Capítulo 24 Último


Ao ver aquele par de olhos cor de violeta pousado sobre o topo da cabeça do bebê, Joe reconheceu que se afastar dela não ia adiantar nada. Um medo terrível começou a se apoderar dele. Medol Uma sensação estranha e nada agradável que ele estava reconhecendo de um passado há muito enterrado. 
Ele não conseguiu dormir mais de 30 minutos corridos nas duas noites seguintes. Levantava várias vezes de sua cama para ir à procura dela, e a cada vez se detia, deixando a mão cair da maçaneta, reconhecendo que seria errado aproveitar a escuridão da noite para ocultar o tumulto de sua mente e seduzi-la quando ela ainda estivesse lânguida de sono. 
Ele estava sentado em seu estúdio, esperando o melhor momento de agir com toda a cautela e precisão que lhe haviam conferido seu renome na vida profissional. As duas babás diurnas que ele insistira em contratar para facilitar um pouco as coisas para Demi tinham decidido aproveitar um inesperado dia de sol para levar os meninos para um passeio em seus carrinhos. 
Ao vê-las caminharem lado a lado ao longo da alameda arborizada, Joe decidiu procurar Demi. Ela estava colando fotografias num álbum de bebês, mas se deteve quando o viu entrar. 
— Oh, olá, Joe — disse ela, um pouco hesitante, por causa daquela expressão inusitada no rosto dele. 
Seu coração começou a bater acelerado. Não era aquilo o que ela mais havia temido e esperado ao mesmo tempo? Que ele lhe dissesse que não podia mais sustentar aquela situação? Que iria embora para procurar uma mulher que o recebesse de braços abertos? A menos que ele já tivesse encontrado alguém! 
— O que eu posso fazer por você? Houve uma pausa. 
— Eu não posso mais prosseguir com isso! A visão de Demi ficou turva. 
— Não pode? Ele assentiu. 
— Não, é claro que não. Nenhum homem de carne e osso poderia suportar uma coisa dessas — disse ele, olhando para o corpo delgado dela coberto por um simples vestido branco e se perguntando o que ela estaria usando por baixo.  E é por isso que eu decidi lhe oferecer a sua liberdade. 
— A minha liberdade — repetiu ela dolorosamente. 
Joe assentiu. 
— Eu vou passar essa casa para o seu nome. Ou lhe comprar outra casa, se você preferir. Também providenciarei uma pensão vitalícia para que você possa criar os meninos sem qualquer tipo de dificuldade financeira. — Ele pressionou os lábios. — Será um acordo generoso. 
— Naturalmente — disse Demi, debilmente, hesitando mais uma vez. — E o que precisamente você vai querer em troca de tamanha generosidade? 
Ele injetou seus olhos negros nela. 
— Quero ter livre acesso aos gêmeos e estabelecer um acordo para que eles possam viajar livremente entre a Inglaterra e os Estados Unidos. Enquanto eles estiverem comigo, você, naturalmente, terá toda a liberdade de desenvolver outros relacionamentos, se assim o desejar. 
Seu coração pareceu afundar ainda mais. 
— E essa "oferta" vem acompanhada de alguma condição? 
— Na verdade, sim. Eu não quero que você traga nenhum outro homem para dentro da casa dos meus filhos, caso contrário serei obrigado a pedir a guarda deles. 
— Entendo. — Ela respirou fundo. — É isso o que você quer? 
Joe ficou olhando para ela. Tão fria e prática! Será que aquela era a mesma mulher que tinha gritado de prazer inúmeras vezes em seus braços? Que havia carregado seus filhos no ventre? 
Ele desistiu de facilitar as coisas para ela. Quis, ou melhor, precisava mostrar a Demi como realmente se sentia. Será que ele ousaria fazê-lo? 
Quando sua mãe deixara sua família por causa de outro homem, todas as crianças da ilha começaram a cochichar pelos cantos, comentando o escândalo, mas nem ele nem Kyros jamais tinham admitido, sequer um para o outro, o quanto a fofoca, assim como a traição de sua mãe, os havia magoado. A sensação de orgulho ferido só os tornara ainda mais solitários. Essa era a razão pela qual eles eram tão introvertidos, escondendo seus sentimentos de tudo e de todos até se convencerem de que não restava mais uma única gota de emoção dentro de si. 
Joe compreendeu, de repente, que estava se arriscando a perder tudo em sua tentativa fútil de se proteger de uma dor parecida. Aquele tipo de vida é que era doloroso. A dor era simplesmente o reverso do prazer, e era impossível apreciar um sem o outro, o que significava que ele teria de se arriscar. 
— É claro que não é isso o que eu quero! — desabafou ele. — É você que eu quero, Demi, para ser a minha companheira no sentido mais pleno da palavra. 
Ela o fitou por algum tempo em silêncio. 
— Mas por que você ia querer isso? — insistiu ela, sabendo que a dor estampada no rosto dele deveria ser a mesma do seu. — Só porque está sentindo falta de sexo? 
— Não se trata de sexo\ Eu posso conseguir isso num estalar de dedos! — esbravejou ele, ultrajado. — É porque eu a amo, porque me apaixonei por você — disse ele simplesmente, enquanto uma nota de surpresa fazia sua voz ficar ainda mais grave. — E então, você quer sua liberdade ou a outra opção? 
Ela o fitou, mal conseguindo respirar, temendo perturbar a estranha magia que aquelas inesperadas palavras de amor haviam criado. 
— E que opção é essa? Seu olhar era intenso. 
— O meu coração. — Ele parecia dominar o lugar com sua altura e a força de sua personalidade. — Tome-o para você, já que só você foi capaz de destrancá-lo. Ele agora é seu. — Depois acrescentou, com uma voz mais suave: — Se você o quiser. 
Os olhos de Demi ficaram cheios d'água, mas ela se obrigou a piscar para contê-las e balançou a cabeça. 
— É claro que eu quero! Mas você não pode estar falando sério, Joe. 
— Não posso? — Ele foi até ela e fez com que se levantasse. — Eu estou falando muito sério. Fui um tolo de não ter me dado conta de tudo isso antes. Eu a quero, meu amor. Minha doce e corajosa Demi. Meu único e verdadeiro amor. 
As lágrimas começaram a rolar pela face dela. 
— Não chore, preciosaPor favor, não chore. É o seu Joe quem está lhe pedindo. 
Mas ela não podia parar, nem queria, pois aquelas eram lágrimas de alegria e incredulidade, e não de tristeza. 
Ele as secou com a ponta dos dedos, como fizera tempos atrás, quando seu filho adoecera, e então tomou o rosto dela suavemente nas mãos. Ela estava tremendo ao olhar para ele, pois sabia que, assim como Joe havia lhe oferecido seu coração, ela também tinha esculpido um lugar no próprio peito, há muito tempo. Um lugar tão profundo que nenhuma força do mundo conseguiria tirá-lo de lá. 
Quando ele a puxou para junto de si, Demi compreendeu que jamais teria de duvidar do compromisso que Joe estava assumindo com ela. Ele nunca lhe havia feito falsas promessas, portanto não tinha motivo para lhe dizer algo que não pretendia cumprir. 
— Você vai me beijar agora? — sussurrou ela, arfante. 
— Se eu vou beijá-la? — Ele olhou por um longo momento para ela, com uma expressão repleta de amor e de uma alegria exultante. — Você que ouse me deter, preciosa. 




EPÍLOGO 



— Você acha que ele gostou? 
Joe percebeu a ansiedade na voz de Demi ao desviar o olhar da janela que deixava entrever a neve. 
— É claro que sim. Ele adorou — disse ele suavemente.—Ficou encantado com você e babou pelos gêmeos. — Ele nunca havia visto seu pai tão contente. — Ele é um avô muito orgulhoso. 
— É verdade — disse Demi. 
Aquilo devia ter sido difícil para ele — ver a história se repetir, ainda que não integralmente, pois Demi não pretendia ir a lugar algum. Ela olhou para seu amante grego com um sorriso nos lábios. Ela e Joe haviam se mudado para Nova York quando os gêmeos completaram seis meses — haviam comprado uma incrível casa de pedra num lugar deslumbrante chamado Gramercy Park. Havia uma enorme variedade de árvores por lá — salgueiros, castanheiras e olmos — e seu jardim era repleto de rosas e alfazemas. O bairro era realmente surpreendente. Um oásis verde no meio daquela cidade acelerada que Demi estava aprendendo a conhecer e a amar. 
Joe havia contratado um arquiteto premiado para trabalhar em sua companhia para poder ter um pouco mais de tempo livre. Ocupava-se com um número suficiente de projetos para manter sua criatividade em ação, mas tinha tempo para acompanhar o crescimento de seus filhos maravilhosos. 
Demi ficou olhando para seu belo perfil autocrático. Ele estava abrindo uma garrafa de champanhe e se virou para olhá-la. 
— O que foi? — perguntou ele, notando uma pergunta silenciosa nos olhos dela. 
Demi tinha aprendido muito a respeito daquele homem que tanto amava. Que fora muito defendido emocionalmente no passado para se proteger da dor, um legado de sua própria infância. Havia compreendido também que a única maneira de superar uma situação desconfortável era encará-la de frente, e esperava que Joe tivesse aprendido o mesmo. 
— Estava me perguntando se eu algum dia chegaria a conhecer seu irmão gêmeo — disse ela calmamente. 
Um sorriso curvou os lábios dele. Será que ela havia lido seus pensamentos? 
— Eu estava planejando conversar com você sobre isso. 
Joe lhe estendeu uma taça de champanhe. 
— Estamos celebrando alguma coisa? 
— Mas é claro — disse ele, erguendo as sobrancelhas. — A nossa vida é uma eterna celebração, não é, preciosa— perguntou ele suavemente. 
— Oh, Joe — murmurou ela, mordendo o lábio inferior. — Isso é tão antiquado. 
— Mas é verdade. E então, aceita casar comigo? 
— Casar? — Ela pousou a taça rapidamente, temendo deixá-la cair quando seus dedos começaram a tremer. — Por quê? 
— Por quê? — Ele balançou a cabeça. Ela nunca parava de surpreendê-lo. Quem poderia imaginar que um dos solteiros mais cobiçados de Nova York teria seu pedido de casamento tratado tão friamente? — O que você acha? 
Tentando ser prática, Demi deu de ombros. 
— Porque isso facilitaria a obtenção do seu visto? Ou talvez para regularizar a situação dos bebês? 
Joe pousou a própria taça. 
— Eu não acredito que estou ouvindo isso! Você está deixando de fora a principal razão pela qual as pessoas decidem casar. E o amor? Nós amamos um ao outro. Não acha que isso é razão suficiente para eu querer que você se torne minha esposa? 
Demi respirou fundo. Aquela era sua chance de desfazer uma dúvida que a vinha atormentando de tempos em tempos. 
— Mas nós só estamos juntos por causa dos gêmeos, não é? — salientou ela um pouco hesitante. — Eu sei que nos amamos agora, mas se eu não tivesse engravidado, nós ainda estaríamos afastados. Às vezes eu me pergunto se você não se arrepende de ter caído nessa espécie de armadilha. 
Joe não respondeu de imediato. Sabia que o que dissesse agora seria extremamente importante para que ambos pudessem dar aquele assunto por encerrado para sempre. 
— Isso é verdade — admitiu ele, vendo a boca rosada de Demi franzir. — Talvez nós pudéssemos ter simplesmente nos conhecido e nos apaixonado, mas tivemos de passar por muitas dificuldades para atingir a felicidade que temos hoje, e algo conquistado com tanto esforço é muito mais precioso. A vida nem sempre segue regras, preciosaÀs vezes você tem de inventar as suas próprias para criar o próprio conto de fadas, e isso é muito recompensador. — Seus olhos negros brilhavam de amor e seus lábios começaram a se curvar num sorriso. — Você ainda não respondeu a minha pergunta. Aceita casar comigo? 
Demi foi até ele com um sorriso nos lábios e lançou os braços em torno de seu pescoço. 
— É claro que sim, meu amado e querido Joe. 
Ainda abraçada a ele, Demi pensou que seu irmão gêmeo poderia vir ao seu casamento para que ela finalmente o conhecesse. Aquela talvez fosse uma boa oportunidade para ele e Joe fazerem as pazes. Joe tinha razão. Cada um precisava fazer seu próprio conto de fadas acontecer, e as possibilidades eram intermináveis. E o melhor de tudo é que o seu estava apenas começando. 


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Espero que vocês tenham gostado amores . E não se esqueçam que as 20:00 sai a sinopse da próxima fic ;)

Um comentário:

  1. que lindoooooos
    não acredito que já acabou !!!
    ansiosa para a nova fic ❤️
    beijos

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Espero que tenham gostado do capítulo :*