promover minha empresa, meu bebê, bem, isso mostra bom senso. É a vantagem da paixão.
— Oh, há muitas outras vantagens na paixão.
— Há?
— Sim. A paixão é totalmente egoísta. É pessoal. E quando alimentada, torna-se mais faminta. Exige satisfação, não importa o custo. — Ela não conseguia tirar os olhos dos lábios dele. Hipnotizada pela forma como dizia as palavras. E como eram capazes de despertar seu corpo.
Paixão, como ele dizia, apenas ficava mais faminta quanto mais era alimentada. Aparentemente era verdade em relação à paixão física também. Não tinha experiência com isso. Outra coisa que escondia porque não era apenas uma geek, era também uma virgem, que Deus a ajudasse. Aos 25 anos. Sua única experiência tinha sido violenta, brutal e dolorosa. Sentia-se grata por ter sido interrompida antes que a estuprasse, porque sabia que era aquela sua intenção. E havia lhe tirado a confiança nos homens, não importava o quanto fingisse. Mesmo sem ter experiência com a paixão física, podia sentir a verdade de suas palavras.
— É tão ruim quando as duas partes envolvidas são apaixonadas pelas mesmas coisas? — Limpou a garganta. — Você e eu, por exemplo. Com esta coisa do negócio, quero dizer. Tenho muita paixão pelo contrato com Barrows e você, bem, você também o quer, porque nos beneficia. Assim, no final, minha paixão o beneficia e vice-versa.
— É bom quando acontece, mas na minha experiência aquele que tem mais poder, acaba assumindo o controle do jogo. E você não quer ser a perdedora, a que fica sem o controle.
— Então, resumindo, no mundo de Joe o controle vence a paixão.
— Todas às vezes, cara.
— Mas o controle não lhe dá inspiração para bons jogos. Xeque-mate.
Ele riu, um som que parecia arrancado dele, como se não estivesse acostumado a rir. Ouvira-o rir algumas vezes, mas agora parecera mais sincero.
— Não posso argumentar com a sua lógica.
— Ótimo.
O salmão foi servido logo depois, com vinho. Comeram em silêncio por algum tempo, ambos desfrutando da vista do lago, que ainda estava brilhante apesar da hora tardia graças ao verão do Alaska. Demi se lembrou de sua apresentação, quase duas semanas atrás, e riu.
— O quê? — Ele ergueu o olhar para ela.
— Bem, duas semanas atrás você estragou minha apresentação e queria matá-lo com qualquer objeto disponível. E agora aqui estamos, diante um do outro, e tenho uma faca, mas nem mesmo quero usá-la em você.
— Fizemos uma longa caminhada.
— Verdade. Você parece quase civilizado.
— Não cometa esse erro, Demi.
— Por quê? Não quer atender às minhas expectativas?
— Não quero que tenha expectativas irreais. Não se esqueça, quando isto terminar tudo volta a ser o que era. Ainda serei o inimigo e me lembrarei de tudo o que me revelar. De cada segredo que souber. E os usarei contra você.
— Você foi franco comigo Joe. Apesar de seus pecados, não é mentiroso. Portanto, acredito em você. — Sentiu uma dor no peito. — Não me preocupo.
Talvez porque ele estivesse tão determinado a não fazer uma conexão com ela. Talvez porque ela estivesse começando a sentir uma ligação, embora estranha, com ele. Alguma coisa sobre ele certamente a comovia, atingia-a no fundo e a fazia querer coisas. Sentir coisas sobre as quais não pensava. O quê? Mais beijos? Mais do que beijos? Com ele? Seria realmente estúpido. E também delicioso. Uau, precisava de ajuda.
— Está pronta para sair?
Ela acenou. Mas se saíssem, voltariam para o quarto. Sozinhos. Juntos.
— Talvez pudéssemos dar uma caminhada?
— Às nove da noite?
— Ainda está claro.
— Ursos?
— Oh! Certo. Bem, realmente não quero encontrar ursos.
— Achei que não.
— Certo. Para o quarto, então.
Joe deixou algumas notas sobre a mesa.
— Como está pagando pelas acomodações, pago o jantar.
— Nobre da sua parte. — Sentiu o estômago se contrair. Por que estava reagindo assim? Era tão patético. — Oh! — Lembrou-se da roupa de dormir. — Humm, eu o encontrarei no quarto.
— Certo. — Ele saiu e a deixou lá.
Ela suspirou, então andou em direção às lojas. Compraria moletons. E não se sentiria tão mal com Joe no quarto. Talvez.
Joe se reclinou no sofá, os olhos no céu ainda claro às 23h. Demi havia desaparecido no banheiro para uma chuveirada meia hora antes, e ele estava apenas deitado lá, pensando demais. Não tanto sobre o corpo nu dela, sob a água quente do chuveiro, porque não pensava nele? Estava permitindo que a vergonha o dominasse, que o lembrasse do porquê de não se permitir se entregar à atração que sentia por ela.
Não o impedia apenas de agir, impedia-o também de querer.
Era uma coisa que fazia realmente bem. Aprendera bem cedo, a dominar o corpo ao pensar nas coisas certas. A se sentir excitado quando precisava, a impedir a excitação quando isso o mantinha seguro.
A porta do banheiro se abriu e viu Demi. Estava usando moletom cinzento, grande e baixo nos quadris; além de uma camiseta preta com algumas palavras impressas. Os cabelos estavam presos numa toalha. Tentou lembrar se alguma vez vira uma mulher vestida tão casualmente. Nunca tivera uma amante. Tivera clientes. Mulheres que pagavam para fazer sexo com ele. Para que fosse a fantasia delas. E eram vaidosas. Para ele, estavam sempre arrumadas demais, com espartilhos que desafiavam a gravidade e a natureza. Como se ele se importasse. Como se houvesse alguma forma de tornar o ato, ou elas mais palatável.
Novamente ficou impressionado com a suavidade de Demi, que ela tentava esconder. Mas que estava lá, embora enterrada bem profundamente. E o fascinava.
Demi desenrolou a toalha da cabeça, jogou-a no banheiro e balançou os cabelos molhados. Eles desceram, ondulados, pelas costas dela. Então andou até a cama, deitou-se no meio, tirou o tablet da bolsa e o ligou. Seu rosto se iluminou com a tela clara. Colocou fones de ouvidos e começou a bater no teclado. Um jogo, ele imaginou, especialmente quando gemeu de frustração. Não conseguiu deixar de sorrir. Aquela paixão que ela defendia era uma coisa linda de se ver.
Ela era linda, percebeu assustado. Sentia a beleza dela. Queria tocá-la. Possuí-la. Era uma dor estranha e aguda. Um anseio profundo. Alguma coisa que sabia ter sentido antes, mas que parecera perdida. Numa parte diferente de sua vida. Talvez num homem diferente do que aquele em que se tornara.
— O que está jogando?
Ela se assustou e tirou os fones.
— Pensei que estivesse dormindo.
— Não. Desculpe.
— Então estava apenas fingindo.
— Estou deitado no sofá, não estou fingindo.
— Espreitador.
Ele riu. Estranho como ela o fazia rir. Normalmente não ria, apenas sorria. Não era involuntário, espontâneo. Mas ela realmente despertava uma reação que ele não controlava, que o deixava preocupado. Ressentido. Que aquela mulher, que era apenas uma menina, tivesse tanto poder sobre ele. E no entanto, alguma coisa nele também gostava, se sentia tentado. Tão tentado. Há quanto tempo nada o excitava? Desde quando alguma coisa o fazia se sentir aquecido? Estava tão cansado de sentir frio.
— Culpado — admitiu. — Eu estava admirando sua escolha de roupas.
— Você nem acreditaria no que Thad colocou na mala para mim.
— Seu assistente?
— Sim. Ele tinha, bem, momentos de sexo na mente, assim arrumou algumas coisas... Bem, não meus moletons. Mas as lojas do hotel me deram o que precisava.
— Gosto do seu moletom
Rendas e sedas não teriam sido tão atraentes. Porque no momento, Demi era uma mulher como nunca tinha visto. Limpa, sem disfarces, sem armadura. Como seria fácil agora dizer as palavras certas. Sair do sofá e se deitar na cama dela. Um beijo se transformaria em dois, que levaria a mais. Poderia lhe tocar a suavidade, alimentar-se de seu calor. Estremeceu com força. Queria o corpo dela. Queria-a. E quando percebeu o que estava planejando, o que estava se permitindo querer, parou, gelado.
Algum dia tomaria uma amante. Demorara demais para aceitar que precisava. Mas não seria esta mulher. Não agora, não sob estas circunstâncias. Podia ver como seria. Seu corpo por sua empresa. Deixarei Anfalas viver sem nenhuma interferência. Tudo do que preciso em troca é você. Sob meu comando. Para o meu prazer. Poderia fazer aquilo. E se tornar a coisa que mais odiava. Trocando favores. Tirando vantagem.
Não, não se permitiria aquilo, não mergulharia naquele inferno. Pouco restara de sua alma. Tinha sido o custo de chegar onde estava. E o que sobrara estava ferido além da cura. Mas não entregaria o resto. Seu corpo pulsava de calor, atormentava-o com o gosto do que poderia ser. Não. A paixão era a rota para a destruição. Apenas através do controle encontraria satisfação. Apenas através dele seria capaz de descobrir a resposta, a paz para o tormento que o destruía.



 Continua ...

Mini fic - Ambitious - CAPÍTULO SEIS

Maratona 3/5


SUA ROUPA para a viagem ao Alaska era sensacional. O que era bom, porque precisava de um pouco daquilo, para enfrentar um longo fim de semana com Joe num quarto de hotel. Puxou o zíper da jaqueta negra, colocou as mãos nos quadris da calça preta de couro, sentindo-se realmente durona e maravilhosa. Então esperou que Joe chegasse para entrarem no avião dele.
Roupas realmente a faziam se sentir bem. Monocromático tinha sido sempre sua estratégia. O negro a destacava. Depois de ser atacada, deixara de tentar se sentir incluída no ambiente e apenas usara jeans largos e casacos cheios de bolsos.
Não usava cores. Especialmente rosa. Não depois do vestido de baile. Você está tão linda doçura. Via a mãe atrás dela, sorrindo. Haviam passado horas procurando o vestido certo, depois que Michael a convidara para sair com ele. O mesmo vestido estava rasgado, destruído, no final da noite. E, quando o tirara e o jogara no chão antes de entrar no chuveiro para lavar o sangue, a dor e a vergonha, jurara nunca mais usar aquela cor idiota de novo.
No começo, sua equipe de publicitários e estilistas; haviam tentado vesti-la com cores mais suaves, mas finalmente todos admitiram que a escolha dela era a melhor. Dava-lhe polimento, sofisticação. Era uma armadura. Fazia-a se sentir mais como gostaria de ser. Mais dura, mais no controle. Como se houvesse dominado aquela menina idiota, que queria tão desesperadamente ser aceita. Por dentro, sabia que era uma farsa, mas, ei, pelo menos tinha a aparência que queria, se não a substância.
— Toda pronta para a neve, estou vendo.
Virou-se e viu Joe andando em sua direção, e como mulher, apreciou a aparência do homem em jeans negro e uma camisa branca de botões com as mangas enroladas até os cotovelos, com uma mochila de couro pendurada no ombro.
— E você não está.
— Vou me trocar no avião. Tem mais quartos do que a suíte de hotel que reservou para nós.
— Ha, ha. Engraçadinho, Jonas.
— É verdade.
— Bem, vou descobrir logo, não vou? — Pegou a mala do chão. — Dê a ordem ou faça o que tiver que fazer para botar este show na estrada.
Ele sorriu e tirou um celular do bolso da jaqueta.
— Sabe, há um celular melhor e mais rápido no mercado. O OnePhone.
— Melhor é uma generalização e também subjetivo. E seu celular só é mais rápido, quando é capaz de se ligar às suas torres especiais, o que acontece em... Lembre-me Demi, 10 por cento dos casos?
Ela sorriu.
— Doze. E estamos aumentando.
— Certo, certo. — Apertou um botão do celular e as portas do avião se abriram, a escada desceu. — Enquanto isto, meu celular continua a ser funcional. E faz chamadas sem deixá-las cair.
— É super funcional. Aposto que todas as pessoas que têm aviões particulares, querem seu telefone. Mas as massas querem jogar, o que encontram no meu celular.
— Um desperdício de tecnologia.
— Não é não. — Subiu a escada e abaixou a cabeça para passar pela porta.
— Agradável. Maior que o meu. — Sentou-se num dos luxuosos sofás de couro. — Quando estava no ensino médio, todos começamos a comprar celulares. E eles faziam apenas uma coisa, ligações. As telas eram em branco e preto, os toques monofônicos. Garotos ricos tinham laptops. Agora um computador está disponível no celular. Buscas na web, vídeos e jogos. Acessibilidade. Há preços adequados não só para telefones, mas para toda tecnologia, para praticamente todo mundo. Informações, diversão. Tudo em sua mão.
— Vou deixar de lado o sentido duplo do comentário da diversão na mão.
Ela sorriu.
— Por favor, faça isso.
— Mas entendo seu ponto. Você se vê como uma espécie de revolucionária, não é?
— Sim. Estamos mudando a paisagem, Joe, mudando a forma como as pessoas interagem e aprendem. Fazemos uma coisa maravilhosa.
— Estou nisto apenas pelo dinheiro.
— Mesmo? — Estudou sua expressão. — Não acredito. Você tem paixão por isso.
— Não, Demi, eu não tenho. Sou bom com computadores, compreendo-os com facilidade, mas como qualquer outra coisa na minha vida, é apenas uma ferramenta. Tudo o que me importa é o dinheiro. E é por esse motivo que sou sua ameaça, e não se esqueça disso. Hamlin gosta de poder e espero que um dia, em breve, ele o tenha cedo demais. Você é uma visionária. Apaixonada e idealista, e marque o que digo, será sua queda. Tudo o que me importa é seguir em frente. Não ligo para o certo ou o errado. Só me importa vencer o jogo.
Havia uma dureza desolada em suas palavras, um cálculo frio. Mas ela não sabia se havia verdade nelas. Tinha quase certeza de que ele acreditava nelas, mas não sabia por que ele precisava acreditar.
— O que acontece no fim? Quando acabar tudo e não houver nada mais a fazer?
— Encontro um novo jogo. — Não havia emoção na voz, nenhum fogo.
— Então prefiro a paixão e o potencial de perder. Acho que é mais divertido.
— Não tive o luxo de me divertir.
— Você é um bilionário, Joe. Relaxe e desfrute.
Os motores foram ligados e o avião começou a se mover na pista.
— Uma coisa que se aprende quando se vive nas ruas, cara, é jamais relaxar. Nunca se sentir confortável. Não abaixar a guarda. Não dormir. Precisa estar pronto para saltar e lutar por sua vida a qualquer momento. A complacência pode lhe causar a morte, uma verdade também nos negócios.
A garganta de Demi fechou.
— E agora. Agora que tem sua mansão com segurança perfeita. Agora você dorme?
Ele balançou a cabeça.
— Não.
— Então poderia muito bem estar de volta às ruas.
Ele riu.
— Luto todos os dias para garantir que jamais voltarei.
— Sua vida parece muito cansativa.
— Essa é a opinião da mulher que tem uma energia infinita?
— Mas sou feliz. É mais fácil viver quando se é feliz.
— Por que se sente feliz?
— Tenho o trabalho dos meus sonhos. Amigos. Família. — Quase tropeçou na palavra. Raramente falava com os pais. — Por que não seria feliz?
— Então por que a armadura? Se você é feliz, por que se protege tanto?
— Não sei do que está falando.
Ele se debruçou e passou o polegar e o indicador na gola da jaqueta.
— Sabe muito bem do que estou falando. Disto.
— Seus ternos são armaduras, Joe? Ou é uma coisa que usa para criar uma imagem?
— Armaduras para que ninguém diga, que me pareço com o garoto de rua que sou. Para que, não importam os rumores, pareça um homem que conquistou o sucesso e não um homem que fez seu caminho para o topo dormindo. Por baixo, porém, não muda nada.
— Muda. Eu me sentiria muito mal comigo mesma, se tivesse que subir num palco para fazer um lançamento com os cabelos desarrumados, usando aparelhos nos dentes e vestindo jeans e camisetas largos.
— Mas isso não muda você. Se mudasse, mesmo se usasse camisetas largas, você se sentiria confiante.
— Um especialista para um homem tão disfuncional.
— Mas tenho razão.
— E daí? Todos fazem isso. Você também, acabou de confessar.
Ele acenou.
— Suponho que seja verdade. A imagem é tudo. Mas diferente de você, não finjo que estou bem.
Ela não gostou de ele pensar que fingia estar bem. Ou que era verdade. Naquele momento, sentiu-se como aquela menina da escola secundária.
— Bem, quando você abandonar sua imagem, me livro da minha.
— Não a estou desafiando nem julgando. Eu sou a última pessoa a ter o direito de fazer isso, e nós dois sabemos. Estou apenas declarando um fato. Você esconde muita coisa, Demi.
Ela continuou a não gostar, que ele soubesse que sua roupa era uma armadura. E estava certo; a mudança tinha apenas a profundidade da pele, porque se não fosse, ele não conseguiria abalar tanto sua autoconfiança.
Idiota.
—Bem, da próxima vez que precisar de um analista, contratarei um profissional, certo?  Não preciso que um cara com mais problemas que eu, investigue minha cabeça. — Fez uma pausa. — De qualquer maneira, o quanto você é feliz?
— Nunca disse que sou feliz. Nem mesmo sei o que é felicidade. Mas vencer o jogo é tudo o que conta para mim.
— Inacreditável.
E se calou, o que ele também fez até o fim da viagem.
O hotel ficava à margem de um lago e era cercado por montanhas e árvores altas de sempre-verde, que o escondiam atrás de uma parede de cores verdes e castanhos.
Joe olhou em torno, a expressão impassível.
— Não parece entusiasmado. — Demi tirou uma echarpe da mala e a enrolou no pescoço.
— Não gosto de frio. — Andou em direção à porta do hotel.
Era uma cabana luxuosa de madeira cor de mel. Ela adorara quando se mudara para a cidade no Oeste da Califórnia. Adorara o calor e as palmeiras. A imensa diferença de sua cidade natal. Mas aquilo era completamente diferente.
— Então vamos entrar. — E o seguiu através das portas de vidro que deslizaram ao se abrirem para o saguão.
— Agradável. — Olhou em torno do interior de madeira. — Veja só, uma grande estátua de um salmão. É legal. E olhe, está à venda. Podia comprá-la e pregá-la na minha casa. — Não sabia por que estava tagarelando. Talvez porque o malvado e estoico Joe a tirasse do equilíbrio.
— Gostaria de ver isso, Demi, um salmão na sua mansão à beira-mar.
— Ei, combina com o tema.
— E também não combina.
Ela sorriu e tentou fazê-lo sorrir. De certa forma, conseguiu, mas o sorriso era terrivelmente falso. E não sabia se era resultado da conversa que haviam tido no avião, quando ele dissera que não sabia o que era a felicidade. Era disso que tinha medo. Quanto mais passava seu tempo com Joe, mais ele lhe parecia humano. Fazia-a se importar com ele. Não, isso não. Joe era um idiota. Não podia, não iria se importar com ele.
— Espere um pouco, vou nos registrar.
Joe olhou o saguão e esperou que o sofisticado sistema de aquecimento o esquentasse. Não sabia por que permitia que a temperatura o afetasse. Não era como se nunca tivesse sentido frio nos últimos anos, mas a verdade é que fazia o possível para evitá-lo. E desde que saíra do avião, estivera lutando com o pensamento do que seria ficar preso lá, sem abrigo. Ter que passar a noite lidando com os elementos.
O fato de que se mudara para um lugar com um clima temperado, não tinha sido aleatório. Preferia se sentir aquecido. Não gostava de se lembrar de como era dormir no cimento gelado, coberto por papelão. Era o mesmo motivo pelo qual não gostava de sentir fome. O mesmo motivo pelo qual não tinha relacionamentos. Não gostava de lembranças. De como estava desesperado quando Claudia o encontrara. Vira-o em pé na rua, pedindo trabalho. E ela oferecera. ”Quer uma cama onde dormir esta noite, querido?”
Ainda se lembrava das primeiras palavras que lhe dissera. De como era seu perfume. De como o cheiro permanecera em sua pele depois, assim como a vergonha. Ela lhe pagara muito dinheiro por sua virgindade. Achara excitante treiná-lo. E lhe dera o suficiente para uma semana de abrigo e alimento. Uma noite de sexo por uma semana de conforto. E quando o dinheiro acabara, Claudia o encontrara de novo.
“Preciso de você de novo, querido. E quando terminar com você... Tenho amigas, sabe? Solitárias. Negligenciadas pelos maridos. Vão adorar a oportunidade de brincar com você. Se disser sim, nunca mais ficará em hotéis baratos. Poderá comprar sua casa. O que acha? Independência? Calor?”
Impossível recusar. Mas cada dólar recebido, custara demais.
— Tudo pronto!
Olhou para Demi. Ela seria quente, não duvidava. Sua pele era macia, já sabia. E seria quente. Flexionou os dedos, curvou as mãos em punhos, tentando esquecer a impressão da pele dela na dele. Uma estranha espécie de calor o percorreu. Apenas o pensamento dela o aquecia, quando um momento antes, estivera congelando de dentro para fora. Interessante. Mas não uma coisa a que daria atenção.
Seguiu-a até o elevador sem dizer nada e deixou que ela apertasse os botões, para levá-los a um andar mais alto. Um quarto com vista, sem dúvida. As portas se abriram e ele seguiu Demi pelo corredor, os saltos dela batendo no piso de madeira. Ela dava passos longos, pesados. Percebera isso nela mais cedo. Tudo parte de sua armadura. Para parecer durona. Impenetrável.
— É no final do corredor. — E abriu a porta com o cartão quando chegaram. O quarto era, como ela dissera, todo aberto, com imensas janelas do piso ao teto que mostravam o lago e as montanhas. Havia um sofá e uma cama enorme, com quatro colunas de madeira. A maioria dos homens pensaria nas atividades que poderiam ocorrer numa cama daquele tamanho. E ele também. Faça o que lhe dizem, garoto. Não está aqui para você. Está aqui para mim. Para meu prazer. Sou sua dona.
Aquela era a verdadeira Claudia. Uma mulher que sentia prazer em ser dona dele. Em vendê-lo. Aquela voz estava sempre no fundo de sua mente, lembrando-o de como era sujo. Não interessava o quanto tentasse convencer a si mesmo de que nada daquilo importava, não era verdade. Importava.
Porque não podia se livrar daquilo. Não havia como fugir do medo de sentir frio, não interessava há quanto tempo estava aquecido. Não conseguia fugir da sensação de que seu corpo pertencia à outra pessoa. Não importava há quanto tempo não o vendia. O fato permanecia, ele se vendera. E de alguma forma, parecia que nunca mais se recuperara.
— Bonito — disse Demi. — E apenas uma cama.
 O rosto dela ficou ruborizado, ele se perguntou se era apenas constrangimento ou se ela o queria.
Se o quisesse, o jogo seria mais fácil.
Tão mais fácil se o que um deles sentisse fosse verdadeiro. E ele saberia usar aquele desejo. Para torná-la mais quente para ele. Mais brilhante. Afinal, era treinado para dar a uma mulher exatamente o que ela queria.
Mas se rebelou contra a ideia. Já havia jogado com ela uma vez, no baile beneficente, quando usara sua emoção para despertar a excitação, para fazê-la gostar do beijo, embora o odiasse. Sabia que com os pensamentos certos, era possível ficar excitado, mesmo quando odiava tudo o que acontecia com seu corpo. Que era possível encontrar um lugar profundo, onde fosse capaz de controlar tudo com a mente. Cerrou os dentes.
— Sim, mas ainda quero dormir no sofá, sem discussões.
— Certo.
— A imprensa estará neste casamento?
— Sim, com muita cobertura. Foi por isso que soube que precisávamos estar juntos. Josh é uma Colter, você sabe, dos Colter que são proprietários da cadeia de restaurantes; assim, é um grande evento.
— E mesmo assim você pagou pelos quartos de todos? Devem ser milionários.
— Foi meu presente de casamento.
Olhou para ela, tentando compreendê-la. Era insegura, sabia. Elogios lhe faziam bem, porque era ansiosa por aprovação. E no entanto, fazia coisas gentis. Dava sem motivo e não compreendia aquilo. Ou talvez não fosse tanta gentileza. Talvez estivesse comprando amigos. Sim, fazia sentido para ele.
— E sua tentativa de comprar amigos.
— Todos fazem coisas gentis para os amigos.
— Eu não.
— Você tem amigos?
— Acho que não.
— Por que não?
— Neste momento da minha vida, sim, acho que os estou comprando. Não sou uma pessoa de quem os outros gostam com facilidade, caso não tenha percebido.
— Não percebi.
— Vim para o mundo sem nada. Não tenho conexões com o passado que quero manter.
Ela suspirou.
— Não estou comprando amigos. Faço isso porque quero e porque posso; logo, por que não? Mas tenho problemas com namorados.
— Tem?
— Sim Cavadores de ouro. Sou um vale-refeição para todos os homens que querem sair comigo, e é realmente cansativo. Quando alguém me convida para sair, a grande pergunta que me faço é se ele me convidaria se eu não tivesse dinheiro. Se a resposta é não, não dou mais importância.
— E como chega a tal conclusão?
— Homens bonitos não me procuram por causa do meu cérebro.
— Estereotipado.
— Mas verdadeiro. Tive um incidente desagradável no ensino médio.
— Mais dificuldade em seu passado?
O cinismo na voz dele a fez desistir de partilhar.
— E quanto a você? Não tem amigos, mas vi o tipo de mulheres que leva a festas.
Sim, era muito seletivo em relação ao tipo de mulheres que levava a festas. Lindas, vazias. Comprava seus vestidos, suas joias e as deixava se pendurar em seu braço até as fotos serem tiradas. No fim da noite, sempre seguiam para lugares diferentes.
— Não me importo com o que querem, desde que nós dois tenhamos o que queremos.
Ele conseguia passar a imagem que queria para a imprensa, elas conseguiam diamantes, exposição, a excitação de sair com uma celebridade. Qualquer coisa, desde que não fosse sexo.
— Puxa, você se parece com a maioria dos homens que saem comigo.
— Não, eu não uso. Faço uma troca. E não é melhor tentar adivinhar o que querem, antes de se aprofundar demais?
— Certo, isso é péssimo. Mas também é horrível descobrir que o cara com quem saiu para jantar quatro vezes, é um gay num relacionamento estável que tenta lhe tomar dinheiro. E por falar nisso, o homem no relacionamento não tinha ideia do que acontecia, ficou muito infeliz ao nos descobrir juntos num restaurante.
— Pelo menos ele só tirou vantagem do seu dinheiro, não do seu corpo.
— Eu sei. Mas seria bom sair com alguém que não quer usar você. Antes da Anfalas, todas as pessoas na minha vida deixaram muito claro que havia alguma coisa muito errada comigo. E agora sou popular porque me visto bem e tenho dinheiro.
Desviou o olhar dele para a vista além da janela. E ele sentiu uma coisa estranha no peito. Como se houvesse um fio invisível que os ligasse e o fizesse sentir o que ela sentia. Ou talvez fosse apenas o que ela dissera. O desejo de sentir o que pessoas normais sentiam, apenas por um momento. Geralmente não se preocupava com aquilo, mas às vezes imaginava. Como seria se seu corpo, coração e cérebro funcionassem juntos, e não como entidades totalmente separadas. Como seria se pudesse limpar a sujeira de sua pele e seguir em frente. Limpo. Como se nada tivesse acontecido. Mas não era possível.
— É assim que o mundo funciona, Demi. Quem tem dinheiro tem poder. Acha que alguém ligava a mínima para mim, quando eu era um órfão pobre vivendo nas ruas?
— Tenho certeza de que ninguém, senão você não estaria nas ruas, estaria?
— Ninguém ligou quando minha mãe morreu, porque ela não tinha nada a dar a ninguém. Tinha apenas um filho que ninguém queria cuidar. Um menino que caiu na sarjeta.
— Como você sobreviveu?
— Por algum tempo, com a igreja. Vivi lá alguns anos, frequentei uma escola dirigida por freiras. Mas depois não houve mais dinheiro para cuidar de mim e virei um sem-teto de novo.
— Suponho que isso torne patéticas minhas queixas sobre cavadores de ouro.
Ela desviou o olhar, a expressão triste. Ele devia cumprimentá-la. Acabara de lhe fornecer a melhor informação, dissera-lhe que ansiava pelo tipo certo de atenção masculina. Dava-lhe amplo material para usar contra ela. Uma oportunidade de formar um laço, que poderia usar mais tarde para sua vantagem, depois que derrubasse Hamlin. Quando fosse a hora de destruir Anfalas e Demi. Mas não queria usar aquelas informações, e não sabia o motivo.
Talvez porque ela era honesta. Porque não manipulava. Estava realmente dando alguma coisa de si mesma e ninguém jamais fizera isso com ele. Ninguém jamais o fizera querer partilhar seu passado. E no momento, ele lhe contara mais do que já contara a qualquer um. De novo, sentiu aquela espécie estranha de calor.
— Está com fome?
Ela se virou para ele.
— Sim.
— Bom. Vamos encontrar alguma coisa para jantar.
— Certo. Apenas espere enquanto troco a roupa.
Ele acenou e de repente, foi assaltado pela imagem dela se livrando de todo aquele couro. As chamas se tornaram mais ardentes.
— Vou esperá-la no saguão.
Ele saiu do quarto e sentiu frio de novo.


 Continua