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Capítulo 6 - Noite de Rebeldia.

JOE ESTAVA de pé, na janela do escritório, quando viu Demi caminhando em direção ao lago, no final dos jardins. Estaria fugindo? Escaparia sempre que encontrasse uma oportunidade? Ele deveria chamar a assistente social se houvesse um problema…
Joe olhou para o telefone, e em seguida voltou à figura de Demi, que parou em frente ao lago. Se quisesse fugir, ela certamente teria seguido na outra direção. O amplo e profundo lago e a floresta espessa logo atrás formavam uma barreira perfeita. Ele observou enquanto Demi se abaixou e pegou uma pedra, que atirou na superfície da água, criando um anel de círculos concêntricos em seu rastro. Havia algo comovente e triste em seu corpo esguio, de pé, sozinho.
Ele ouviu uma batida na porta.
– Posso ter uma palavra com o senhor?
Joe abriu a porta para Sophia.
– Está tudo bem?
– Demi não quer o quarto que preparei para ela – disse Sophia.
Ele moveu sua boca em um arco sardônico.
– Não é bom o suficiente para ela?
– É grande demais para ela.
Ele franziu a testa.
– Foi isso que ela disse?
Sophia assentiu.
– Eu fiz de tudo para agradar, mas ela não quer. E fugiu como se eu tivesse dito que ela dormiria nos estábulos.
– De quem foi a ideia de trazê-la aqui, Sophia? – perguntou ele, com um rancor simulado.
– Tenho certeza de que ela vai amadurecer ficando por aqui – disse Sophia. – Ela é uma menina de espírito forte, certo?
– E como…
– O senhor vai falar com ela?
– Eu passei a última meia hora com ela…
– Por favor – pediu a governanta.
Embora estivesse perto da aposentadoria, Sophia tinha uma tendência a se parecer com uma criança de três anos implorando para que os adultos fizessem as coisas à sua maneira.
– O que você quer que eu diga a ela?
– Insista para que aceite o quarto que preparei – disse Sophia.
– Caso contrário, onde vou colocá-la? Você me disse que não queria que Demi ficasse por perto…
– Tudo bem. – Joe deixou escapar um longo suspiro de resignação. – Eu vou falar com ela. Mas acho melhor você pegar o kit de primeiros socorros.
– Você não seria capaz de fazer mal a uma mosca, senhor Joe.
E lhe lançou um olhar irônico, assim que ele abriu a porta.
– Não, mas nossa pequena convidada parece capaz de enfiar uma faca em qualquer pessoa, e sorrindo.
Joe a encontrou ainda atirando pedras na superfície do lago. Aliás, ela era muito boa naquilo. E Demi deve ter ouvido o barulho dos seus pés amassando os seixos à beira do lago, mas não se virou. Ela se manteve ferozmente concentrada no que fazia.
– Acho que você tem um problema com a acomodação que forneci – disse ele.
Ela jogou outra pedra no lago, mas não com tanta habilidade. A pedra caiu com um baque surdo, bem no centro do lago.
– Eu não preciso de uma suíte requintada. Eu pertenço à terceira classe – disse ela.
– E é você quem deve decidir onde vai passar as noites por aqui? – perguntou ele.
Demi se virou e olhou para ele. E Joe se irritou um pouco ao ver que ela mantinha uma pedra guardada na mão. Seus olhos brilharam.
– O que você está tentando fazer? Conduzir sua própria experiência? Pois bem, saiba que não sou uma mulher muito certa.
– Não. Eu sei. Você é uma menina desmiolada, e parece disposta a morder a mão que, generosamente, está lhe oferecendo comida.
Ela o encarou com o peito subindo e descendo, como se mal estivesse conseguindo controlar sua fúria.
– Você não me ofereceu nada – atirou ela de volta. – Você nem queria que eu estivesse por aqui.
– É verdade, mas você está aqui, e parece madura e sensata o suficiente para tirar o melhor proveito desta situação.
Demi se virou e atirou a pedra no lago, mas ela bateu em um galho e desviou sua trajetória.
– Como pretende explicar aos seus amigos ou à sua família que estou aqui? – perguntou ela.
– Eu não preciso dar explicações a ninguém.
– Sorte sua...
Onde foi parar a insolência dessa menina?, ele se perguntou. Em seu lugar, havia ali uma mulher chocada, com raiva. Uma raiva tão espessa que ele podia senti-la no ar, como a umidade antes de uma violenta tempestade.
Joe pegou uma pedra e atirou-a à superfície do lago.
– Isso é um recorde pessoal – disse ele, contando 15 círculos concêntricos. – Você acha que pode me vencer?
Ela se virou e olhou para ele, com um olhar vigilante.
– E sua namorada? O que ela vai dizer quando souber que vou viver com você?
Ele se abaixou e pegou outra pedra.
– Eu não tenho namorada, atualmente.
– Quando teve a última?
Ele olhou para Demi, antes de atirar a pedra.
– Você faz um monte de perguntas, certo?
– Eu sei que você não é gay, porque nenhum gay me olharia da maneira como você me olhou no seu escritório – disse ela. – Você gostou de mim, não é?
Joe trincou a mandíbula quando se abaixou para pegar outra pedrinha.
– Seu ego é tão terrível quanto seus modos – disse ele.
Ela deu uma risada cínica e atirou outra pedrinha, que foi ainda mais longe, como se toda a sua energia tivesse sido envolvida naquele arremesso.
– Suponho que uma pessoa sem um grau universitário nunca poderia ser sua namorada... Mas sobre o que você conversa na cama? Física quântica? Teoria da relatividade de Einstein?
Ele olhou para o rosto de Demi, vendo seu sorriso de deboche e suas covinhas incrivelmente bonitas. O que era aquilo que ela o fazia sentir?
Ele estava muito familiarizado com o talento teatral. Seus pais eram uns dos melhores no teatro. Mesmo assim, deveria reconhecer que o talento de Demi merecia prêmios de interpretação.
– Por que não aceitou o quarto que Sophia preparou para você? – perguntou ele.
Seus olhos perderam o brilho atrevido e sua expressão tornou-se emburrada novamente.
– Eu não gostaria de ser atirada da parte superior de sua casa se um maníaco se chateasse por conta de um passo em falso. E suponho que você pretenda que eu faça as minhas refeições por lá... ou com os demais serventes, na cozinha.
– Eu não tenho serventes – disse Joe. – Tenho uma equipe. E sim, eles fazem suas refeições na cozinha. No entanto, isso é mais por conveniência do que por convenção. – E parou por um instante, antes de acrescentar: – Espero que você possa jantar comigo todas as noites.
Você ficou louco? Quanto menos tempo passar com ela, melhor.
– Por quê? – perguntou ela, com um olhar carrancudo. – Para que você possa me criticar quando eu usar o garfo ou a faca errada?
– Por que você acha que todos os que cruzam seu caminho estão automaticamente contra você?
Demi se virou e olhou para o lago, em vez de encará-lo. Ela parecia trincar a mandíbula. E ficou muda por um tempo antes de falar, quando o fez foi com uma voz mais baixa do que o normal, com um toque distintamente rouco.
– Eu não quero aquele quarto.
– Por que não?
– É... muito elegante.
– Tudo bem – disse Joe, mentalmente revirando os olhos. – Você pode escolher o seu próprio quarto. E as opções por aqui são enormes...
– Obrigada – disse ela, em não mais que um sussurro. E ela ainda não estava olhando para ele, mas algo em sua postura sugeria um alívio enorme. Seus ombros tinham perdido a tensão, sua coluna não estava mais tão ereta, suas mãos não estavam enroladas em punhos apertados nem seguravam pedras, mas permaneciam soltas ao lado do corpo.
Ele sentiu um forte desejo de se aproximar, tomar uma de suas mãos e dar-lhe um aperto reconfortante, mas de alguma forma se absteve de fazê-lo.
– Quer voltar para casa comigo ou prefere ficar por aqui um pouco mais? – perguntou ele.
Ela virou a cabeça e o encarou.
– Se preferir, eu poderia fugir quando você não estivesse olhando.
Ele a estudou por um momento, observando seu olhar decidido e seus lábios trincados.
– Você estaria correndo em direção à prisão, se fizesse isso.
Dificilmente estaria correndo em direção à liberdade, certo? Ela mordeu o lábio inferior e olhou para um pássaro que voara ao centro do lago, com seus pés gerando círculos concêntricos na água.
Joe percebeu como uma leve brisa brincava com algumas mechas soltas de seu cabelo, e como ela, distraidamente, as levava de volta ao seu lugar, usando uma de suas mãos. Ele sentiu um leve aperto no peito ao ver que sua mão tremia. Não havia nenhum sinal daquela menina irritada e difícil. Nenhum sinal de sua impetuosidade. Ela não se parecia em nada com a garota que ele conhecera mais cedo. Na verdade, parecia estar em uma encruzilhada de ansiedade.
Joe se abaixou, pegou uma pedra e entregou a ela.
– Meu irmão Jake detém o recorde por aqui. Dezessete círculos...
Ela tomou a pedra da mão dele, mas assim que seus dedos se tocaram sentiu um choque elétrico ao longo do braço. Lentamente, ela levantou seu olhar. Em um momento, ele perdeu a noção do tempo e lugar. Poderiam ter se passado segundos ou minutos... ou mesmo dias.
Seus olhos continuavam rastreando a boca de Demi, a forma daqueles lábios, que sugeriam paixão e calor, além de uma estranha sensação de inocência intocada. Ele se sentia como um ímã atraído por ela. E teve que lutar com todos os músculos e tendões do seu corpo para combater sua força.
Joe viu quando a ponta de sua língua deslizou para fora, umedecendo o lábio superior. Logo em seguida, seus lábios exibiram um brilho tentador. O sangue correu para sua virilha, engrossando-o como se fosse um foguete de luxúria. Ele teve a sensação repentina de que passara toda a sua vida dormindo... até aquele momento.
Para Joe, foi como sair de um frigorífico. Um derretimento lento se movia através de seu corpo. Ele podia sentir todo o caminho, até as pontas dos dedos. O desejo, a compulsão de tocar, de sentir sua pele macia, de deslizar, de mover-se contra o seu corpo... Sua mente não seguia as lógicas habituais. Ele experimentava um curto-circuito de imagens eróticas, de fantasias quentes que invadiam seu corpo, e tudo isso em questão de segundos.
Demi poderia notar aquela turbulência nele? Teria alguma ideia do efeito que tinha sobre ele? Ele tentou ler a expressão em seu rosto, mas não conseguiu. Joe levou uma das mãos ao rosto de Demi, mal consciente de que estava fazendo isso, até sentir a suavidade cremosa de sua pele contra a palma de sua mão. Depois inclinou seu rosto, para que ela encontrasse seu olhar. Aqueles olhos sedutores fizeram sua pulsação ficar ainda mais forte. Cada batida do seu coração era um golpe de martelo, enviando um eco profundo e retumbante à sua pélvis. Aquela pele parecia de seda contra a palma da sua mão. Seus olhos continham um brilho de antecipação, de expectativa, de triunfo.
E passou o polegar sobre o queixo de Demi, observando-a. Seus lábios estavam ligeiramente abertos, apenas o suficiente para que ele sentisse o aroma suave de sua respiração, um aroma de baunilha. Como seria fácil vencer a distância e colar seus lábios aos dela... E o desejo de fazê-lo era enorme, talvez mais forte do que em qualquer outro momento de sua vida. Mas ele sabia que, fazendo isso, estaria cruzando uma linha, rompendo uma fronteira importante, lançando um convite a uma série de problemas.
– Não vou fazer isso... – disse ele, afastando a mão do rosto de Demi.
Seu olhar era de pura inocência.
– O quê?
– Você sabe muito bem.
– Eu poderia levá-lo a ignorar esses princípios tão cristalizados em sua personalidade. E poderia fazê-lo num piscar de olhos.
Joe franziu o cenho, até que suas sobrancelhas se encontraram.
– Por que você está tentando arruinar a única chance de colocar sua vida em ordem?
Ela o encarou.
– Eu não preciso de você para colocar minha vida em ordem. Não preciso de ninguém.
– Até agora, como tem sido a sua vida?
Os olhos de Demi emanavam uma fonte de puro calor.
– Sabe o que eu odeio em homens como você? Vocês acham que, só porque têm tudo, podem usar os demais.
– Veja bem – disse Joe. – Eu sei que isso é difícil para você. Você não queria estar aqui. Mas qual seria sua outra alternativa?
Ela trincou os lábios e o encarou, assustada.
– Eu não sou a única pessoa no mundo que poderia terminar a vida em uma prisão.
– Sim, claro... Aparentemente, a maioria das prisões está cheia de pessoas inocentes – disse ele. – Porém, de acordo com nossas leis atuais, não podemos roubar ou causar danos materiais sem sermos punidos por isso.
Ela se afastou.
– Eu não tenho por que ficar ouvindo isso.
– Demi... – Joe a pegou pelo braço e virou seu rosto para ele. – Eu quero ajudar, entende?
Ela lhe lançou um olhar de desdém.
– Como? Fazendo com que eu me acostume a todo esse luxo, para logo depois ser jogada de volta às ruas, assim que o mês terminar?
A carranca de Joe se aprofundou.
– Você não tem uma casa para onde ir?
Seus olhos deslizaram para longe dos dele.
– Solte o meu braço.
Ele afrouxou o aperto, mas a manteve presa entre os dedos.
– Você não será lançada de volta às ruas – disse ele.
E o que você pretende fazer quando este mês chegar ao fim?
Os pensamentos pipocavam em sua cabeça. Se Demi não tinha uma casa para onde ir, para onde iria? Em que ponto sua responsabilidade em relação a ela começava e terminava? Aliás, será que ele tinha alguma responsabilidade naquela história?
– É assim que você está vivendo? – perguntou ele. – Vagando pelas ruas?
Ela soltou seu pulso e cruzou os braços sobre o corpo, atirando-lhe um olhar ardente.
– E você se importa? Pessoas como você nem percebem pessoas como eu.
Joe ficou observando-a... talvez um pouco demais. Sua mão estava formigando onde, antes, segurava seu pulso. Era como se o sangue estivesse borbulhando em suas veias, como refrigerante em ebulição. Ele notou a forma como seus olhos castanhos o provocavam, notou a maneira como ela movia o corpo, como um gato elegante, mas também uma fera encurralada.
Ele não tinha ideia de como lidar com aquilo. Aliás, a missão de cuidar de Demi era do serviço social, não sua. Ele deveria estar concentrado em seu trabalho, enquanto Sophia dava sua contribuição à sociedade. No entanto, Demi Lovato não seguia o roteiro esperado. Ela estava um pouco mal-humorada e parecia determinada a causar problemas para todos que se atrevessem a chegar perto demais.
– Enquanto você estiver vivendo por aqui, sou o responsável por você – disse Joe. – Porém, isso significa que você também tem certas responsabilidades.
Ela elevou o queixo.
– Que tipo de responsabilidades? Devo mantê-lo trancado no seu quarto?
– Não! Definitivamente não!
Seu olhar dizia tudo. Era de uma desconfiança sem tamanho.
– Claro, e eu acredito em você...
– Eu quero dizer que, Demi... – disse Joe. – Eu não tenho o hábito de ir para a cama com jovens que não têm boas maneiras, que não se comportam com o mínimo de decência.
Ela deixou escapar uma risada com sonoridade musical.
– Acho que eu vou ser obrigada a fazê-lo engolir suas palavras.
Estoicamente, ele resolveu ignorar a luxúria que tomava conta da sua pélvis.
– Demi, nos vemos na hora do jantar – disse ele. – E espero que você se vista para a ocasião. Isso significa que não serão aceitos jeans, chinelos, nem decotes, muito menos umbigos à mostra. Sophia vai arranjar um traje adequado, caso você não tenha nada.
Demi fez uma saudação simulada e lhe disse:
– Certo, senhor!
Joe caminhou cerca de trinta passos, antes de se virar para vê-la, mas ela estava novamente olhando para o lago. Ele observou enquanto Demi atirava uma pedra o mais longe que pôde. A pedra caiu no meio da água, afundando com um forte estalo, mas mesmo assim gerando fortes círculos concêntricos em sua superfície.

Capítulo 5 - Noite de Rebeldia

DEMI OBSERVOU como Joe Jonas fez seu caminho pelo longo e largo corredor, com passos largos e decididos. Ela se sentia estranhamente ofegante após seu encontro. Seu pulso estava vibrando muito rápido. Era como se algo pequeno e assustador tivesse desestabilizado as válvulas do seu coração.
Sua reação a Joe a deixara confusa. Muito confusa. Os homens não costumavam gerar esse efeito sobre ela. Até mesmo os de boa aparência. E não existiam muitos homens mais bonitos do que Joe Jonas. Ela estava esperando um homem de cabelos compridos, louco por computador, curvado, com barba espessa… mas encontrara um homem que parecia um modelo masculino em um anúncio de gel pós-barba ou relógio de luxo. Ele era alto, de ombros largos, corpo atlético, e tinha um ar de autoridade muito convincente. Havia algo em sua aparência que fazia soar um leve alarme de reconhecimento na cabeça de Demi. Ela vira uma foto dele em algum lugar? Ou seria do tal irmão gêmeo? Até mesmo seu sobrenome parecia intuir certa familiaridade, mas ela não conseguia se lembrar de onde o ouvira antes…
Seu cabelo castanho-escuro, grosso e ondulado, estava despenteado, como se ele fosse uma espécie de professor maluco, e isso parecia atraente aos olhos de Demi. Ele estava bem barbeado, mas algo lhe dizia que sua barba era bem cheia. E Demi sentiu o impacto de seus hormônios masculinos assim que entrou em seu escritório. Foi como uma colisão contra a sua carne. Potente. Poderosa. Primal. Deixando-a consciente de seu corpo, de uma maneira que ela não sentia há anos. Aliás, talvez nunca tivesse sentido.
Joe desencadeava algo nela, algo profundamente instintivo. Algo rebelde. Ela sentiu um desejo irresistível de desmantelar sua máscara de civilidade. Queria desfazer o bloqueio. Queria trazer à tona o homem primitivo que vivia por trás dos modos aristocráticos. Ele estava com os braços cruzados, mantendo um ar controlado e distante, além de arrogante. Havia uma parede invisível em torno dele, uma parede que a avisava para não chegar perto. E se ela se atrevesse? E se ela chegasse tão perto que ele não fosse capaz de manter esse controle de ferro? Ela abriu um sorriso. Que pensamento tentador…
Demi não conseguia evitar seus olhos incríveis. Eram uns olhos profundos, com cílios grossos e sobrancelhas fortes. Olhos inteligentes. Atentos. Intuitivos. Ele tinha um nariz reto e uma mandíbula que sugeria um traço de teimosia. Parecia viver sempre metido em sua própria cabeça e pensamentos, como se a lógica fosse a sua moeda. A ação viria mais tarde, após a devida consideração.
Se não servisse para nada mais, Joe marcaria uma mudança no padrão de homens com os quais fora forçada a compartilhar quartos e camas. Talvez aquele mês não se mostrasse tão complicado, afinal de contas... Poderia ser divertido flertar com Joe. Aliás, ela se divertia ao vê-lo agir destilando toda a sua sabedoria e vendo seu rosto severo e sua postura de ferro.
Demi era exigente quando se tratava do homem a quem entregaria seu corpo, mas isso não significava que não poderia ter um pouco de diversão na vida. Ele era engomado e formal, o típico macho inglês bem-nascido. Talvez quisesse apenas preencher um pouco do seu tempo, para depois abandoná-la.
No entanto, ser portador de um diploma universitário de alto nível não o tornava diferente de qualquer outro homem que ela conhecera em sua vida. Homens movidos por hormônios. Homens com desejos de ter seu apetite saciado com quem estivesse
disponível. Porém, ela provaria que Joe não tinha o direito de olhá-la com tanta superioridade.
Demi abriu um pequeno sorriso. Sim, aquele período de prisão domiciliar poderia provar-se a melhor diversão que ela tivera em anos.
A governanta apareceu no final do corredor e se aproximou de Demi, com seu pulso envolvido por uma atadura. Isso trouxe de volta memórias do tempo em que seu padrasto a agarrava pelos pulsos e os atava, quando ela tinha 11 anos, e em seguida lhe dizia que a mataria, ou mataria sua mãe, se Demi contasse a alguém como se machucara. Ela tinha de fingir que caíra da bicicleta. Uma bicicleta que ainda não tinha. Porém, as placas e os parafusos em seu pulso não foram as únicas cicatrizes que seu padrasto lhe infligira.
Seus problemas com autoridade, sua rebeldia, sua desconfiança dos homens e seus frios pesadelos que a faziam suar eram marcas de uma infância e adolescência passadas à mercê de um louco. E ela não estaria ali, fazendo aquele trabalho ridículo, se não fosse pela maneira como seu padrasto e o advogado dele a fizeram parecer uma criminosa.
– Vem por aqui, Demi – disse Sophia, conduzindo-a ao primeiro andar. – Então, o que está achando deste lugar até agora?
– Tudo muito bom, eu acho.
Demi não entendia por que deveria ser exageradamente amigável com a governanta. Sophia parecia boa o suficiente, mas seria um desperdício de energia tentar gerar uma amizade, quando, em questão de semanas, estaria para sempre longe dali.
– Tive que persuadir o senhor Jonas a concordar em ter você aqui – disse Sophia, quando elas chegaram ao primeiro andar. – Não que ele não quisesse fazer sua parte no trabalho de caridade… Ele é incrivelmente generoso e apoia muitas causas, mas é um homem que gosta de ser deixado sozinho para fazer o seu trabalho.
– Será que ele tem alguma amiga? – perguntou Demi.
A expressão de Sophia se fechou.
– A privacidade do senhor Jonas é de suma importância para ele.
– Vamos lá… deve haver alguém em sua vida – disse Demi.
A boca de Sophia trincou, como se ela estivesse lutando para não ser indiscreta sobre seu empregador.
– Eu valorizo demais o meu trabalho para revelar tais informações pessoais.
Demi deu de ombros, bem de leve.
– Ele parece muito chato, se você quer saber. Vive para o trabalho, sem abrir espaço à diversão.
– Ele é um empregador maravilhoso – disse Sophia. – E um homem decente, com honra e princípios sólidos. Você teve muita sorte por eu ter sido capaz de convencê-lo a permitir sua estadia. Ele não costuma fazer isso…
– Sorte a minha.
Sophia lhe lançou um olhar de advertência.
– Espero que você não cause problemas para ele.
Quem, eu?, Demi pensou, com outro sorriso, mas desta vez interno.
A governanta fiel de Joe Jonas pensava que ele mantinha princípios sólidos, certo? No entanto, quanto tempo duraria tais princípios, antes que ele caísse em tentação? Ela percebera a maneira como ele a observara. Joe podia ser inteligente e sofisticado, mas tinha as mesmas necessidades que qualquer outro homem da sua idade. Ele era saudável e apto, além de estar no auge de sua vida. Por que não poderia querer tirar proveito da situação?
No entanto, Demi conhecia o poder que tinha à sua disposição. Aliás, esse era o único poder que possuía. Ela não tinha dinheiro, nem prestígio, nem pedigree. Tinha apenas o seu corpo, e sabia como usá-lo.
– Como você machucou o pulso? – perguntou Demi, para preencher o silêncio.
– É apenas um pouco de tendinite – disse Sophia. – Eu tenho de vez em quando. Mas tudo vai se resolver se eu puder descansar. Envelhecer é isso… e eu estou com medo.
Demi seguiu a governanta em direção ao terceiro andar da casa. Os tapetes persas eram tão grossos que pareciam de veludo, a decoração luxuosa mostrava influências francesas e italianas. Obras de arte deslumbrantes decoravam as paredes, incluindo retratos e paisagens de vários tamanhos, além de bustos de mármore e estátuas posicionadas ao longo do corredor. Lustres estavam dependurados como fontes de cristal, e as luzes presas à parede brilhavam com a mesma alta qualidade.
Demi nunca estivera em um lugar tão opulento. Aquilo era como um palácio. Como a vitrine de uma pessoa sofisticada e rica. Mas não havia objetos pessoais espalhados por ali. Nenhuma foto de família ou recordações. Não havia nada fora do lugar. Tudo estava em seu devido lugar. Parecia mais um museu do que uma casa.
– Este é o seu quarto – disse Sophia, abrindo a porta de uma suíte, bem na metade do longo corredor. – Tem seu próprio banheiro e varanda.
Varanda?
Demi parou. Seu coração disparou. O medo enviou um arrepio que atingiu seu couro cabeludo. As cortinas de seda das portas que conduziam à varanda ondulavam com a brisa da tarde, como se fossem o vestido de baile de um fantasma.
Quantas vezes ela fora arrastada para a varanda em sua infância? Quantas vezes fora trancada lá fora, fizesse calor ou frio? Quantas vezes fora forçada a observar, impotente, a sua mãe se debatendo do outro lado do vidro? E Demi aprendera a não
reagir, pois quando o fazia sua mãe sofria ainda mais. Se reagisse, seu padrasto encontrava uma maneira de aumentar o castigo.
E ela voltara a sentir… Ah meu Deus, ela voltara a sentir…
Seu peito estava apertado, pesado. Cada respiração era como se estivesse tentando arrastar uma estante cheia de livros. Ela não podia falar. Sua garganta ficou fechada por conta de um estrangulamento de pânico.
– É de tirar o fôlego, não é? – perguntou Sophia. – E só recentemente foi reformado. Ainda podemos sentir o cheiro da tinta fresca.
Um tremor atingiu o corpo de Demi como um terremoto. Suas pernas ficaram frias e bambas, como se seus ligamentos tivessem sido cortados com uma espada. Gotas de suor escorriam pelas suas costas, quentes e pegajosas como o sangue. Seu estômago se revirava, gerando um acesso de náuseas. Uma maré incômoda subia à sua garganta.
– Eu… eu não preciso de um quarto tão grande – disse ela. – Basta me colocar em um dos quartos do térreo. Nós passamos por um agradável, no segundo andar. Aquele azul... seria suficiente. Eu não preciso ter minha própria varanda.
– Mas há belas vistas de toda a propriedade, e aqui você terá muito mais privacidade. É um dos quartos mais bonitos da…
– Eu não me importo com as vistas – disse Demi, afastando-se da porta para ficar perto de uma estátua de mármore que parecia tão fria quanto seu corpo. – E não sou uma convidada de honra, certo? Estou aqui para trabalhar. Eu só preciso de uma cama e um cobertor.
O que era muito mais do que tivera em um passado não tão distante.
– Mas o senhor Jonas insistiu que você…
– Sim, sim, eu sei. Eu devo ser colocada o mais longe possível do seu quarto – disse Demi, abraçando o próprio corpo. – Mas por quê? Será que ele não confia em si mesmo?
– O senhor Jonas é um cavalheiro – disse Sophia, trincando os dentes.
– Sim, claro… mas mesmo os senhores da alta sociedade têm hormônios.
Sophia deixou escapar um suspiro de frustração.
– Será que você, pelo menos, poderia olhar para o resto do quarto? Você poderia mudar de ideia ao ver como…
– Não.
Demi se afastou e voltou a descer as escadas, vencendo um degrau após o outro apressadamente. Ela não conseguiu respirar com calma até chegar à saída mais próxima. E parou, sob a luz do sol, dobrando seu corpo para a frente, com as mãos nos joelhos, os pulmões a todo gás, sentindo o ar quente do verão.
De jeito algum ela dormiria em um quarto com varanda. De jeito algum!

Capítulo 4

No final das contas, era possível que a missão de sua governanta se revelasse muito mais interessante do que ele imaginava. 
Demi parou na frente das janelas com vista para o jardim principal. 
– Você mora aqui sozinho? – perguntou ela. 
– Sim. Os empregados da casa também moram aqui, mas eles têm quartos separados. Sophia é exceção. Ela tem uma suíte no andar superior. 
Demi se virou e o encarou com um olhar direto. 
– Parece um lugar muito grande para uma única pessoa. 
– Eu gosto de ter o meu próprio espaço. 
– Deve custar um caminhão de dinheiro manter este lugar em bom estado. 
– Eu consigo manter. 
– Sim, eu sei… mas dinheiro e posses não me impressionam – disse ela, virando-se para novamente olhar em direção aos jardins. 
– O que a impressiona? 
Ela virou o rosto para ele e inclinou um dos quadris, tanto que a alça de sua fina camiseta, comprada em uma rede de lojas baratas, caiu, revelando a pele sedosa de seu ombro. Ela o olhava com olhos afiados. 
– Vejamos... – E trincou os lábios, deixando-se levar por seus pensamentos, antes de exalar uma lufada de ar. – Fico impressionada por homens que sabem como explorar o corpo de uma mulher. 
Joe estava fazendo o impossível para não pensar em seu pequeno corpo nu… ou no caos que sua boca de lábios grossos poderia causar se ele chegasse muito perto dela. A sensação era de que Demi o estava testando. Testando seus limites e motivações, querendo ver se ele tinha a intenção de explorá-la… 
Será que ela fora explorada nesse sentido antes? Era assim que ela enxergava todos os homens… como manipuladores? Como intimidadores? 
Ele podia ser um homem que gostava de fazer tudo à sua maneira, mas jamais descreveria a si mesmo como um machão. Podia ser arrogante às vezes, e teimoso, mas insistia no fato de que as mulheres deviam ser tratadas com respeito. Ter uma irmã mais jovem, tímida e reservada, instilara nele a importância de que os homens assumissem uma posição contra todas as formas de violência contra as mulheres. 
– É isso? – perguntou ele. – Você só está interessada na perfomance masculina? 
– Claro – respondeu ela, com os olhos brilhando. – A forma como os homens mantêm relações sexuais diz muita coisa sobre eles. Se são egoístas ou não. Se são tensos ou casuais. – Ela bateu dois de seus dedos contra a boca, de uma maneira pícara: – Vejamos você, por exemplo. 
Nada disso, ele pensou. 
– Essa teoria é realmente fascinante, mas eu acho… 
– Você é um homem que gosta de estar no controle – disse ela. – Você gosta de ordem e previsibilidade. Nunca faz nada por impulso. Sua vida é planejada, calendarizada, agendada à enésima potência. Estou certa? 
Joe não ficou muito confortável ao ter sido rapidamente categorizado como o dono de um estereótipo chato, como nada além de um clichê. Ele gostava de pensar que não era tão previsível. E tinha suas nuanças, claro que sim. Tinha várias camadas de personalidade, mas que demoravam para ser localizadas. 
Ele era capaz de passar muito tempo no terreno da lógica e da razão, mas isso não significava que não soubesse usar o lado direito do cérebro… ainda que bem ocasionalmente. 
Ele deu um passo em direção à porta mais próxima. 
– Esta é a biblioteca – disse ele. – Pode se servir de livros, desde que não os roube nem jogue fora. 
– Está vendo? – perguntou ela, dando uma risada de escárnio. 
– Eu sabia… 
E o encarou, antes de seguir à próxima porta do corredor. 
– Esta é a sala de música – disse ele. 
– Deixe-me adivinhar – disse ela, com outro de seus sorrisos de escárnio. – Você não se importa se eu tocar piano, desde que meus dedos não estejam pegajosos e eu não deixe cair migalhas entre as teclas. Estou certa? 
Joe percebeu que ela o pintava como um homem cada vez mais chato. Porém, o que lhe dera o direito de usar termos tão depreciativos? Ela o fazia soar como uma espécie de obsessivo. 
– Você toca algum instrumento? – perguntou ele. 
– Não. 
– E gostaria de aprender? 
A música também serve para domar a selvageria, certo? Ele poderia contratar um professor para Demi. Umas aulas de piano, ao menos, a manteriam fora do seu caminho. 
– O quê? – perguntou ela, com um brilho cínico de volta ao seu olhar. – Você acha que eu poderia aprender a tocar piano em um mês? 
– Eu tenho outros instrumentos. 
– Sem dúvida… deve ter mesmo. 
E o encarou, com um olhar travesso. 
– Flauta. Saxofone tenor. 
Ela o encarou, com sua boca carnuda curvada em um arco de zombaria. 
– Impressionante… Como não adorar um homem que é bom de boca e habilidoso com as mãos? 
Joe enfiou as mãos nos bolsos da calça. Por que ela estava sendo tão descarada? Por que o constrangia? Para provar que ele era tão previsível quanto os demais homens? 
Mas o que ela esperava ganhar com isso? Ele seria apenas mais um troféu do sexo masculino sobre o qual ela tripudiaria? Outro homem que ela mataria com seu fascínio sensual? 
Ele não se apaixonaria por ela. Não tinha tempo para jogar o seu jogo vazio. Ela poderia pensar que ele era previsível, que não passava de um clichê, mas Joe não viera ao mundo para isso. Demi poderia flertar, provocar e ameaçar o quanto quisesse, pois ele não cairia em sua armadilha mortal. Ele podia ser filho do seu pai, ter o mesmo sobrenome e a mesma aparência, mas os dois não compartilhavam a mesma natureza humana. 
– Vou deixar que Sophia lhe mostre o resto da casa – disse ele em tom formal, terminando de vez com aquela visita. 
– E não vai me mostrar onde eu vou dormir? – perguntou ela. 
– Eu não sei onde Sophia alojará suas coisas. 
E espero que não seja muito perto de mim, Joe pensou, depois girou o corpo e caminhou, rapidamente, para bem longe.