Capítulo 22


Calma, a todo custo tinha de permanecer calma, Demi repetia  para si mesma ao percorrer os corredores superiores do antigo mosteiro, dirigindo-se para as escadas de pedra que a levariam até o magnífico salão principal.  
Poderia haver uma explicação perfeitamente racional para o fato da fotografia estar no quarto de Joe, embora, por mais que quisesse, nenhuma lhe vinha à mente. Mas ela o amava, não amava? Mesmo ele se revelando o bastardo egoísta, cruel e impiedoso, caso suas suspeitas estivessem corretas, ela o amava.  
Algumas mulheres — ela mesma, dentre elas — eram seus próprios piores inimigos! Queria poder desligar o amor como a um interruptor, mas sabia que isso não era possível.  
Poderia ter se casado com o querido, seguro e confiável Ben e passado o resto da vida numa trilha constante, evitando os picos e precipícios devastadores de estar perdidamente apaixonada por um homem em quem não podia confiar de modo algum. Queria desesperadamente poder confiar nele, mas como poderia?  
Parando no patamar do primeiro andar para permitir que o coração desacelerasse um pouco, apoiou-se no corrimão de pedra fria da janela. Encararia isto de maneira calma e razoável, e não chegaria já com acusações que poderiam vir a ser infundadas.  
Não era mais a ingênua menina de dezessete anos, recém-saída de uma escola de freiras, lembrou-se rapidamente. Estavam ambos, como Joe afirmara, mais velhos e mais sábios. Teria que se esforçar mais para acreditar nele, a despeito das lembranças persistentes do que acontecera anos atrás.  
Sabia que já passara da meia hora que combinara com Joe. Mesmo assim, demorou-se por mais alguns instantes, sua atenção agora voltada para o carro esporte baixo, amarelo claro, que estava estacionado enviesado no acesso de cascalho defronte ao mosteiro.  
Joe tinha visitas, deduziu, num lampejo de irritação. Não podia ser em hora mais inconveniente! A confrontação planejada teria de ser adiada. O que não era necessariamente algo ruim, considerou, ao iniciar a descida até o andar térreo. Isso lhe daria mais tempo para se acalmar e recuperar do choque de ter encontrado o retrato emoldurado daquela mulher no quarto de dormir de Joe 
Não estava com apetite para comer nada no café da manhã, geralmente servido no pátio, mas com certeza adoraria uma xícara do excelente café de Rosa, caso ainda sobrasse um pouco em condições de ser bebido.  
De repente, a idéia de sentar-se no isolamento tranqüilo do pátio parecia muito atraente. Inspirar o ar quente perfumado e ouvir o som melódico dos pombos, a fonte despejando na bacia de pedra, e o ruído da brisa leve nas folhas da velha figueira, enquanto aguardava que Joe dispensasse o seu visitante. Sim, era exatamente o que estava precisando.  
Tal tranqüilidade com certeza a ajudaria a lidar com a situação de uma perspectiva adulta.  
O caminho mais rápido até o seu destino era através da porta externa da biblioteca, ao invés das portas envidraçadas do pequeno salão que costumava usar. Era engraçado como, enfim, estava aprendendo a se virar no labirinto que era o mosteiro, justamente quando poderia ter que abandoná-lo para cuidar de um coração partido.  
Mas não ia pensar nisso. Pelo menos, ainda não. Era negativo demais, pensou ao abrir a porta de carvalho pesada. Primeiro tinha de escutar o que Joe tinha a dizer. Poderia ter entendido tudo errado, o que sugeria uma reação exagerada há cinco anos.  
E esse foi o último pensamento sensato que teve, porque o que Joe tinha a dizer a respeito da fotografia no porta-retratos de prata tornou-se uma questão acadêmica, quando Demi viu a própria mulher sentada à mesa debaixo da figueira, com rios de lágrimas descendo pelo belo rosto. Joe estava sentado do outro lado da mesa, inclinado para a frente, segurando ambas as mãos dela nas suas, falando com ela, suas palavras eram indecifráveis devido à distância, mas o tom de voz era confortante e decididamente conciliador.  
Alguma coisa que ele falou deve ter irritado a jovem e linda morena. Tudo aconteceu tão rápido, que Demi, imóvel devido ao choque causado pelo que estava presenciando, podia apenas estremecer de incredulidade ao ver a outra mulher levantar-se, furiosa, com uma histeria aguda na voz. A única palavra que conseguiu discernir, em meio à enxurrada em espanhol, foi Perfídia! E pérfido não era um dos adjetivos que costumava usar para descrever o homem que a traíra, com esta mesma mulher, cinco anos atrás?  
Os olhos de Demi gelaram, seu estômago se contorceu, enquanto ela olhava Joe erguer-se imediatamente e capturar as mãos gesticuladoras da morena. Depois, com algumas palavras murmuradas — desculpas esfarrapadas? —, ele a tomou nos braços e ficou abraçado a ela, carinhosamente apertando a cabeça escura contra os seus ombros largos, embalando-a para a frente e para trás até que, gradualmente, levou-a até a entrada da casa.  
Quando eles desapareceram no interior da casa. Demi mordeu as falanges das mãos para impedir-se de gritar. Não fazia a mínima idéia do que estava acontecendo, mas para ela estava claro que aqueles dois eram bem mais do que apenas meros conhecidos! A suspeita de que a outra mulher era a noiva dele, ou a esposa, voltou com tanta força que se sentiu mal.  
A única maneira de descobrir a verdade era confrontá-los e perguntar. E a única maneira de fazer com que suas pernas chumbadas começassem a se mover foi convencer-se de que tudo não passava de um engano, algo que, apesar de parecer comprometedor na superfície, na realidade possuía um explicação perfeitamente inocente. Depois da noite passada, tinha de ser assim. Ela não ia ficar se torturando ao imaginar besteiras, ia?  
Tremendo por dentro, Demi entrou no salão principal. As antigas paredes de pedra pareciam congelá-la até a alma, ao invés de criar a costumeira calma bem-vinda do ambiente. O silêncio parecia um fardo pesado sobre seus ombros. Agora que estava em vias de começar a sua busca por Joe e pela outra mulher, não sabia se tinha coragem o suficiente, se conseguiria suportar caso o que não podia evitar de suspeitar fosse verdade, não depois de fazer amor com Joe e se sentir a mulher mais linda e desejada do mundo.  
Com a adrenalina correndo nas veias, quase morreu de susto quando Rosa, pisando de mansinho com seus velhos sapatos de tona, tocou-a nos ombros. Preocupação e censura estavam estampadas nas feições bonitas. O sorriso constante estava ostensivamente ausente. Desconcertada, Demi ordenou a si mesma a não ser covarde. Tinha que esclarecer tudo isso, é claro que tinha. Ela disse:  
— Estou procurando pelo señor. Sabe onde ele está?   
Uma ligeira carranca encobriu os grandes olhos castanhos.  
— Eu ia levar café e conhaque para ele e depois embora... solo — falou com certa dificuldade, no seu inglês rudimentar. — Você embora também. É coisa ruim quando a bela Isabella descobre marido ter outra mulher. Muitas explosões! O señor precisa de... privado. Então você embora também?  
Ir embora. Era a única opção. Demi decidiu quando Rosa desapareceu para atender ao pedido de Joe de café e conhaque. Mal conseguindo se mover devido à dor que invadiu cada centímetro do corpo, ela se arrastou até os aposentos que recebera nos andares superiores.  
Permitir que Joe a enganasse uma vez já fora um erro terrível. Permitir que isso acontecesse novamente deveria ser um pecado capital!  
O fato de não saber que ele era casado não era desculpa, criticou-se ao fechar a porta atrás de si e encostar-se debilmente contra ela, sentindo um nauseante nó no estômago. Deveria ter perguntado.  
Deveria ter adivinhado. Um homem tão lindo, absurdamente sexy e podre de rico, já teria sido fisgado há muito tempo.  
Isabella, como Rosa a chamara, obviamente descobrira que Joe estava enfurnado com uma outra mulher no seu esconderijo preferido, como ele mesmo o chamara. O lugar que a família mal visitava, onde seus pecados, e que pecados eles eram, poderiam ser escondidos.  
Mas alguém deve tê-lo dedurado — quem sabe Rosa, devido a algum tipo de lealdade familiar? —, e a esposa enganada aparecera para confrontá-lo. Exigir explicações estava fora de cogitação. Percebia isso agora, pensou em meio a uma onda de exaustão. A pobre esposa já tinha problemas o suficiente sem ter que ficar frente a frente com o objeto da última escapulida de Joe 
Sentindo-se péssima pela sua participação neste caso sórdido, Demi caminhou titubeante até o armário para pegar as suas roupas. Apenas o que trouxera consigo, pois nunca mais queria pôr os olhos em cima do guarda-roupa caríssimo que ele lhe comprara.  
Em um minuto trocou a saia e a blusa sexy que estava usando. Mas primeiro precisava ter certeza de que tinha todo o necessário. Um torpor horrível tomava conta de sua cabeça, o cérebro consumido pela terrível descoberta. Se não se controlasse, poderia acabar no aeroporto sem o essencial, histérica e sem saber direito o que fazer.  
Virando o conteúdo da bolsa na cama, ao lado da mala e da pilha desarrumada de roupas que ali jogara, vasculhou o que um homem comum classificaria como lixo — pentes, batom, lenços, molho de chaves, uma agenda surrada, um punhado de cartas velhas e cartões postais de amigos — e localizou o passaporte e a carteira. Usaria o cartão de crédito para pagar a passagem para Londres mas, infelizmente, precisaria implorar por uma carona até o aeroporto.  
Será que Manuel estaria disposto a levá-la? Isso não deveria ser problema, concluiu, nauseada. Rosa não insistira para que fosse embora? A espanhola podia estar desgostosa com ela, mas certamente cuidaria para que o marido facilitasse aquela solução razoável, mesmo que fosse só para vê-la pelas costas.  

3 comentários:

  1. Tenho certeza que demi entendeu tudo errado, não tem como o Joe já ser casado, eu ficaria em choque, tonamandi e To super anciosa, quero mais

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  2. Eu to torcendo pra Demi ter intendido tudo errado.

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Espero que tenham gostado do capítulo :*